NECROTOPIAS – NOTAS SOBRE FASCISMO E ECOLOGIA

Para Emyra Waijãpi

Há uma fotografia icônica de Yevgeny Khaldei da tarde da tomada de Berlim pelo exército soviético, em 1945: sobre um Reichstag destruído, um soldado hasteia a bandeira da URSS; abaixo, veem-se edifícios completamente arruinados e fumaça negra, fuligem, manchas escuras dos incêndios dos bombardeios.

Talvez seja um erro começar este texto, no contexto a que se destina, com uma imagem soviética – sobretudo porque se trata de uma encenação. Polaridades inimagináveis se redesenham como o palimpsesto de um muro de Berlim, em Brasília. Mas nenhuma outra imagem é tão clara em dizer do urbanismo fascista, o que ele é: uma necrópole, ruínas.

Há cerca de dois anos escrevi pela primeira vez para esta página. À época, à força de um linchamento simbólico, me vi obrigado a um exercício canino: farejar as chamas que se eriçaram contra a arte e os livros desde seu despertar, na crise da Idade Média. Não imaginava, porém, que em seguir a fumaça até os incêndios de uma certa política me transportaria para dois anos à frente – e que então eu voltaria a escrever sobre o mesmo assunto: as chamas.

Passemos a outra cidade: uma megalópole de concreto e aço, estrambólica e rocambolesca, com seus passantes apressados, robotizados por aparelhos teleguiados acoplados às suas funções orgânicas – têm a visão e a audição bloqueadas por espaços alhures, brilhantes. De repente, engolida por uma nuvem negra de cinzas; de repente, faz noite em pleno trópico às três horas da tarde, e a luminosidade é como a da meia-noite. Não se trata de Blade Runner. Foi São Paulo às quinze horas de segunda-feira, 19 de agosto. Cerca de duas semanas antes, no dia cinco, o jornal local Folha do Progresso, da cidade paraense de Novo Progresso, denunciara a articulação de um “dia do fogo” – que, ao que tudo indica, aconteceu no décimo dia do mês. Trata-se de nada menos que uma convocatória à queimada de mata nativa (amazônica) por fazendeiros locais. O que sempre aconteceu ganhou proporções coletivas e deliberadas; com os órgãos de fiscalização amordaçados pelo corte de investimentos ou de apoio policial, com as multas tornadas negociáveis e a presidência diminuindo a importância da preservação ambiental, o fogo foi impulsionado à desmedida e chegou a ser visível por satélites – da NASA. A fumaça viajou com a frente fria nove dias e cerca de quatro mil quilômetros até a capital paulista. E a engoliu.

Dois dias depois da publicação da Folha do Progresso, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), Ricardo Galvão, foi exonerado em uma refrega pessoal com o presidente da república. O motivo teria sido sustentar dados de satélite do instituto que indicavam um crescimento de 44,7% do desmatamento em relação ao ano passado[i]. Na mesma esteira, no dia 12 de agosto, um conflito diplomático com a Alemanha levaria ao congelamento de repasses ao Fundo Amazônia. Agravado pelas declarações da presidência, o desacordo terminou com a suspensão dos investimentos dos dois maiores mantenedores do fundo, Alemanha e Noruega, totalizando a perda de cerca de 288 milhões de reais usados para os mais diversos fins, desde a manutenção de helicópteros à confecção de uniformes de brigadistas. Quando, por fim, os mais de duzentos focos de incêndio chegaram à imprensa internacional, biomas e países vizinhos já haviam sido atingidos.

O que une todos esses relatos, a Amazônia incandescente, São Paulo em agosto de 2019 e em novembro de 2017[ii], e, mais distante, talvez, a Berlim nazista e a crise da Idade Média, é o fogo. Ou aliás, aquilo que ele traz: a morte. Os dados do INPE atacados pela presidência alertavam rigorosamente para o crescimento da degradação ambiental na bacia do Xingu, lar de vinte e seis etnias indígenas cujas terras, demarcadas em reservas, foram invadidas por incêndios criminosos. Mata nativa, animais silvestres e espécies vegetais foram destruídos, mas também os meios de vida de minorias étnicas que já correspondem a somente 0,47% da população[iii].

O fogo foi um ataque a um dos biomas considerado mais rico em biodiversidade no mundo; atingiu populações etnicamente minoritárias e, por fim, espalhou fuligem e fumaça pelas capitais do país, asfixiando neonatos e idosos. Em dois pontos devemos nos deter: em “βίος”, radical grego que dá origem ao prefixo “bio” em português, e no que é a diversidade. No que tange à vida, o regime em curso é claramente antagônico: prima pelo latifúndio e a monocultura que desertifica solos, pela mineração sob biomas importantes, mantenedores de chuvas e fauna autóctone; libera extensivamente pacotes de agrotóxicos proibidos no mundo todo e no Brasil agora usados em culturas alimentares humanas. Alguns deles fortemente indicados em estudos de carcinogênicos. No que tange à diversidade, esse governo desmoraliza e desampara minorias étnicas, deixando à mercê populações indígenas e os ecossistemas que habitam; fez crescer entre 12% e 17% o número de mortes em ações policiais, com forte recorte racial (incidindo sobremaneira sobre negros favelados)[iv]; bloqueia quaisquer pautas acerca da diversidade de gênero ou sexual. É, portanto, um regime que se opõe em todos os níveis à biodiversidade e, em última análise, à vida.

Em seu prefácio ao Antiédipo, de Deleuze e Guattari, Foucault nos apresenta o fascismo como o maior inimigo da descolonização do inconsciente. Ele diz:

E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas –, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora[v].

O fascismo a que nos referimos está longe de ser um regime político bem situado no tempo e espaço de um momento histórico, mas é, antes, uma ideologia – um conjunto de crenças e uma forma de se associá-las; a gramática invisível, mas presente, de um sistema de signos específico. Uma forma de se fazer política. E sua marca talvez reichiana é a maneira como mobiliza o desejo das massas para uma pulsão coletiva de morte. O fascismo odeia a diversidade. O fascista repudia gays, judeus, negros, índios, pobres. Mas também a educação, a cultura – tudo aquilo que nos faz mais humanos e, portanto, mais vivos; tudo aquilo que ativa e agencia as nossas potências inconscientes: o prazer, a felicidade, o estudo, o desenvolvimento, a inclusão (essas coisas pertencem à pulsão de vida, princípio de Eros; à Revolução). Aqui retornamos a uma dicotomia freudiana muito clara e anterior à ascensão do nazismo, que veio confirmá-la: aquela de “Além do princípio do prazer”, entre pulsão de vida e de morte, Eros e Tanatos.

O projeto subjacente ao fascismo e que o caracteriza é, para Foucault, a total colonização do desejo. O fascismo é, portanto, um regime de agenciamento e controle disciplinar do desejo – e da pulsão de vida, o que lhe torna biófobo, asséptico, e dependente do extermínio. Achille Mbembe descreve seu conceito de “necropolítica” a partir daquele de soberania; em regimes desse tipo, ela se definiria pelo poder de decidir quem vive e quem morre[vi]. Essa disciplina (distributiva) da morte caracteriza o estado tanatológico do fascismo. O fascismo queima florestas, esfaqueia indígenas, dispara de helicóptero sobre favelas, sem aviso nem medida judicial. Quando a fumaça das queimas da Amazônia chega a São Paulo, nos cabe lembrar quando foi a última vez que vimos um regime político afirmar sua soberania através de fornos e gases; através, por vezes literalmente, de cadáveres – ou, como na fala de ataque do presidente da república ao presidente da OAB, por cadáveres em fornos[vii].

Encerro com a pergunta: o que é preciso para se constituir um campo de concentração? Não era a Berlim de 45, fotografada por Khaldei, muito semelhante aos campos libertados, com seus famélicos, suas ruínas, seus mortos e feridos? Talvez o único entrave à extensão de um campo de concentração ao cerco que se faz às favelas ou às reservas indígenas seja o próprio conceito de “campo” – uma vez que a “concentração” já claramente têm. É claro que esses regimes de morte mais esparsos seriam, se muito, regimes “semiabertos” se comparados aos campos nazistas. Mas vejamos porque “campo”: porque há um topos, um lugar, como dizia Hannah Arendt, “fora da vida e da morte” (apud Mbembe, op. cit.) – um in situ, ou um dispositivo espacial, que cerca e recorta um determinado espaço para um regime de exceção. Trata-se de uma demarcação em que se suspendem leis e direitos e a própria humanidade dos que ali estão. A necropolítica precisa, por questões estratégicas de funcionamento logístico, de agenciar esses cercamentos e concentrações para a disciplina e, em última análise, o juízo de vida e de morte sobre sujeitos e populações. Esses lugares são necrotopias e no Brasil, hoje, são favelas e tribos indígenas.

A fumaça que sobe sobre São Paulo asfixiando neonatos, impúberes e idosos, são os meios de subsistência de vinte e seis etnias, além de bichos e plantas, levados à escassez e à obliteração. É a Morte, a namorada do fascismo.


[i] FELLET, J. Desmatamento dispara no Xingu, um dos últimos escudos da Amazônia. BBC Brasil, 8 de agosto de 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/08/02/desmatamento-dispara-no-xingu-um-dos-ultimos-escudos-da-amazonia.ghtml>. Acesso em: setembro de 2019.

[ii] Foi quando escrevi pela primeira vez para este canal, sobre fogueiras. Em 7 de novembro de 2017, um grupo em protesto contra um simpósio de Filosofia da USP queimou um espantalho ornado com as feições da filósofa judia norte-americana Judith Butler. Foi às portas do SESC Pompeia, em São Paulo, na rua Clélia.

[iii] IBGE, 2010. Disponível em: <https://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?busca=1&id=3&idnoticia=2194&t=censo-2010-poblacao-indigena-896-9-mil-tem-305-etnias-fala-274&view=noticia>. Acesso em: setembro de 2019.

[iv] GORTÁZAR, N. G. Confrontado com alta na cifra de mortes por policiais, Bolsonaro ofende Bachelet e defende regime Pinochet. El País, 5 de setembro de 2019. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/04/politica/1567617364_180672.html?%3Fssm=FB_BR_CM&hootPostID=5752ab9f77b895c3d4ccae827776dfce&fbclid=IwAR2oQO62vakID1JV7Zz4DsOd8lHwj8ZALN5uP4zJmrV5s03u_CY-q4DHEMo>. Acesso em: setembro de 2019.

[v] FOUCAULT, M. Introdução à vida não-fascista. Prefácio. In: DELEUZE, G; GUATTARI, F. Antiédipo: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2010.

[vi] MBEMBE, A. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

[vii] Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira foi mais provavelmente incinerado em um forno de usina de açúcar em Campos dos Goytacazes, conforme depoimento de 2014 do ex-delegado Cláudio Guerra à Comissão Nacional da Verdade.

Um comentário

  1. De fato a dúvida inicial do autor é pertinente. É um erro essa imagem, por n razões , sobretudo no momento em que se dissemina uma concepção absolutamente equivocada de que o fascismo é de esquerda. Em seguida há uma afirmação equivocada. O urbanismo fascista se caracteriza sobretudo pelo monumental que se destina, depois do Reich de mil anos, à ruína histórica, memória de grandeza. Acho problemático ao extremo a a-historicização do que quer que seja do fenômeno social. Não existe sociedade fora da História. Mas a História é bem mais indigesta e contraditória, pois os “aliados” botaram fogo na Alemanha e jogaram a bomba atômica no Japão. As tropas russas libertaram prisioneiros nos campos mas Stalin botou outros tantos nos Gulags. Nos EUA também houve campos de concentração, bem como no Brasil. Entre outros equívocos de um texto que tropeça em si mesmo quando é obrigado – lógico – a falar de História, depois de tê-la jogado fora. Com essa crítica não pretendo invalidar os alertas corretos que o texto apresenta.

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