FAÇA-ME (SUSI) SHOCK!

SOY se reuniu com Susy Shock para escutar com exclusividade Traviarca, seu segundo álbum de estúdio, vibrante, fresco, valente. Canção por canção, ela recorda as companheiras perdidas em uma morte injusta e prematura e também daquelas presentes nas lutas que não cessam. Hoje ela se apresenta em um grande show no Margarita Xirgu e conta aqui intimidades do que significa ser uma cantora de trincheira.

Uma traviarca é uma travesti que, por sua experiência e sabedoria, é respeitada por um grupo familiar ou uma comunidade na qual goza de autoridade. A definição é caseira e profunda, não aparece em dicionários, é formulada com a força de vidas. Profundamente inspirada pelo trabalho da ativista Lohana Berkins, a performer, artista e poeta Susy Shock deu esse título a seu novo álbum. Susy foi construindo sua carreira a partir do circuito underground, das funções em Noches Bizarras no meio do desastre social de 2001, respeitando em sua produção artística os fundamentos da memória coletiva, do tempo que foi tecendo em meio ao trabalho com amigues e aliades uma teoria trans, uma maneira cálida e fraterna de ver o mundo para responder aos desafios do futuro. Uma teoria que é implantada às vezes por dentro, mas também por fora da academia, em canções, toadas, conversas e sobretudo tramas de travestis sudacas[i].

Dez anos atrás, Susy já era Susy quando recebeu SOY e dava sua primeira entrevista a um meio de comunicação nacional. Hoje, que já é muito mais conhecida e admirada por um público maior, a artista olha para trás, revive essa década na qual perdeu seres queridos – de sua família de sangue e de sua família eleita –, mas também na qual nasceram novos filhes, irmãos e irmãs e uma rede de amor e solidariedade que se move em torno de sua vigorosa voz e sua comovedora presença no palco.

Com este novo disco que apresentará oficialmente hoje, 23 de agosto, no Teatro Margarita Xirgu, Susy divulga a cultura travesti argentina das margens e se projeta como figura internacional, com uma marca rioplatense onde se notam suas constantes viagens ao Uruguai e destila ao mesmo tempo a energia de um neotropicalismo queer preparado contra a teocracia direitista de Bolsonaro no Brasil.

O que mudou como presença de travestis ou trans na trincheira artística nos últimos dez anos?

Volto ao começo e digo: agradeço poder trabalhar com autogestão. Porque é assim que trabalhamos. Desse modo, produzimos material audiovisual, pensamos e construímos também uma teoria autogestora. Fazíamos e continuamos fazendo isso em um contexto adverso, onde não interessa a eles nos dar um lugar, eles nos ocultam. O poder real está nos conteúdos e com quem os maneja. Assim, a mudança é de formiga, não a estamos fazendo em larga escala: quando uma trava ou trans estiver trabalhando no editorial de um noticiário, aí o mundo notará a diferença.

É verdade, mas alguma vez você já sonhou acessar tanto material audiovisual com temática travesti, trans, como ocorre agora?

Nunca! Venho do underground, sabemos que estamos embaixo, na margem, na borda e nunca podíamos imaginar o que estava chegando no circuito mainstream (filmes bem feitos, cuidados, com bons roteiros) a partir do filme Mia; a participação de Flor de la V em uma tira familiar pelas mãos de Tinelli… Não quero esquecer outros exemplos, mas esses são mais ou menos da mesma época, eram os primeiros brotos.

E os brotos novos?

Por exemplo, a novela de Camila Sosa Villada, Las Malas. Saiu por uma editora grande como a Planeta e tanto Marlene como eu fomos convocadas para escrever a contracapa de um trabalho que nos encantou. Já saiu o libro de Alexa Petone, de San Pedro, que conta a história de sua vida através de relatos e ilustrações de crianças na escola, em forma de contos. Há o mangá sobre infâncias trans de Freddy Tolosa em Montevidéu que acaba de sair aqui e acho que SOY ainda não divulgou… Continuo respondendo a primeira pergunta: está sendo criada muita coisa, apesar de um mundo que bloqueia e não deixa que nossas coisas aconteçam.

O mundo bloqueia ou apenas sofremos uma mudança abrupta de modelo que interrompeu esse vislumbre de empoderamento que as minorias vinham experimentando com o kirchnerismo?

Veja, há alguns que já não falam de maneira inclusiva com o “todos e todas” porque entendem que esse gesto implica referenciar muito ao cristinismo

[de Cristina Kirchner]

, quando tem a ver com o feminismo. Não entenderam nada e não apenas isso. Nos últimos anos houve enormes atrasos culturais e há um setor que sempre odiou nossas lutas, farto de brigas… e agora se animam a demonstrar esse asco. Nas piadas e em tudo. As pessoas riem do uso da linguagem inclusiva, não se dão conta de que sentem falta da arca de Noé e serão extintas como os dinossauros se não subirem junto com a onda. Isso é inexorável. Mas, aliás, nós não somos ninguém.

A vanguarda é questionar tudo o que é antigo, abrir paradigmas, ir para outro lado…

São decisões políticas. Falo daqueles que NÃO estão tomando decisões. Estamos nos nomeando de outro modo. Não deixa de ser político que a Academia Real Espanhola considere mais correto o “tqm”[ii], “youtuber” e “guasap”[iii] que o “todes” e que os reúna a seu manual de estilo, após recusar sistematicamente nossos modos inclusivos.

Você vê alguma saída do túnel das direitas no qual estamos viajando?

Você me conhece muito, sabe como penso, e acho que, desde a volta da democracia até agora, se opera uma mudança para além dos partidos, dos governos. Ela vai crescendo, sem freio. Há algo iniludível: hoje temos infâncias trans! Não se pode frear isso, nem que venha um Herodes matar todas as crianças para evitar que nasçam crianças trans. Isso está relacionado com as Lohanas, as Dianas, as Noy, as Marlene, há tantas… Em cada província me encontro com outras amigas, como Nadia em Trelew… Estão vivas! Um dia, estávamos conversando, éramos três companheiras sobreviventes, e eu disse: “Aqui tem 150 anos nesta mesa” e caímos na gargalhada. Lembremos de Malva, a trava que com seus 17 anos na década de 50 atravessou a pé a cordilheira para sobreviver. Ela pôde ultrapassar a média de vida de 35 anos e muito mais. Para nós, essa também é uma situação muito nova. Perguntei a Claudia Rodríguez, do Chile, dias atrás… “E agora? O que pensamos?” Nem ideia! Como queremos continuar? Há um grande trabalho pela frente.

E como nos defendemos?! Você testemunhou a crescente homofobia no Brasil…

Em nosso país temos uma base sólida de direitos humanos, que é o que nos deu cidadania. Um Bolsonaro aqui, não sei se é possível, embora não descartaria. Na discussão sobre aborto, os conservadores saíram às ruas; uma praça nos separava. Eram menos, mas faziam barulho e eram violentos. Eram menos, mas tinham filhos. “Com nossas crianças, não”, deveríamos dizer-lhes, porque dentro de seus retorcidos pensamentos gestam crianças trans, gays etc. Por que temos que nos machucar tanto? O que motiva tanta violência? Penso ser o desejo. Expressar o desejo, nós sabemos desses desejos ocultos… Quando eles desligarem esse heteronômetro constante que lhes diz como atuar face à vida, face a seus filhos, a coisa será muito mais livre. Portanto, isso é um fracasso, porque o desejo permanece oculto. Quando esse desejo vem à luz, acaba-se a violência.

O que está ocorrendo com o formato família?

Teríamos que perguntar às famílias. Deveriam perguntar isso. Temos que discutir que tipo de homem ou de mulher essa hegemonia heterossexual pretende ser. Nós seguimos abraçadas ao feminismo, que também foi nossa luta. Eles nos prendem no “mulher”, mas não nos nomeiam entre os feminicídios. Das lutas surgem projetos muito interessantes, tanto é assim que na Colectiva Lohana Berkins começamos com um montão de pessoas e apenas a comissão artística sobreviveu: a que hoje é Cotorras, a que ajudou a obter o primeiro livro de Marlene Wayar, com quem estamos terminando uma temporada para a televisão. Nos demos conta de que essa é nossa agenda; a da arte, a do pensamento crítico. A ferramenta poderosa da arte tem a ver com ensinar a essa hegemonia (também para muitxs pares) que é uma ferramenta importante e é a que os observa, os põe em discussão.

Desde a primeira entrevista para SOY, lá em 2009, você sempre foi muito consciente de que sua luta estava na militância artística…

Quando conheci Marlene e Lohana, no assentamento 8 de Maio – ali onde o asfalto termina e onde as crianças deveriam ser alimentadas –, eu já tinha uma praticidade com a arte e dava oficinas de teatro. Antes disso, algumas pessoas escutaram minhas composições musicais e me levaram para cantar na Federação de Box. “Vá lá e cante”, me disseram, e anos depois, quando conheci as meninas, senti algo parecido: “nós tricotamos, você canta”. É outra ferramenta, acompanhe.

E o que acontece quando vocês, as pioneiras, saem do palco?

Há brotos, sementes, muitas pessoas trans, travestis que escrevem. Há patrocínios, muitas crianças começarão a escrever conosco nos palcos. São mais insolentes, há menos ressentimentos, há famílias por trás, sonham juntas com outras pessoas. Vêm outros e outras, têm memória, conhecem as referências, sabem o que aconteceu. Em Montevidéu, estou dando algumas oficinas de escrita e tendo a possibilidade de ler para muitos homens trans, que sabem o que aconteceu, sabem de nossas lutas e podem produzir beleza para discutir a mesma coisa. Fazemos poesia, não um noticiário. Aí está a diferença.

Somos companheiras e testemunhas de muitos empreendimentos culturais federais…

Quando você e eu nos conhecemos, há 10 anos, estávamos em um momento de fechamentos de espaços culturais. Aquele vizinho/a que suspeita de tudo, facistoide, começou a empoderar-se e isso nos tirou muita energia, nos afogava. Agradeço também ter para onde voltar todos os anos. Por exemplo, fui cantar em dezembro em La casa de las locas, em Rosário, para poder pagar as contas de janeiro, para te dar uma ideia da forma artesanal de trabalho… outras são Las Harpías de Salta… o Assentamento Fernseh de Córdoba, o Festival de Bolsón… Isso foi sendo construído pouco a pouco. Há um público que tem a ver com o ritual, nossa tribo, acompanhada pelos meios de comunicação alternativos e o boca a boca. Esta é uma época que discute as lógicas passadas, gerentes, editores, representantes etc. etc. que talvez já não funcionem. É mentira que a EMI virá e lançará seu disco. Estamos vindo do NÃO. Sempre digo que este suplemento, SOY, foi o primeiro meio de alcance nacional que me deu voz. “Destravarte”, outra plataforma dessa época.

Conte-me o episódio com Judith Butler… Morri quando vi o vídeo em que ela se referia a você!

Fui à Universidade Federal da Bahia com Marlene Wayar (estamos fazendo muita referência a ela, deveríamos tirar alguma ou fazermos uma nota “Marlene Wayar” (risos)). Fui convidada a cantar e tive que subir ao palco justo após uma oficina onde esteve Judith Butler; ela se sentou na primeira fila, escutou o poema “Monstruo” e então cantei uma música a capela. Quando ela se referiu a mim em um vídeo, o WhatsApp explodiu! Isso encheu meu ego, cinco minutos… “Ponha-o na panela”, diria minha avó.

Quais lembranças você tem do filme Mia?

Outro dia, eu lembrava a Say Sacayán (irmão da travesti militante e amiga Diana Sacayán, assassinada por travestifobia) que, muito antes da lei de identidade de gênero, estávamos rodando Mia e quem cobrava para o sindicato de extras, no primeiro dia, começou a nos chamar por nossos nomes de registro civil, face ao que Diana se levantou como leite fervido, levou o pobre homem para um canto e, daí a minutos, ele começou a nos chamar pelo número: venha a 8, passe a 9… cobramos sendo um número, mas cobramos. Fiz um teste para esse filme, mas o papel a que aspirava no final foi dado a Naty Menstrual. Javier Van de Couter, o diretor, me chamou para me informar timidamente que eu não faria o papel de “Antigua”, ao que lhe respondi que queria aparecer de qualquer maneira no filme, seja como fosse, porque sabia que era um filme que ainda hoje considero épico.

CANÇÃO x CANÇÃO

Proponho a Susy escutar juntes as canções do disco que ela apresentará esta noite, quase em silêncio, sentadxs no sofá. A foto da capa é de Marieta Vazquez; os grafismos são de Anahí Bazán Jara, filhx de Susy. O título “Traviarca” provém da canção “Celebrándote Lohana”, dedicada a Lohana Berkins, a grande referência travesti. E esta entrevista vai se encerrando assim, com a ternura e a inteligência com que se vão passando as canções, as coplas, as toadas. De vez em quando, Susy me conta algum detalhe, ou me responde a algo que me chama a atenção. Escutemos…

Entrevista a Juan Tauil, publicada no caderno Soy do jornal Pagina 12 em 23 de agosto de 2019. Disponível em: https://www.pagina12.com.ar/213429-haceme-susi-shock.

Tradução: Luiz Morando.

A performer, artista e poeta argentina Susy Shock lança seu novo álbum de músicas chamado Traviarca. Na entrevista ao suplemento SOY do jornal Página 12, ela fala um pouco sobre sua experiência como ativista.

[i] Sudaca é um termo latino-americano com uma referência pejorativa, resgatado e autoatribuído com um valor afirmativo no quadro das disputas de identidades. No sentido pejorativo, é como se significasse ‘latino de merda’.

[ii] Tqm: forma abreviada de ‘te quiero mucho’.

[iii] Guasap: forma popular de se referir ao WhatsApp (de moo similar, nos referimos no Brasil como zap ou zapzap).

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