O parlamento de Balenciaga

Quando a moda enfrenta as tensões políticas e sociais do mundo e questiona seu próprio propósito.

Domingo passado [29 de setembro], Balenciaga apresentou sua coleção primavera-verão 2020. O desfile foi realizado em um hangar em Saint-Denis onde Demna Gvasalia, diretor artístico da grife desde 2015, construiu uma maquete em tamanho real do Parlamento europeu, cobrindo o piso com carpete azul e as paredes com grandes cortinas de veludo da mesma cor. O parlamento imaginário de Balenciaga era composto com 500 cadeiras dispostas em círculos concêntricos, entre as quais os 91 modelos da grife vestidos com os novos “uniformes” do capitalismo tecnobarroco mundial desfilaram durante 20 curtos e eletrizantes minutos.

No parlamento imaginário de Balenciaga, Demna Gvasalia torna visíveis as tensões políticas e sociais do mundo contemporâneo: aí desfilam os tubarões das finanças e suas presas; as vítimas da moda e as vítimas que criam a indústria da moda; os agentes de segurança e os que esperam do outro lado das fronteiras; os administradores da assistência social e os pequenos traficantes de droga que moram nas zonas mortas das periferias; os fabricantes de armas e as crianças soldados; consumidores de Viagra e mulheres na menopausa; meninas muito altas e meninos muito baixos; princesas andróginas e empresários gays.

A maquiagem deu lugar aos implantes de silicone que grudam à pele até se confundir com ela. Os cabelos alisados tornaram-se extensões filamentosas do crânio, uma moldura orgânica para o rosto. Demna Gvasalia brinca com as transformações das escalas: as vestes são super ou subdimensionadas, lembrando-nos que o vestuário constrói o corpo ao invés de se adaptar a ele. A moda está para o corpo assim como a arquitetura está para o espaço: uma tecnologia de fabricação e de controle social, um dispositivo de enquadramento e de segmentação, de assujeitamento e de produção de sentido político. Através da manipulação de tecidos, acessórios e objetos que modulam e modelam o corpo como uma segunda pele cultural, a moda constrói uma moldura na qual o corpo se torna visível enquanto significante político. A moda é uma tecnologia política que transforma o corpo-carne em corpo-signo, legitimando-o ou excluindo-o do campo social. O ajuste da regulação anatômico-política e da gestão bionecropolítica, a articulação da regulação do corpo individual e da gestão da vida e da morte das populações ocorrem no campo aparentemente banal do vestuário e dos acessórios. As cores do parlamento imaginário de Demna Gvasalia são pódios nos quais de desenrola a batalha entre norma e dissidência, entre controle e emancipação. Na coleção Balenciaga, os ombros dos vestidos verticalizam o corpo como um padrão, as “parkas travesseiro” inchadas e os vestidos montados em crinolinas funcionam como exoesqueletos que escondem ou amplificam o corpo como arquiteturas nômades. Calças são extensões de calçados que sobem pelas pernas, ajustando-se à pele. O logotipo Balenciaga torna-se uma marca de agente de segurança, um cartão de visita VIP ou um cartão de crédito em um brinco, como troféu ou uma simples etiqueta que indica o preço do usuário.

O azul antisséptico que recobre o parlamento imaginário de Balenciaga não é apenas a cor oficial da Comunidade Econômica Europeia, ele lembra também o azul do Mediterrâneo, onde os imigrantes que tentam alcançar os litorais da Europa naufragam. É sobre esse fundo azul de direitos e progresso, de racismo e morte, de promessas políticas não cumpridas e desejos de justiça não satisfeitos que os corpos de Balenciaga desfilam. Embora quase indetectáveis, os odores que a química Sissel Tolaas difunde como moléculas puras no espaço durante o desfile tornam-se uma paisagem olfativa ativa no plano neuronal, lembrando-nos de que é feita a lei invisível e persistente da comunidade europeia: desinfetante, sangue, dinheiro e petróleo.

Nunca a batalha entre a moda enquanto indústria mercantil e de normalização e a moda enquanto arte e prática da emancipação do corpo foi tão acirrada. Estamos chegando ao ponto de tocar o fundo e sabemos disso. É porque não há lição moral no desfile de Balenciaga. Não há doutrina crítica. Para retomar os termos de Walter Benjamin, o capitalismo e a beleza compartilham metades iguais no parlamento de Balenciaga. Demna Gvasalia sabe que a moda está até o pescoço na merda da necropolítica e da destruição do planeta. É em meio a essa merda que Gvasalia procura a beleza, como um Baudelaire contemporâneo: literalmente, a Europa lhe “dá sua lama e ele faz ouro disso”.

Ao nos fazer sentar nas cadeiras de um parlamento imaginário, Demna Gvasalia nos confronta com nossa responsabilidade. Enquanto consumidores, somos os verdadeiros parlamentares: usamos sobre nossas peles um sistema de poder e de produção econômica, nós o queremos, nós o adoramos, nós trabalhamos para ele até transformar nosso corpo em objeto vivo da marca.

As contradições entre a indústria mercantil e a arte, entre a destruição ecológica e a beleza, entre a crítica e a submissão à norma, estão explícitas na obra de Demna Gvasalia. Finalmente, quando os modelos desaparecem, ficamos sentados em meio à paisagem azul, perplexos e fascinados, enquanto parlamentares-consumidores, a nos perguntar o que faremos – a pergunta se volta também para a empresa: o que Balenciaga fará com 900 metros de cortinas de veludo e 500 cadeiras plásticas após o desfile?

A indústria automobilística, cuja forma de produção, consumo e poluição definiu o capitalismo da primeira metade do século XX, é, apesar da obstinação grotesca dos acionistas e dos operários, ferida de morte. A indústria da moda, cuja forma de produção, consumo e poluição define o tecnocapitalismo mundial da segunda metade do século XX, deve igualmente morrer. Demna Gvasalia canta o mais belo e último réquiem para essa indústria. Um verdadeiro parlamento da moda, capaz de refletir sobre a transformação dessa indústria, é hoje mais do que urgente.

Crônica de Paul B. Preciado publicada no jornal Libération em 4 de outubro de 2019. Disponível em: <https://www.liberation.fr/debats/2019/10/04/le-parlement-de-balenciaga_1755533>.

Tradução: Luiz Morando.

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