MÃE À PRIMEIRA VISTA A extraordinária história de uma mãe trans

Ela conheceu seu filho há 26 anos, quando cruzou em uma das ruas de Tigre com aquele menino de dois anos caminhando de mãos dadas com seu pai. A partir desse momento começou uma história de amor e de filiação. Ser uma mãe trans não é tão diferente de outra experiência de maternidade; ser uma mãe não biológica, tampouco. Embora também existam questões que marcam a diferença e o encanto.

“Para mim, tudo começou assim, na véspera do Dia de Reis. Em 5 de janeiro, quando era menina, sentava-me em um medidor de água que havia na porta de minha casa aqui em Tigre. Sempre sonhei e por isso pedia. O que eu pedia aos reis era que quando crescesse, pudesse ser mãe, ter um filho e chamar-me Julieta. Todos sonhos de literatura.”

Julieta González hoje tem 64 anos e há 26 é mãe. Como ela, há muitas mulheres trans que são mães e, no entanto, não é fácil dar o testemunho por aqueles que podem ou querem contá-lo. Apesar da luta legal e política iniciada nos 90 por Mariela Muñoz – que criou cerca de 20 crianças, tendo que pagar por isso um ano de prisão – a maternidade trans continua sendo hoje um vínculo de amor a portas fechadas. Julieta reconhece que sua história não é moeda corrente entre o que se conhece sobre as mulheres trans, que ela sempre foi aceita por sua família e pelo bairro onde nasceu e se criou. Mas essa aceitação não a salvou de prisões, nem de perseguição policial, chegando a ficar detida no Pozo de Banfield durante a ditadura. Anos mais tarde e graças ao testemunho de Jacobo Timerman, Julieta acredita que se reconhece entre as “mulheres de rua” que eram obrigadas a fazer a limpeza do centro clandestino de detenção, a casa SIN, onde esteve detida. Nem o amor de sua família, nem o respeito do bairro a impediram de declarar qualquer vínculo menor que o de sua mãe diante do medo de provocar e maltratar seu filho.

O ENCONTRO

Julieta conheceu seu filho, Gastón, em uma esquina e lembra-se disso como amor à primeira vista. “Ele tinha 2 anos e estava com seu pai, Dani. Os dois parados olhando o trânsito. Eu estava acompanhada de outra amiga que conhecia Dani. Ela nos apresenta. Digo a ele: Olha, vou fazer compras. Você deixa ele ir comigo, que eu o leve ao armazém? É aqui em frente. Sim, ele disse. Gastón imediatamente joga os braços em minha direção; eu o ergo e abraço. Não sei, foi uma conexão inexplicável. Eles iriam ao aniversário de Estrellita, uma amiga em comum que morava bem em frente a eles.”

Julieta conta que eles voltaram conversando de mãos dadas, com as sacolas de compras. Nesse dia, não sabe por que, ela levava a câmera fotográfica na bolsa. Então ela assentou Gastón e fez uma foto. “É a que ainda tenho em minha mesa de cabeceira, do dia em que nos conhecemos.”

Nessa mesma semana, o pai de Gastón, Dani, que completava 22 anos, convidou Julieta para sua festa e começou uma amizade que logo se tornaria amor. “Em todo esse tempo fiquei pensando em Gastón. Em sua história, quando sua mãe o abandonou. Eu ia à casa de minha amiga, mas para ver Gastón, não por Dani. Fui procurá-lo com minha mãe. Sempre comprava algumas roupas para ele, para que estivesse lindo nos aniversários de meus sobrinhos, que tinham a mesma idade que ele. Há fotos que foram perdidas nas inundações. Íamos fazer compras, tomávamos mate, andávamos de mãos dadas pela rua. Todo 23 de abril íamos à Basílica de São Jorge e dali ao zoológico. Ficávamos todo o dia no centro e voltávamos à noitinha. Ao final de um mês, comecei a sair com Dani, começamos a ser um casal.”

PRIMEIROS PROBLEMAS

Julieta lembra que os conflitos começaram quando a mãe biológica de Gastón reapareceu. “Ela era muito jovem, ia e saía de casa, deixando Gastón sozinho quando Dani saía para trabalhar. Por isso, decidimos viver juntos, para que ele ficasse melhor cuidado. Mas ela vinha e o tirava de mim. Eu tinha medo de não vê-lo mais… Então, aceitava as regras que ela estabelecia. Dizia-me, por exemplo, que eu tinha que lhe dar dinheiro para pagar a luz e eu lhe dava. Uma vez, bateu no menino com um sapato e eu a denunciei. A polícia respondeu que ela era mãe e que podia fazê-lo.” 

Aos 3 anos, Gastón teve seu primeiro documento de identidade graças à insistência de Julieta, preocupada porque o menino começara o período letivo. 

Você o levava à escola?

26 anos atrás era outra época, eu não queria que ninguém o machucasse. A mentalidade não era tão aberta como está hoje. Eu o levava com o pai; se a mãe estava, eu o levava às vezes com ela. Ou minha irmã, que tinha filhos na mesma escola. Lembro que ele atuou apenas uma vez, porque não gostava muito de atuar em peças. Eu não gostei porque lhe deram o papel de um negro vendedor de velas. Porque ele é moreninho. Eu não gostei, mas não disse nada para que ele não tomasse isso como discriminação. De todo modo, fiz o traje, com um graveto e as velas penduradas.

Julieta nunca deixou Los Troncos, seu bairro de toda uma vida depois de sair de Tigre, onde os vizinhos a conhecem, a querem e a respeitam. Os pais dos amigos de Gastón foram seus companheiros de infância. O bairro então funcionou como uma fortaleza. Sua maternidade trans nunca foi notícia, nem causa de abuso para Gastón nas lembranças de Julieta. “Ele nunca me disse nada sobre bullying. Conversamos muito, mas não falamos de coisas feias que podem ter ocorrido. Não gostaria de saber que ele pudesse ter sofrido essas coisas.”

O NOME PRÓPRIO: MÃE

Você se lembra do momento em que ele começa a ter chamar de mãe?

Lembro que ele tinha menos de 10 anos, era pequeno e eu lhe tinha comprado uma bicicleta pelo Dia de Reis. Fazia calor e era de tarde, ele ia de esquina a esquina. A bicicleta era maior que ele e eu estava sentada na calçada, com minhas vizinhas, observando-o ir e vir. Ele ria. Mas, a certa altura, ele cai da bicicleta, vem sentar-se ao meu lado e me diz: “Como você quer que eu te chame: Trachi ou mamãe?” As pessoas me apelidaram La Trachi por causa de alguns de meus clientes americanos que me diziam assim, algo assim como “querida”… E eu então lhe digo: “Olha, para mim, na verdade, o que eu mais gostaria era de ter sido sua mãe, mas você tem uma mãe. Que você me ame como se fosse sua mãe é o suficiente, Gastón. Pode me chamar como quiser”. E ficou parado. Ele me tratou como Trachi e estava bem, eu preferia que me tratasse assim. Porque não era como hoje, que a diversidade está tão aceita. Talvez alguém fora do bairro lhe tivesse dito algo. Mas eu sei que nas escolas ele dizia: “Vivo com minha mãe” e até hoje, em seus trabalhos ele me trata diante dos outros como sua mãe.

E o que aconteceu com o pai de Gastón?

Eu e Dani ficamos juntos durante 10 anos. Para mim, Dani foi meu melhor homem e eu para ele também fui sua melhor pessoa. Eu sei que ele me amou, que nós nos amamos. Embora essa magia tivesse terminado, ainda nos queríamos como amigos. O jovem pobre Dani morreu. Até o dia de sua morte estive a seu lado. Quando falamos de nos separarmos, perguntei a ele: “E Gastón?” Ele me disse: “É meu filho, vai comigo.” Então, quando me sentei para falar com Gastón, expliquei: “Olha, nós vamos nos separar porque deixamos de nos amar, mas não de nos querer. Se você quiser viver com seu pai, eu vou gostar mais. E se você quiser viver com sua mãe, não vou gostar muito, mas sempre irei te ver, vou ficar te observando e sempre vou estar com você”. E ele então me disse: “Mas eu quero ficar com você, porque minha mãe para mim é você.” Então o abracei e lhe disse: “Bem, quando seu pai chegar do trabalho, vamos falar com ele”. Eu ri nervosa. Eu sabia que Dani me conhecia, que eu não era nenhuma manipuladora, que eu não havia metido nada na cabeça de Gastón. E Dani me disse algo que é muito verdadeiro: “No mundo não existirá nenhuma pessoa que te conheça tal qual Gastón a conhece. Vou deixá-lo porque não há mãos melhores para ele do que as tuas. Eu sei que você será uma mãezona.” Então ele passava todos os dias para nos ver, para ver o menino, ligava para saber como estávamos. Havia acabado a relação de casal, mas éramos grandes amigos.

SUSTENTO DA FAMÍLIA

Após a separação, Julieta foi o único arrimo de família. Segundo ela, “ainda que Dani tivesse querido ajudar, não teria podido.” Talvez como parte do pagamento do termo de adoção, ou por usos e costumes de paternidades irresponsáveis, ela teve que se encarregar sozinha de seu filho e isso significou voltar a trabalhar na rua. Ela pagava por noite a uma vizinha que morava em frente a sua casa para cuidar de Gastón até que voltasse do trabalho. “Às vezes eram duas da manhã e eu já estava em casa. Mas em outras a rua era dura e eu tinha que ficar mais tempo. Eu comprava para ele todo tipo de jogos até que apareceu o Playstation. Eu tive que tirar vantagem disso à noite. Se não, não haveria tido nada. Se não tivesse tirado vantagem, já teria morrido ou teria estado na droga, ou me contagiado com alguma enfermidade. Fui um pouquinho mais consciente, me cuidei muito, tinha uma responsabilidade por que lutar, que era meu filho. Eu tinha vergonha quando tinha que me maquiar ou mudar de roupa diante de Gastón. Eu lhe dizia: ‘Olha, isso é um disfarce, o disfarce do meu trabalho’. Ele sabia que de dia eu era outra coisa.”

E como foi ser mãe trans com um menino em plena adolescência?

Na adolescência, talvez para compensar, eu comprei de tudo para ele. Ele teve do melhor. Nada de marcas baratas. Tudo original, comprado no Unicenter, no Soleil. Nessa época, eu tinha cartão de crédito. O melhor de Armani, Yves Saint Laurent, tênis da Nike, perfumes importados. Eu me tornara amiga de um gerente do Unicenter, então ele sempre me chamava: “Olha, Julieta, estão chegando os últimos modelos”. E antes de qualquer cliente eu ia e pum! Às quintas-feiras eu não trabalhava porque sou devota de São Jorge. Então íamos às compras. Ele andava como um dândi. Tenho bom gosto e o vestia divinamente. Mas um dia me dei conta de que lhe havia dado tudo e, apesar disso, algo não estava bem. Chegaram até mim rumores de que Gastón andava em más companhias, de que, quando eu saía para trabalhar, ele ficava andando pelas ruas, de que usava droga. Já tinha 16, 17, 18 anos, não estava mais cuidando dele. Eu me levantava cedo, deixava-o dormir até tarde, não me dava conta. Às vezes, pensava que as pessoas mentiam para mim porque, quando eu chegava do trabalho, ele já estava em casa. Claro, ele havia decorado meus horários. Então, tive que deixar a rua porque estava perdendo o controle de tudo. Tive medo. De que iríamos viver? Telefonei para alguns clientes bons e disse: vamos ver, mas tenho que estar aqui. Nos arrumávamos como podíamos. Vínhamos de uma vida em que não nos faltava nada e agora a geladeira, em alguns momentos, ficava vazia.

A pessoa trans não abandona o patriarcal, e assim como Julieta desculpa o pai de Gastón por não haver lhe dado dinheiro para seu filho uma vez separados, de alguma maneira decidiu também que o modelo “mulher de um homem só” era o mais apropriado aos olhos do filho. “Para mim, até hoje, não saberia dizer se Gastón me viu na cama com alguém. Ele já é grande, tem 28 anos, é mais esperto do que eu. Nunca um cara dormiu em minha casa. Ele pode ter visto talvez quando chegava algum cliente, mas era isso, um cliente, um cara que havia estado meia hora e tchau.”

E o lugar de sogra já te tocou?

Eu sempre lhe dizia “no dia em que você conhecer uma menina e se apaixonar, fale com ela. Procure as palavras, você saberá como dizer de uma maneira melhor como te estou falando, você saberá lhe dizer que sua mãe é uma mulher trans. Você saberá entender. E não traga uma qualquer para casa, porque vou jogá-la no meio da rua. Traga-me uma garota como a gente.” Nada, eu falei com ele como qualquer mãe fala a seu filho. Assim, um dia ele me disse que vai me apresentar Sofi, minha nora. Combinamos que ela viria almoçar num domingo. “Mas você já falou com ela? Já explicou quem eu sou?” “Sim”, ele me disse. E eu: “E o que ela te falou?” “Que não havia problema” “Bom, vou preparar frango assado e salada, e fazer uma sobremesa” Eu estava nervosa. Ontem à noite estava tudo pronto. Fiz a sobremesa tomando mate com algumas vizinhas. E tão logo vi Sofi nos demos bem. No final da tarde ficamos sozinhas, Gastón saiu para ver uns amigos e conversamos sobre a vida.

Algum Dia das Mães de que você se lembra em especial?

Uma vez, quando era pequeno, haviam lhe pedido para o Dia da Família, na escola, massinha de modelar. Ele levou e fez uma tartaruga toda pintada. Com uma flor de papel. Eu nunca quis afastá-lo de sua mãe, nem dizer: você é meu e ponto. Então, como era Dia das Mães, na noite anterior eu lhe disse: “Olha, se você quiser passar o dia com sua mãe, eu te envio. Você vai e volta mais cedo. Às 6 você volta e passa o dia todo com ela.” “Tudo bem”, ele me disse. No outro dia, ele me acorda. Havia preparado o café da manhã, havia levado em uma bandeja e me dito: feliz dia. E me deu um presentinho que guardo até hoje. A florzinha não, porque com as inundações eu a perdi. Mas a tartaruguinha está aqui. Ainda a tenho na mesa de cabeceira, junto à sua foto.

Quando pergunto sobre o significado da maternidade em uma imagem, Julieta pensa um pouco, mas em seguida a encontra. Lembra-se da vez em que Gastón ficou na casa da avó materna e terminou preso em Escobar. Era um fim de semana longo de Páscoa, havia chovido os quatro dias. Ele já tinha 18 anos e ela não quis que ele ficasse preso na delegacia, nem que fosse para a penitenciária. Estava desesperada, passou esses quatro dias chorando. Quando finalmente saiu, ela se deu conta de que havia estado três dias sem comer, sem dormir e sem tomar água. “Eu sempre pareci mais com uma mulher, com uma menina – se não fosse porque estivesse trabalhando na rua, não me veriam como trans –, então eu chorava com o delegado, dizia-lhe que eu era meia-irmã de Gastón, porque ainda por cima sou loura de olhos claros e ele moreno de olhos negros, e levava sua comida ao meio-dia e à noite”. Julieta pediu a São Jorge para proteger Gastón de qualquer inimigo. Ela mesma conhecera o santo pendurado nas paredes das delegacias. Julieta começou a rezar para que ele a salvasse do inimigo uniformizado cada vez que era detida. No domingo de Páscoa ela ia chorando no coletivo e chovia, tudo estava triste. Olhava pela janela enquanto se perguntava uma e outra vez: Por quê?, por quê? Se ela não merecia isso. E ele menos ainda merecia. “Talvez tenha sido eu quem cruzou a sua vida? Eu me culpava. O que fiz de mal para que agora ele passe por isso? Capaz de sentir falta de sua mãe. Em que eu falhei?” Enquanto isso, desce uma mulher do ônibus. A mulher tira a jaqueta e cobre seu filho. Começa a caminhar com ele sob a chuva. Então enxergou: esse é o amor de mãe. Isso é o que uma mãe faz por seu filho. E disse a si mesma quantas vezes havia se descoberto para proteger Gastón da tempestade. Em seguida, mudou a visão e disse: “Não, não chore mais, você é uma privilegiada. Porque Gastón despertou em você um sentimento que se não o tivesse conhecido, não iria saber jamais o que é o amor de uma mãe, um amor que supera todos os amores. Porque meu filho me fez conhecer um sentimento maior que eu, que nada, que ninguém.”

Entrevista de Luciana Mello publicada no suplemento Soy do jornal Pagina 12, em 18 de outubro de 2019. Disponível em: <https://www.pagina12.com.ar/225771-madre-a-primera-vista>.

Tradução: Luiz Morando.

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