“As mulheres não precisam de outro salvador”

Os estudos de gênero têm gerado debates crescentes desde seu surgimento e as diferentes ondas feministas ampliaram sua importância. Judith Butler é uma das principais teóricas dessa corrente. As jornalistas Lilith Verstrynge e Lenny Benbara, do portal Le Vent Se Lève, conversaram com ela sobre seus principais conceitos, assim como sua visão do futuro político em um momento em que a questão da revisão da masculinidade tornou-se capital para quem quer combater o patriarcado.

Você nasceu em uma família judia tradicional no estado de Ohio (EUA). Seu tio foi preso porque era transexual e morreu na prisão. Seus primos foram expulsos de seus lares por serem homossexuais e, aos 15 anos, você foi levada a um psiquiatra quando anunciou sua homossexualidade. Como você desconstrói o gênero em sua difícil história pessoal? Para aquelas e aqueles que não a conhecem, como você se descreveria?

As autodescrições não são o meu forte. Na verdade, meu tio era intersexual, mas ele acabou se tornando um tipo de atração à força de ser analisado constantemente pelas autoridades médicas e psiquiátricas. Eu nunca o conheci porque ele foi internado antes de meu nascimento e me disseram que ele não estava mais consciente. Era mentira, eu poderia tê-lo conhecido, mas meus pais não queriam que os filhos tivessem contato com ele. Tenho um primo homossexual que sabe o que realmente se passou. Esse primo foi simplesmente defenestrado. Certas famílias fazem doações financeiras que em seguida são requalificadas como empréstimos, e quando estes se tornam dívidas impagáveis são colocados na categoria de crimes. Não é uma surpresa: a criminalidade sempre foi utilizada contra nós em todas as ocasiões. Meus pais e avós estavam aterrorizados que o antissemitismo ressurgisse a qualquer momento; eles pensavam que assimilar os padrões americanos era o único meio de se proteger. Eles continuaram a respeitar as festas religiosas e alguns respeitavam o shabbat, mas com o tempo, o judaísmo foi desconectado da maioria dos rituais (não todos) e tornou-se um ethos comunitário.

Um de seus conceitos principais, desenvolvido em Problemas de gênero, é a ideia de performatividade de gênero. Você poderia retornar a esse conceito para nossas leitoras e leitores?

A ideia da performatividade de gênero evoluiu com o tempo. Quando o apresentei pela primeira vez, interessava-me o modo como as pessoas repetiam certos gestos e como esses gestos pareciam exprimir e amplificar o modo como eles percebiam seu gênero. Mas era claro que elas não criavam inteiramente esses gestos que repetiam. Esses gestos não lhes eram totalmente próprios, mesmo que fossem personalizados. Elas exprimiam gestos que haviam sido realizados antes, de uma maneira que estabelecesse uma espécie de solidariedade tácita com aquelas e aqueles que tivessem realizado esses gestos. Ao mesmo tempo, elas modificavam e transformavam esses gestos, improvisavam os atos, os movimentos, os gestos que elas reproduziam.

A respeito da performatividade de gênero, algumas interpretações de sua teoria são claramente voluntaristas. Pode-se escolher o próprio gênero? Qual a relação entre nossos corpos e nosso gênero?

Há momentos em que escolhemos nosso gênero, por exemplo, quando vamos ao tribunal para pedir uma mudança de gênero. Nesse momento, fazemos a escolha legal e mesmo política do reconhecimento de gênero ao qual parecemos pertencer. Há então uma escolha no nível legal e político – devo fazer o pedido ou não? –, mas as coisas são diferentes quando se trata do sentimento profundo de quem somos em termos de gênero. Muitas pessoas, se não a maioria, que procuram mudar legalmente de gênero têm o sentimento de que seu gênero é uma parte inalterável de sua identidade e que não o escolheram. Ao recorrerem à lei, elas escolhem fazer reconhecer essa parte não escolhida delas e afirmam que é o que elas são.

O feminismo não constitui um movimento unificado. O que você pensa dos mecanismos neoliberais de reapropriação (as grandes marcas que vendem produtos feministas, mas também a luta de Beyoncé ou Rihanna pelos direitos das mulheres)? Como analisar essa realidade ideológica? Você pensa que isso ajuda para diluir a potência crítica do feminismo?

Há muitos feminismos diferentes, e devemos ser críticos e distinguir quais realmente levam os ideais fundamentais do movimento adiante. As diferentes formas de feminismo liberal que se concentram no desenvolvimento individual muitas vezes renunciam à natureza coletiva e à potência do movimento. Mas para as mulheres jovens que vivem em lugares onde o movimento feminista é desconhecido, pode ser forte o suficiente ver Beyoncé cantar e afirmar seu corpo de maneira potente. Acho que algumas atletas, como Serena Williams ou Megan Rapinoe, fazem isso também. Não precisamos amar tudo o que elas dizem para ver que a representação pública de sua força faz diferença para outras mulheres ao redor do mundo.

As ondas feministas começaram a crescer em vários países, como na Espanha. O tema da masculinidade tóxica está por vezes na agenda política. O que você diria a esses homens que devem reorganizar sua própria construção de gênero?

Eu suspeitaria de qualquer medida semelhante à autocorreção stalinista ou uma autocrítica maoísta. Mas penso que há entre os homens muitos pactos não codificados e implícitos em relação às violências contra as mulheres. Eles veem maridos espancando suas esposas ou namoradas e desviam o olhar. É um momento em que um homem dá permissão a outro homem de exercer a violência contra uma mulher. Desviar o olhar é um gesto que nem sempre toma a forma de uma cabeça que gira em outra direção. Ele implica, ao mesmo tempo, negação e concessão de impunidade. Mas alguns homens quebram esse vínculo de fraternidade e o interrompem, levantam a voz, intervêm ou explicam claramente que a violência contra mulheres e inaceitável. Nesse ato e por esse ato, nessa série de atos, uma versão diferente da masculinidade é formulada. Trata-se de assegurar que o ato que quebra o vínculo fraternal é igualmente um ato que cria solidariedade com as mulheres. As mulheres não têm necessidade de outro salvador! Elas têm necessidade de solidariedade sobre uma base de igualdade. Enquanto a opressão de gênero não for derrotada, teremos necessidade de feministas para tomar as coisas pela mão.

Em reação à onda feminista, vemos um número crescente de movimentos culturais, em particular nas redes sociais, que reivindicam a defesa da identidade dos homens e da masculinidade. Como você explica esse recrudescimento? Como seria um feminismo hegemônico que fosse capaz de neutralizar esse tipo de reação?

Parece-me que essa defesa dos homens e do masculinismo age como se a oposição à violência masculina fosse uma oposição estrita aos homens. Ou que a oposição às desigualdades de gênero fosse uma simples oposição aos homens enquanto tais. Mas esse argumento pressupõe que não pode haver homens sem violência masculina, nem desigualdades de gênero, que acabar com as violências e as desigualdades significaria abolir os homens. É inconcebível, para quem defende isso, que os homens seriam sempre homens se entrassem em uma nova forma de virilidade ou de masculinidade fundada na igualdade e na não violência. É uma defesa reacionária de homens que pensam que a violência é parte integrante do homem.

Você fala sobre manifestações enquanto formas de expressão encarnadas, maneiras de sustentar reivindicações políticas, mesmo quando o discurso está ausente ou não é a principal forma de expressão. Você utiliza a performatividade de gênero como ponto de partida para falar sobre populações precárias e a assembleia dos corpos como protesto. Você combina suas duas teorias – da performatividade e da precariedade – com os trabalhos de Hannah Arendt, Giorgio Agamben e Emmanuel Levinas de modo a avaliar de maneira crítica e abordar a praça Tahrir, o Occupy, o Black Lives Matter e outros movimentos de contestação. Você pode nos contar mais sobre como essas duas teorias estão conectadas?

Muitas das principais manifestações dos últimos anos chamaram a atenção para o estado precário com o qual são confrontados os corpos nas ruas. Esses corpos experimentaram isso nas ruas, em casa, nas fronteiras, no local de trabalho, no espaço público ou, efetivamente, nos campos de detenção ou nas prisões. Uma das inúmeras maneiras de exprimir a raiva e falar da injustiça dessa precariedade vivida é precisamente pela assembleia, quer dizer, tornando-se plurais e exprimindo sua oposição, sendo a expressão às vezes vocal, mas podendo passar por vezes por uma ampla gama de meios, incluindo o movimento, os gestos, as imagens ou o som. Todos os sentidos do corpo contribuem para o modo pelo qual a oposição é formulada e a reivindicação é feita. Levinas falava que a demanda que o Outro me faz, contra a minha vontade, é uma demanda ética. Minha questão é a seguinte: quando os corpos são expulsos (quer sejam apátridas ou sem meios básicos de subsistência), eles formulam suas reivindicações com seus corpos e com os meios que são e têm – às vezes, filmando de modo espontâneo as violências policiais com um celular. E, no entanto, aqueles que estão de fora da cena se sentem concernidos por essas reivindicações, devem ser sensíveis ao que é expresso, manifestado, comunicado, e isso os exorta a traduzir pela linguagem política à qual estão habituados (principalmente parlamentar) a realidade daqueles que exprimem reivindicações políticas de diferentes maneiras.

Também ouvimos você dizer: “É mais fácil continuar lutando se você sabe que não está sozinho, que dependemos dos outros”. O que você pensa sobre a ideia de fragmentação defendida pelo ativismo atual e como o neoliberalismo fragmentou a identidade da classe trabalhadora? Você acha que não estamos mais procurando uma história comum para unir diferentes pessoas em torno de um único objetivo, mas que tentamos exagerar nossas particularidades para preencher a ansiedade do presente desprovido de identidade de classe? Como construir então essa unidade que faz com que dependamos uns dos outros?

As velhas ideias de unidade não existem mais, mas seria um erro pensar que tudo o que nos resta, por consequência, é o estado fragmentado de diferentes identidades. A ideia de aliança é uma maneira de pensar a solidariedade que permite à diferença ser um fator mais mobilizador do que paralisante. Essa forma de política identitária que afirma que não podemos representar senão por sua especificidade não deixa espaço para a criação de alianças. Compreendo a necessidade de continuar a insistir na singularidade, em particular em um contexto de populações autóctones cujas histórias foram apagadas com muitos de seus ancestrais. Mas devemos, no entanto, questionar as condições históricas comuns que atravessamos, o deslocamento neoliberal dos trabalhadores, a destruição dos direitos humanos, o aumento dos níveis de pobreza e as formas neoliberais de individualismo que fazem com que a solidariedade pareça ainda mais distante. Devemos criar formas de solidariedade transregionais e translinguísticas que insistam na justiça econômica, lutando contra os efeitos devastadores do capitalismo sem relegar ao plano das lutas secundárias o feminismo, o ativismo queer e trans e as lutas pela igualdade racial e a liberdade. Não devemos, portanto, retornar a uma unidade simples, mas sim lutar para formar uma rede de solidariedade sempre mais poderosa, focada na luta contra a destruição do planeta e por um salário digno. Precisamos de inúmeros movimentos trabalhando juntos para iluminar todos os aspectos dessa constelação. Isso não quer dizer que temos a mesma opinião ou que falamos a mesma língua, mas que aceitamos o fato de vivermos juntos neste planeta e que isso nos obriga a desmantelar as forças de destruição e de opressão para criar uma vida mais digna para todos. Uma vez que a esquerda estiver mais afiada contra as forças econômicas devastadoras que trabalham contra nós, a versão securitária do fascismo e a ressurreição destrutiva do patriarcado, não teremos uma nova língua, mas um novo ativismo de tradução que reúne as linguagens políticas da vida.

Entrevista publicada em Le Vent se Lève, em 27 de setembro de 2019. Disponível em: https://lvsl.fr/judith-butler-les-femmes-nont-pas-besoin-dun-autre-sauveur/

Tradução: Luiz Morando.

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