A coragem de se expor

O último romance de Brigitte Giraud, Jour de courage (Dia de coragem, em tradução livre), que entrelaça a história de um dos primeiros militantes dos direitos homossexuais e a de um adolescente de hoje, questiona a fragilidade das memórias LGBT.

A história de Jour de courage é dupla. Ela se passa em Berlim, no começo do século XX; e também em Lyon nos anos 2010. É a história de Magnus Hirschfeld, médico judeu homossexual que fundou em 1919, em Berlim, o Instituto de Sexologia, e que desde muito cedo militava pela defesa dos direitos de pessoas homossexuais – em particular pela abolição do parágrafo 175, que inscrevia a homossexualidade no Código Penal alemão. Foi em seu Instituto que, em 1930, ocorreu a primeira operação de redesignação sexual (a de Lili Elbe, pintora dinamarquesa que narrou sua própria história); ele também publicou obras para mostrar o papel das mulheres no Exército alemão durante a Primeira Guerra. Magnus Hirschfeld queria, na sequência de suas pesquisas, avançar a “justiça através da ciência”, de acordo com seu lema, que encontramos várias vezes em Jour de courage. Mas, como se pode imaginar, tal programa não estava muito em voga na Alemanha nazista: ameaçado fisicamente, Hirschfeld exilou-se em 1930 (ele morrerá na França alguns anos depois), e em 1933 a biblioteca de seu Instituto foi pilhada e incendiada.

Essa história vai sendo descoberta pela voz de Livio, estudante de Lyon que usa o pretexto de um exame oral sobre os autos de fé para transmitir, paciente e precisamente, todo seu conhecimento sobre Hirschfeld. Mas, ao fazer sua apresentação para os colegas, Livio também expõe, manifestando diante de todos, o que ele até então “impecavelmente ocultara”: o romance nos faz seguir em câmera lenta essa exposição com intenso potencial dramático, “se considerarmos que a ação mais minuciosa é como uma revolução em uma sala de aula”. Os gestos, mesmo mal esboçados, as inflexões de voz, os olhares representam um papel tão importante quanto as palavras pronunciadas. A solidariedade discreta com Ted, a hostilidade mais ou menos barulhenta de Romain (o cara durão que exagera a virilidade), e sobretudo o olhar de Camille, a amiga eterna, que entende com consternação o que não será sua relação com Livio: é através de todos esses signos quase imperceptíveis que Brigitte Giraud nos faz sentir a coragem de que esses personagens precisam para falar e transmitir as informações, mas também a fragilidade dessa memória de lutas LGBT.

Resenha de Benoît Auclerc publicada em Hétéroclite, n. 148, p. 14, outubro de 2019. Disponível em: <http://www.heteroclite.org/wp-content/uploads/2019/10/H148web.pdf>.

Tradução: Luiz Morando.

Resenha breve sobre romance recém-lançado na França – Jour de courage (Dia de coragem, em tradução livre) – no qual se entrelaça a história de um dos primeiros ativistas homossexuais do século XX – Magnus Hirschfeld – e um jovem no século XXI.

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