13 teses do feminismo marxista face à ultradireita e ao esquerdismo neoconservador

A ultradireita se espalha como óleo por toda a Europa há anos. Lentamente, mas com segurança. Sem descanso, ontem, ela entrou nas instituições da Andaluzia. Este artigo e o vídeo não são uma análise precisa, mas pretendem ajudar a articular uma frente política e discursiva comum (mesmo que não uniforme) que dê resposta a este contexto.

A expansão da ultradireita tem causas diversas (algumas das razões são colocadas no livro Privatizar la Democracia: capitalismo global, política europea y estado español, 2018). Neste artigo, comentarei brevemente a situação atual. O vídeo ao final prossegue na tentativa de dar um quadro amplo, aberto e reformulável, que temos que seguir enriquecendo entre todas e com todas as correntes feministas para fazer frente aos ataques que estamos sofrendo neste heteropatriarcado capitalista cada vez mais selvagem.

A primeira coisa que tem que ser destacada e que a mídia tende a ocultar é que a ultradireita sempre foi uma prática de extrema misoginia, caracterizada pela xenofobia e a homofobia, mas com um detalhe (um desses detalhes, como as letras miúdas de contratos de hipoteca que, se você não lê bem, podem te deixar sem casa, morta de frio e de pobreza): todas essas fobias e ódios ocorrem em sociedades patriarcais e capitalistas.

Por isso, quando a ultradireita cresce, geralmente, não é só porque a democracia é privatizada no sentido de que se mercantiliza de forma extrema a população, despojando-a, explorando-a, financiando e privatizando os recursos naturais, cognitivos, sistemas públicos de saúde e de educação, serviços, transportes, mecanismos e territórios públicos e comuns. Isso ocorre também porque o discurso e os referenciais de pensamento e percepção hegemônicos se voltam para a direita, já que o fato de que haja práticas (como a exploração ou a privatização ou o linchamento de feministas, muçulmanas, pessoas trans ou corpos racializados) que consideramos aceitáveis ou inaceitáveis está relacionado também com os referenciais de percepção e pensamento. Por exemplo, o que antes era (se percebia e pensava como) de esquerda passa a ser extrema-esquerda; o que era de direita passa a ser de centro-esquerda e o que era de ultradireita passa a ser percebido, pensado e votado pela população como centro-direita. Ou seja, que não só se explora e oprime a população de forma mais bárbara (mediante a necropolítica e as tecnologias de desapropriação e precarização radical), mas também quem antes votava ou militava à esquerda passa para a direita.

Além disso, sem realmente chegar a passar para a direita, vemos como muitas das propostas do esquerdismo neoconservador (ou, como diria Marx, infantil e maximalista) coincidem com muitas das propostas da ultradireita (leiam o artigo sobre Salvini de antigos membros do Partido Comunista e Esquerda Unida; leiam as várias versões, em livro, pela imprensa e no Twitter, de La trampa de la diversidade; leiam os grafites que pedem socialismo e tacham o feminismo etc.). Coincidiram várias vezes já com propostas a favor de empoderar socioeconomicamente certa classe operária de homens brancos, deixando o resto da classe trabalhadora de fora: migrantes, racializadas, mulheres, sobretudo se são feministas, gays, trans etc. já que essa diversidade rompe com a classe operária dos homens brancos, favorecendo sua desapropriação por parte do capitalismo global, segundo eles. Elas ainda são acompanhadas de propostas essencialistas e neoidealistas no que se refere ao âmbito cultural (tal como eles definem o cultural e o socioeconômico que, como se diz no vídeo, não é mais que o marco misógino, cristão e liberal a partir do qual homens brancos de certas classes têm pensado o mundo ao longo da vida).

A isso, devemos acrescentar o fato de que cada vez que há uma onda feminista, surge uma cumplicidade, sobretudo entre homens (de direita e de esquerda) que entram em acordo para ir contra o feminismo e as demandas feministas, como já ocorreu na primeira, segunda e terceira ondas feministas. Eles fazem isso com estratégias para dividir o feminismo em dois (as ruins, isto é, as que nos incomodam – feminazis, burguesas vendidas etc., que dizem que a classe dos homens é uma classe política e socioeconômica e que a existência de dita classe é o pilar fundamental da reprodução do heteropatriarcado; e as que não nos incomodam – as que não põem o heteropatriarcado como sistema de dominação predominante ou igual a, digamos, o capitalismo autóctone e colonial).

O vídeo que deixamos aqui foi realizado para o Congresso sobre Marxismo no século XXI, na Universidade de Valencia. Decidi torná-lo público devido ao pedido de diversas associações feministas, assim como de sindicatos e certos movimentos sociais em Euskal Herria e Catalunha.

Espero que ele nos ajude a continuar pensando e lutando juntas contra essa ofensiva heteropatriarcal e capitalista, xenófoba, homófoba e imperialista, que vivemos.

[Nota: Há vários erros no vídeo, típicos do live. Um deles é que, ao final, digo “a classe dos homens explora as mulheres” e queria dizer “domina” como termo genérico que pode implicar exploração, mas não necessariamente, como também outras formas de domínio como opressão, subjugação, subordinação etc. Também quero sublinhar que o tempo era limitado e não consegui explicar nem incluir outras questões de absoluta relevância.]

Texto de Jule Goikoetxea publicado em 3 de dezembro de 2018 em Pikara online magazine. Disponível em: http://www.pikaramagazine.com/2018/12/ultraderecha-feminismo-marxista/

Tradução: Luiz Morando.

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