“O discurso da ideologia de gênero vai mais além do Vox. Há toda uma estratégia internacional que o respalda.”

A ‘ideologia de gênero’ é usada por setores mais conservadores, alguns bispos da Igreja Católica, o Vox ou coletivos como a HazteOír. O termo cresceu fortemente nos últimos anos por fazer referência ao feminismo e aos direitos LGTBQIA com o objetivo de desacreditá-los. No entanto, não é apenas uma expressão. Trata-se de um discurso e uma estratégia construídos internacionalmente para impor uma agenda política ultraconservadora. Assim é explicado pelo pesquisador David Paternotte, professor de Sociologia e Estudos de Gênero na Universidade Livre de Bruxelas (ULB). Autor de várias publicações sobre o tema, Patternote há anos vem analisando “a rede internacional” que há por trás dessa retórica, que, assegura, “não devemos subestimar”.

De donde sai esse discurso?

Ele tem sua origem no Vaticano, na época de João Paulo II, e após as conferências internacionais das Nações Unidas no Cairo sobre população e desenvolvimento (1994) e em Beijing sobre mulheres (1995). Na primeira, foram reconhecidos os direitos sexuais e reprodutivos, e em 95 foi introduzida a palavra gênero. A Igreja Católica se opôs muito a essas reuniões, mas perdeu; então, começou a construir esse discurso culpando os avanços das mulheres por uma suposta radicalização. O que significa dizer que após o discurso de igualdade e não discriminação haveria uma conspiração perigosa nas mãos de pessoas que queriam tomar o poder.

Como isso evolui a partir desse momento?

Isso é uma primeira fase. Pouco a pouco, se foi convertendo em uma estratégia formal de ação à qual outros atores pertencentes a redes da Igreja se unem, mas não apenas eles. Também há grupos de extrema-direita, partidos políticos, associações ultraconservadoras e, mais recentemente, países como Hungria, Rússia e Brasil. Articula-se assim um movimento internacional que compartilha estratégias, referências e discursos. Segundo esses atores, a esquerda dominaria o mundo das ideias e, frente a isso, o que dizem é: ‘se quisermos ganhar a batalha, temos que lutar no mundo das ideias e temos que substituí-las por outras’. Aí entraria, por exemplo, a insistência do Vox na Espanha de não utilizar o termo violência de gênero e chamá-la constantemente de violência intrafamiliar. Em meados dos anos 2000, começa a haver manifestações contra certos avanços legais e, mais ou menos a partir de 2010, começaram a se mover por vários países ao mesmo tempo.

Qual o objetivo disso?

O primeiro é frear o que se conquistou em matéria de direitos das mulheres e das pessoas LGTBQIA. Para ilustrar seus objetivos, claramente vimos na Espanha, com o bispo Rouco Varela à frente, como se opuseram ao casamento igualitário aprovado em 2005 ou agora com o que o Vox chama de ‘leis doutrinadoras’, que são as leis contra a homofobia e a transfobia. Em 2013, na França, uma manifestação similar contra o casamento homossexual se ergueu também e na Croácia os conservadores ganharam o referendo para especificar na Constituição que o casamento era a união entre um homem e uma mulher.

Não obstante, agora esse discurso é usado também por muitos atores de extrema-direita e populistas, como Putin na Rússia ou Bolsonaro no Brasil, que o empregam como estratégia para mobilizar a população. Ficou entendido que são temas muito potentes simbolicamente para encarnar o projeto político que têm.

Trata-se de um movimento internacional com diferentes agentes, mas quem são eles?

Hoje em dia, a rede é cada vez mais importante e não há um ator central, mas uma constelação de vários tipos de agentes e muitas associações que têm encontrado aqui um campo comum. Eles têm redes específicas sobre isso. Uma importante e das mais ativas é a CitizenGo, uma organização internacional vinculada à HazteOír que aglutina representantes e grupos de todo o mundo. Em seu site podem ser assinadas petições desse tipo, mas na prática é um lobby que canaliza essa agenda política conservadora. Também há outras, como a estadunidense Aliança para a Defensa da Liberdade, Ordo Iuris (na Polônia e Croácia) ou a One of Us, uma federação antiaborto presente em muitos países da Europa e à qual pertencem coletivos espanhóis.

Um de seus espaços importantes é o Congresso Mundial das Famílias, um evento anual no qual se juntam e definem a agenda. Este ano foi em Verona (Itália) e a escolha do local não foi casual. De fato, foi um encontro apoiado pela ultradireitista Liga, de Matteo Salvini, que participou do congresso com dois de seus ministros, incluindo o da Família.

Nós acompanhamos suficientemente os passos desses tipos de grupos e discursos?

A verdade é que não se tem seguido muito os passos desses atores. Na Espanha, por exemplo, não se tem monitorado o assunto e a impressão da população e dos analistas tem sido ‘já superamos tudo isso. A página do franquismo já vai longe. Temos o casamento igualitário ou a lei de violência de gênero’, mas ao mesmo tempo se esquece que esses atores ainda existem e se mobilizam. Agora as pessoas acordaram olhando o que acontece com o Vox como se fosse algo novo, mas há uma longa história. Esquecemos que o discurso da ‘ideologia de gênero’ que foi construído vai mais além desse partido, que não inventou seus argumentos e que não ocorre apenas na Espanha. Há toda uma rede e uma estratégia internacional que o respalda.

Em um momento como o atual, marcado pelo auge do movimento feminista, qual grau de influência todo esse discurso tem?

Para começar, condicionam os termos do debate e vão introduzindo suas ideias pouco a pouco. Eles não são maioria, mas se os partidos que defendem essas ideias e têm vínculos com essas organizações são necessários para formar governos, vão estar disponíveis. Estamos vendo isso. Com o Vox, na Espanha, mas não apenas com ele. Estamos comprovando que têm capacidade para influir nas agendas políticas, inclusive em alguns países chegaram ao poder, como no Brasil, Itália, Hungria ou Polônia. Nesses dois últimos, estão debatendo agora os direitos LGTBQIA e, por exemplo, na Hungria, o presidente Viktor Orban suspendeu as disciplinas de estudos de gênero. Se chegam ao poder, podem mudar leis. Em muitos desses países, ocorreu a retirada de financiamento a associações que apoiam os direitos LGTBQIA ou das mulheres e se transferiu os recursos aos grupos que promovem a natalidade, por exemplo.

São discursos claramente ultraconservadores e contrários a direitos fundamentais, mas existe o risco de serem assimilados pela população. Que tipo de estratégias eles seguem?

Utilizam várias ideias. Partem do suposto de que há reivindicações feministas boas e más. E essas últimas são chamadas “as ideias de gênero”. Vendem-se como defensores da igualdade, mas se opõem a esse feminismo que consideram radical. Insistem ainda que se trata de uma conspiração política. Aí emerge o discurso que muitas vezes o Vox usa de que se trata de algo totalitário, que ‘já não se pode pensar nem dizer nada’ e que as feministas e as pessoas LGTBQIA querem tomar o poder e doutrinar a sociedade. Nesse sentido, utilizam-se do vitimismo como estratégia.

Mónica Cornejo-Valle e J. Ignacio Pichardo Galán apontam em uma pesquisa que a Espanha foi uma espécie de “laboratório” europeu sobre esse tema.

O país desempenhou um papel muito relevante. Na Espanha, a partir de 2005, mais ou menos, começou a haver mobilizações encabeçadas por esses grupos e parte dos bispos. Não nos demos conta de que não era apenas a Igreja que se opunha às leis de Zapatero porque era papel dela se opor, mas também na Espanha, como na Itália, Croácia ou Eslovênia, foram testadas estratégias contra essa agenda de direitos feministas e LGTBQIA.

Entrevista a Marta Borraz publicada no site eldiario.es, em 15 de agosto de 2019. Disponível em: <https://www.eldiario.es/sociedad/discurso-ideologia-Vox-entramado-internacional_0_931257041.html>. (Via podcast Larvas Incendiadas)

Tradução: Luiz Morando.

O experiente pesquisador e sociólogo David Paternotte traça um breve, mas interessante percurso sobre o aparecimento e o uso que a extrema-direita fez da expressão ‘ideologia de gênero’.

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