Cartão vermelho contra insultos homofóbicos

O endurecimento de sanções face a manifestações homofóbicas nos estádios desejado pela ministra dos Esportes suscitou reações de incompreensão em alguns torcedores e também no presidente da Federação Francesa de Futebol. Isso demonstra a necessidade de criar uma pedagogia face à homofobia.

Desde a última primavera, no final do campeonato da França, a ministra dos Esportes Roxana Maracineanu afirmou sua intenção de combater “todas as discriminações” nos estádios de futebol, junto à Liga de Futebol Profissional (LFP). Para fazer isso, ela anunciou que os jogos seriam a partir de então interrompidos pelos árbitros se bandeiras e cantos homofóbicos e/ou racistas ocorressem. Resultado: as primeiras semanas da retomada do campeonato da França foram marcadas por um rastro de incidentes homofóbicos nos estádios, constrangendo os árbitros a interromperem numerosos jogos. Um fenômeno inquietante, que mergulhou não apenas o futebol, mas também os políticos nessa confusão.

Homofobia versus racismo

É nesse contexto que Noël Le Graët, presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), foi levado a opinar dia 10 de setembro passado pela rádio France Info. Ele não apenas considerou “que se interrompessem mais jogos” devido a manifestações homofóbicas, como ainda subestimou a homofobia nos estádios: “considerar que o futebol é homofóbico […] é pesar um pouco a mão, não temos absolutamente nenhum problema”.

Veja ainda o restante: ele terminou considerando que racismo e homofobia “não são a mesma coisa” e que ele não iria para as partidas em caso de manifestações homofóbicas, mas que faria isso se pessoas gritassem “macacos”. Um protesto da mídia que fez também reagir a ministra dos Esportes, que qualificou de “equivocada” a posição do presidente da FFF. Uma situação tensa que forçou o chefe de Estado a sair do silêncio em transe. Interpelado sobre o tema, Emmanuel Macron disse que todos deveriam “se mexer um pouco”. Ele se disse “confiante na reconciliação”, considerando que o problema dependia igualmente “do discernimento do árbitro”, antes de pontuar: “É preciso agora que a Liga, os clubes, assumam suas responsabilidades, falem com os torcedores.” Agora, os dois atores precisam se assentar em torno de uma mesa na companhia de associações, grupos de torcedores e representantes da Liga a fim de encontrar a solução tão esperada. E lembrar de passagem que o uso do insulto “filho da puta” não é neutro e remete a uma concepção patriarcal heteronormativa da sociedade na qual a penetração é percebida como um ato de dominação sobre o outro. Utilizada para humilhar ou desacreditar um adversário, ela perpetua, portanto, um sistema homofóbico.

Reportagem de Louis Dufourt publicada em Hétéroclite, n. 148, p. 11, outubro de 2019. Disponível em: <http://www.heteroclite.org/wp-content/uploads/2019/10/H148web.pdf>.

Tradução: Luiz Morando.

Se, no Brasil, as medidas contra atos homofóbicos nos estádios de futebol ainda são bastante tímidas, na França a ofensiva partiu da ministra dos Esportes e está causando polêmica.

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