Grita, gorda, grita!

Neste verão, tivemos sorte. A autora de Stop Gordofobia y las panzas subversas (que, se você ainda não leu, deve fazê-lo sem dúvida) finalmente teve a decência de nos presentear com o segundo livro que tanto implorávamos que o escrevesse. Por fim, sua nova cria se intitula Diez gritos contra la gordofobia e foi publicado em maio deste ano, na coleção Vergara da editora Penguin Random House.

Magdalena Piñeyro é uma imigrante uruguaia nas Ilhas Canárias, licenciada em Filosofia e mestre em Estudos de gênero e políticas de igualdade. Possivelmente, você a conhece por ser a cocriadora da página Stop Gordofobia, plataforma que se dedica a expor as discriminações por peso de que certo setor da sociedade é alvo (nós, gordas!) e a criticar os cânones de beleza com os quais nos vemos bombardeadas dia sim e outro também. Além de admirá-la por tudo isso, devo admitir e admito que sua faceta que mais me fascina é a de compositora e cantora punk.

A obra consiste em uma introdução magnífica, dez capítulos (que listaremos a seguir) e agradecimentos. Além disso, está lindamente ilustrada com imagens de Arte Mapache. Arte Mapache é uma maravilha porque, apenas por ver a pessoa na capa, tenho vontade de aplaudir e gritar muito alto: braços e barriga comuns. Mas sobretudo um decote qualquer com peitos que poderiam ser os meus e que não vejo em lugar algum. OBRIGADO! Por favor, precisamos de mais representações de peitos que não sejam um par de bolinhas redondinhas localizadas na altura das axilas. Pergunte às navegantes com mais de trinta anos: por que seu decote não é como o das revistas?, por que a gravidade já começou a fazer das suas?, por que seus mamilos olham para baixo e não para a frente?, por que seus peitos estão mais perto do umbigo do que do pescoço? Aviso às navegantes de menos de trinta anos: o decote como o das revistas existe apenas nas revistas e a gravidade, a passagem do tempo e a maturidade de sua pele farão com que seu corpo (gordo ou não gordo) não se veja como quando você tinha 16 anos. Em breve, tudo começará a cair e a ficar mais suave. Não é você: SOMOS TODAS NÓS.

A dedicatória da obra dá o que pensar: “Dedicado às minhas avós, que me ensinaram a cozinhar e a desfrutar da comida”. Dá gosto ler reconhecimento àquelas que nos ensinaram algo tão básico como nos alimentar e nutrir. E dá gosto ler reconhecimento àquelas que facilitaram nosso prazer. Algumas linhas depois também se pode ler: “e a você, que por algum motivo tem este livro entre as mãos”. Por que motivo lemos os livros que lemos? Você saberá. Eu não faço ideia. Agora, por favor, não dê por definitivo que este livro é apenas para as gordas, porque não é. As reflexões de Piñeyro serão úteis a você seja lá qual corpo você tenha, com absolutamente qualquer idade e sem importar o gênero com o qual você se identifique. Por quê? Porque, como todos sabem, vivemos em uma sociedade racista, classista, machista, transfóbica etc., vivemos em uma sociedade gordofóbica. A sociedade recém-descrita é o que é e apesar de ser você uma pessoa que não sofre diretamente certas opressões, convém que todas a combatamos juntas. NÃO? Portanto, este livro te interessará: seja você gorda ou não. Se quiseres ser minimamente consciente e justa com as pessoas ao seu redor, vale a pena saber o que está acontecendo na festa e como são operadas as múltiplas violências exercidas sobre nós, para que esteja ciente e possa responder de forma eficaz. Bom pra você se te vendem a bicicleta, a seu paciente, a sua amiga, a seu irmão, a seu aluno, a sua companheira de trabalho ou a quem te vende a fruta. Por quê? Porque como a autora enfatiza antes de sua introdução, “Teu silêncio não te protegerá”.

Magdalena Piñeyro explica nas primeiras linhas de sua obra que permaneceu em silêncio por quase 30 anos. (Pense: quantos você já esteve?) A escritora também acrescenta, nesta primeira mensagem a quem a está lendo, que a maior parte das reflexões expressas em Diez gritos contra la gordofobia não pertence a ela, mas são uma espécie de quebra-cabeça reunido ao final de conversas com uma infinidade de gordativistas, amigas, feministas e pessoas em geral. Parece-me TÃO importante dizer isso, e muitas vezes é enfatizado TÃO pouco por causa dessa ânsia de nos acreditarmos criadoras de conhecimento bruto que nos tem contagiado… Enfim! Se digo a verdade, tenho o prazer de ter ouvido a autora falar, sei com muita tinta que em seu caso isso é um ato de humildade extrema e que na realidade, muito do que se expressa aqui é fruto única e exclusivamente de suas reflexões.

“Sim, sim, mas quais são os dez gritos que compartilhamos?” – você pensará. Fico feliz por me fazer esta pergunta. São os seguintes:

“Gorda não é um insulto” é um lembrete por si, ainda que não tenha caído a ficha e você o continue usando como se o fosse. Além disso, é vital entender o fato de fazer do insulto uma reafirmação e nos autodenominarmos assim;

“Nossa autoestima não é questão de atitude” põe os pingos nos is ao simplista “te quero” que tanto nos repetem como se vivêssemos vidas descontextualizadas assépticas não rodeadas de ódio e as responsáveis por nossos complexos fôssemos única e exclusivamente nós mesmas (não, querida leitora, “culpar o oprimido” é mais velho que o mundo e não fazem isso apenas com você. Ou seja, mais uma vez, não é você: SOMOS TODAS NÓS);

“Nosso corpo não dá asco. A sociedade dá asco!” não pode ser mais explícito e dou graças à deusa por este capítulo. Não é um prato de bom gosto ler situações às quais outras mulheres gordas foram expostas, e sinto uma vontade tremenda de (por muito que não seja pedagógico) castigar sem parar muitas pessoas durante muitas semanas com este capítulo. Do mesmo modo, entre citações de Constanza Álvarez, Lucrecia Masson, anedotas de Gaborey Sidibe ou de mulheres que decidiram contar suas vivências em entrevistas, você sentirá arrepios. Definitivamente, “Sociedade, é você que dá asco” sem sombra de dúvida;

Que “a saúde é apenas uma desculpa” para nos tornar as queixas e o gordesportismo ilustrado, sabemos disso todas nós que temos carne sobre os ossos; logicamente, o amor próprio não cresce em árvores, infelizmente, e “O que dizem as representações culturais das gordas?”;

Deves ler o capítulo intitulado “Não temos que esconder nosso corpo” por razões óbvias;

E por amor da deusa, não esqueça nunca que “Recomendar dietas é violência e o #tequieroigual também”. Realmente, deixe-nos viver e não sejam insistentes. Você repete isso mais que disco arranhado, e sabemos antes mesmo que você articule a série de idiotices gordofóbicas condescendentes que nos vai enumerar;

Não é um mal lembrete que “O amor e não o ódio deve ser o motor de nossas decisões”. Nesse capítulo, preste atenção ao conceito de “corpo em trânsito” e tenha cuidado ao soltar por essa boca FALÁCIAS como a que gente gorda é descuidada;

Se aprendi algo com o gordativismo foi que sem a “Aliança gorda” (e sem redes em geral) isso não chega nem a virar a esquina e por isso este capítulo me emocionou tanto: “Sozinhas em lugar nenhum, juntas até à utopia”;

E para terminar o último capítulo trata sobre essa “hipervisibilidade invisível” e como “Temos direito a existir e ser felizes”.

Juro que acabas de ler a última palavra da última linha do último capítulo e, se não estiver chorando um pouco e cheia de energia e animada para sair pelo mundo e comer tudo, te devolvo o dinheiro. Mas como pudemos viver até hoje sem este livro?!! É ouro puro. Fazendo paralelos com outras opressões, séries de televisão, membros da família, citações de companheiras gordativistas, histórias de amigas, e de suas próprias reflexões com frequência sob a forma de poema, Magdalena Piñeyro escreve o que todas nós queríamos ler há tanto tempo. Quem dera tivesse conhecido o livro de Magdalena Piñeyro aos 14 anos, quando enfiei a barriga na piscina ao passar diante das pessoas. Que sorte saber que a partir de agora, graças ao gordativismo, ao ativismo corporal e ao transfeminismo, haverá gerações de crianças que talvez saiam pelo mundo sem odiar seus corpos e sabendo que, não pertencendo à norma do cânone estético, fazem parte de algo que, ainda que nós gordativistas desde pequenas não conhecêssemos, pudemos facilitar para quem veio depois de nós. Dizia a escritora Arantxa Urretabizkaia em uma entrevista que ela sentia a obrigação de ampliar a pequena trilha feminista que aquelas que a precederam deixaram, e convertê-la em caminho. Quem melhor que um grupo de gordas ocupando espaço no início do caminho para abrir uma estrada de três pistas! Obrigado, obrigado e obrigado a Magdalena Piñeyro pelo trabalho que você fez, deixando parte de você em seu segundo livro! É justamente o que qualquer um que começa a se conhecer precisa ler, e o que aqueles que são responsáveis pelas pessoas com autoconhecimento devem saber para não entorpecer e contribuir para que tenham uma percepção melhor de si mesmas. Se você é adulta: leia este livro e presenteie-o a alguém. Se não é adulta: leia este livro e fale dele com seus/suas amigos/as. Que não nos calem. Que saibam que existimos. Que os cânones de beleza impostos pelo capitalismo e o patriarcado não nos tranquem em casa nem em nós mesmas nunca mais. Sabes perfeitamente – e se não o sabes, te falo pela milésima vez: o capitalismo te quer infeliz e consumindo, e o patriarcado te quer infeliz e submissa, reproduzindo os padrões que foram estabelecidos para você há séculos. Então, o que fazemos diante disso?

INSUBMISSÃO, DESOBEDIÊNCIA E VIVER!

GRITA, GORDA, GRITA!

Para você, que chegou até aqui: desejo que tenhas tido um verão muito consciente e feliz.

Resenha de María Unanue, publicada em 11 de setembro de 2019 em Pikara on-line Magazine. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2019/09/diez-gritos-contra-la-gordofobia/

Tradução: Luiz Morando.

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