Reconciliar-se com o corpo

Alguns anos atrás, nas paredes da exposição +Humanos, do CCCB, foi projetado o vídeo de uma performance. Não lembro seu título, não lembro o nome da performer, mas, de todas as coisas incríveis que havia, esta ficou gravada em mim. Não porque me surpreendesse, não é que me explicasse nada que eu já não soubesse, mas porque mesmo sem isso, de vez em quando continuo voltando a ele. Como hoje.

Na imagem aparecia uma mulher nua, magra, com um corpo muito ajustado às normas atuais do desejo, plantada no meio de uma praça. Um homem vestido de cirurgião revoluteava ao seu redor, desenhando as marcas de todos os retoques cirúrgicos que ele faria. Era um cirurgião plástico. Quando finalmente deixava de marcar o corpo e se afastava, a mulher estava manchada por toda parte. Não havia um pedaço de corpo onde esse escultor da beleza não tivesse querido fazer algum retoque.

Hoje, quero falar dos corpos trans: dos corpos esquecidos, injuriados, menosprezados. Aqueles corpos que podemos maltratar porque aprendemos que não são nossos, que estão errados, que a solução para o nosso mal-estar é mudá-los. Por completo, no que puder ser. Para que não fiquem vestígios de nós, para ser invisíveis, para desaparecer.

Vivemos em uma época em que parece que ser trans é cada vez mais possível: falam sobre nós nas mídias e não apenas como fenômeno exótico; há políticos de todo o espectro que fazem como que nos escutam; aparecemos em filmes e séries que se esgueiram nas salas de estar de todo o mundo e não apenas naquelas que você tem que olhar embaixo das pedras do cinema mais underground. Temos mais facilidades para retificar nossos documentos oficiais e cada vez há mais pessoas para quem “trans” já não é uma palavra estranha. Existem até alguns médicos dispostos a resolver o problema sem que tenhamos que apresentar nenhuma justificativa de transtorno mental, conforme exigido há alguns anos.

Vivemos em uma época em que parece que resolver nosso problema significa mudar nosso nome civil e, sobretudo, nosso corpo. Marcá-lo por completo. Temos acreditado na história de que, se mudarmos nosso corpo por completo, seremos felizes e deixaremos de sofrer transfobia, quando na realidade nem todos os corpos podem ser invisíveis, nem se podem borrar todos os traços de transição. Mas, especificamente, engolimos a história de que o problema somos nós, que são nossos corpos e não a sociedade que nos rodeia. As transições corporais são respostas individuais a um problema coletivo: a construção social do gênero como algo que restringe e regula os corpos que podem ser habitados.

Como sociedade, acreditamos que os corpos que têm pênis e são planos são corpos de homens e os que têm vulva e peitos são corpos de mulheres. Sempre digo que nós, pessoas trans, evidenciamos que isso não é assim; em parte, é certo, mas também é certo que muitas pessoas trans tentamos, ao longo de nossas vidas, aproximar nossos corpos desses padrões. Fazemos isso para poder viver sem que nossos custos sejam importantes demais ou em ser muito consciente deles, porque é difícil habitar corpos que escapam a esse padrão. Mas se não visibilizamos nossos corpos lindamente trans, se os modificamos, os escondemos e os negamos, não desmontaremos nunca o padrão. Não serão nunca habitáveis. Quem fará isso além de nós?

Hoje eu queria escrever sobre meu corpo e lembrei-me da performance. Lembrei-me desse corpo praticamente perfeito aos meus olhos e todas as marcas de coisas a modificar. Lembrei-me da pressão social da construção de gênero feminino, representada pelas mãos desse homem cirurgião marcando nossos corpos para adequá-los a seus padrões; e lembrei que o mal-estar social gerado por essa construção social de gênero pode ser mais palpável nas pessoas trans, mas que ninguém está totalmente livre dele.

Decidi reconciliar-me com meu corpo, porque não quero lutar mais contra ele.Estou zangado com ele há 20 anos: odiei-o quando apareceram estrias por toda parte; quando apareceram os seios; quando engordava; quando cresciam as coxas; quando fazia com que as pessoas não me tratassem como eu queria; quando a roupa não bastava para esconder que não tenho uma imagem magra e reta. Odiei-o quando se notava que não havia volume; quando se notava que usava binder [camiseta que comprime os seios]; quando simplesmente se notava. Mas também o tenho odiado só por ser gordo; por não ser suficientemente alto; por ter espinhas; por ter pelos em alguns momentos ou não ter suficientemente em outros. Decidi reconciliar-me com meu corpo e deixar de escondê-lo. Primeiro porque ficou muito óbvio para mim que todo mundo tem problemas com seu corpo e que eu já os tinha bastantes; e depois porque acredito firmemente que não poderemos resolver a transfobia social que ainda vivemos se invisibilizamos constantemente os corpos que a geram.

Não podemos suportar nem mais um adolescente para quem a morte seja preferível a viver em um corpo visivelmente trans. Seu (nosso) mal-estar não é solucionado mudando o corpo; soluciona-se fazendo com que ser visivelmente trans seja motivo de orgulho, de desejo ou, inclusive, que não seja relevante.

Mas, para isso, devemos quebrar os padrões; e não é um trabalho exclusivamente nosso. As pressões corporais esmagam muitas/os de nós que sofremos em silêncio ou podemos fazer piadas constantes sobre a dieta do verão ou os corpos das famosas no Instagram, mas o que deveríamos fazer é deixar de olhar nossa pele toda marcada e começar a apontar as mãos que nos esculpem ao seu gosto.

Texto de Pol Galofre publicado em Pikara online magazine, em 27 de março de 2019. Disponível em: <https://www.pikaramagazine.com/2019/03/reconciliarse-con-el-cuerpo/>.

Tradução: Luiz Morando.

O ativista Pol Galofre escreve sobre corpos trans: esquecidos, injuriados, menosprezados. “Temos acreditado na história de que, se mudarmos nosso corpo por completo, seremos felizes e deixaremos de sofrer transfobia.”

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