Não se ofende quem se quer ao lado

Em julho passado, surgiu uma nova polêmica em torno do papel das pessoas trans no feminismo. Após algumas conferências na Escola Feminista Rosario de Acuña, em Gijón (Catalunha), alguns oradores expuseram, sem rodeios, seu desconforto com a presença de mulheres trans no feminismo. As conferências viralizaram, e a polêmica do verão estava servida: as redes ardiam e debateram sobre o que é uma mulher entre insultos e queixas. O debate não é novo, emergiu nos anos 1970, nos Estados Unidos, quando uma corrente feminista apontou a transexualidade como um cavalo de Troia no feminismo. Suas ativistas foram apelidadas por suas detratoras como TERF (feministas radicais trans excludentes). Em nosso país, essa corrente anglo-saxã tem sido minoria. Além disso, desde os anos 90, houve várias alianças entre feministas e ativistas trans que moldaram o que foi denominado transfeminismo.

Essa polêmica ilustra as tendências nos movimentos feministas e LGTBI atuais com desdobramentos preocupantes nos movimentos sociais e de esquerda. O primeiro é o auge do identitarismo. Ambas, feministas TERF e algumas ativistas trans, entendem o feminismo como uma luta identitária, ou seja, para promovê-lo é necessário ser mulher. Isso implica, para as TERF, nascer com o sexo feminino, enquanto algumas ativistas trans priorizam a identidade, mas, seja por essencialismo biológico ou subjetivismo, ambas estão presas no mesmo marco. Nessa saga de batalhas sobre quem está legitimado para falar sobre quem, examina-se a posição de quem fala para depois decidir se se pode expressar. Os argumentos passam ao segundo plano, e os debates se reduzem a uma exibição de opressões e dores, em lugar de uma discussão sobre ideias.

Outro desdobramento é o vitimismo. Algumas pessoas trans alegam sentir-se prejudicadas por esse feminismo, acusando-o abertamente de transfobia. O fato de existir uma corrente feminista contrária a incorporar uma perspectiva trans não só não me parece transfóbico, mas também faz parte de um debate saudável e plural. Não compartilho essas posições, mas defendo que possam existir. A transfobia é outra coisa. É promover o ódio contra as pessoas trans. Agora, quando recorrem a comentários infelizes e deselegantes, como referir-se às mulheres trans como “esses tios”, isso denota sua altura política. É gratuito e prejudicial ridiculizar alguém para defender uma postura. Em qualquer caso, o feminismo TERF não me ofende nem pessoal, nem politicamente. A partir do vitimismo não se pode debater.

Há outro vitimismo: essas feministas dizem sentir-se perseguidas pelo ativismo trans. Referem-se, por exemplo, a alegações de que algumas vozes trans se lançam contra o símbolo da vagina (duas mãos formando um triângulo) porque consideram que exclui algumas mulheres trans e, portanto, é transfóbico. No entanto, acho que essa simbologia continua sendo pertinente e não vejo porque exclui as mulheres trans que têm pênis; além disso, embora eu não compartilhe esses símbolos, também não os censuro. Finalmente, como um lembrete gentil, o símbolo da vagina não pode ser transfóbico porque muitos homens trans vivemos com uma.

Agora, o feminismo que se escandaliza com o desdobramento vitimista/identitário de alguns movimentos trans deve se lembrar de sua enorme responsabilidade na promoção dessa cultura política. Algumas feministas cis (não trans) – que se incomodam muito quando dos posicionamentos de pessoas trans que as acusam de serem excludentes ou de falar a partir de seus privilégios – têm que se lembrar que é assim que alguns feminismos tratam os homens. Mas ninguém gosta de experimentar seu próprio remédio.

Essa cultura política se defende com uma coqueteleira de vitimismo e identitarismo cada vez que se sente incapaz de abordar um dissenso político e prefere apontar os dissidentes como inimigos e alimentar os expurgos internos. Todo isso é crédito para o verdadeiro inimigo, que acaba de entrar nas instituições e no imaginário de muita gente. Essa é a pessoa que temos que conquistar e não entregá-la como presente à extrema-direita pela simples razão de que não são como nós. As pessoas cis, as pessoas hetero, os homens são também nossa gente e temos que recrutá-las para as fileiras da luta feminista e LGBTI, interpelá-las com uma proposta gentil, valente, baseada em ideias e não em identidades, e contagiá-las com nossa sede de transformar nossa sociedade para viver melhor.

Miquel Missé é sociólogo e ativista trans. Publicado em El País, 8 de agosto de 2019. Disponível em: <https://elpais.com/ccaa/2019/08/08/catalunya/1565258218_014502.html>.

Tradução: Luiz Morando.

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