Peter Berlin, o ícone gay que fazia selfies eróticas nos anos 1960 e as enviava por correio

Personagem de si mesmo, este alemão conseguiu viver de seus autorretratos eróticos cinco décadas antes do Instagram e cruzou o caminho de Robert Mapplethorpe, Salvador Dalí ou Andy Warhol até que se afastou após a epidemia de AIDS.

“O primeiro artista gay conceitual”, diz o fotógrafo Jack Pierson. “A versão surfista do clássico deus sexual leather de Jean Genet”, define a cineasta e performer Kembra Pfahler. “Ele era uma Mae West, mas como homem. Como Mae West, ele é totalmente autoinventado, celebrado e influente”, sentencia John Waters. A obra de Peter Berlin, que não era nada além de si mesmo, demorou algumas décadas para ser compreendida, mas agora faz todo sentido. Existe algo mais atual do que alguém que muda de nome, cria um look e um personagem, e se dedica incansavelmente a se autorretratar?

Omar Sosa, um dos fundadores da revista Apartamento, coordenou Peter Berlin: Artist, Icon, Photosexual, um livro publicado por Damiani e dedicado a esse pioneiro da estética gay que colaborou com Robert Mapplethorpe e Tom of Finland e cruzou o caminho com gente como Valentino e Dalí enquanto, como dizem vários dos entrevistados, “fez cruising por toda a vida”.

Musculoso, depilado e realçando a mala com calças de couro justas, Berlin contribuiu, aos olhos do crítico de arte Jonathan D. Katz, para perfilar “uma nova masculinidade gay” que fundia elementos dos homens das revistas gays dos anos cinquenta, que costumavam posar vestidos de cowboys, policiais e pescadores, e a cultura hippie dos sessenta, com sua roupa unissex, estampados florais e corpos lânguidos. Nos anos setenta, “Berlin tomou elementos das duas décadas anteriores, unindo essas duas polaridades e estabelecendo uma ponte entre opostos para criar um novo tipo de Adônis gay”.

O livro inclui uma entrevista com o próprio artista que se refere constantemente a si mesmo como “Peter Berlin”, não tanto porque padeça dessa hybris que leva jogadores de futebol e ex-participantes de realities a falar de si mesmos na terceira pessoa, mas porque é perfeitamente consciente de seu personagem. Berlin nasceu em Lódz, na Polônia, como Armin Hagen Freiherr von Hoyningen-Huene, um nome que, ele mesmo observou, “aponta para o fato de que não venho da miséria. Eu escolho a miséria”.

De família rica e com inclinações artísticas – um de seus familiares, George Hoyningen-Huene foi pioneiro da fotografia de moda e amante de Horst P. Horst –, na realidade não chegou a desfrutar de uma vida fácil porque seu pai morreu na Segunda Guerra Mundial, os bens da família foram confiscados pelos russos e sua mãe fugiu para Berlim com seus três filhos e quase nenhum capital. Aos 13 anos, começou a remendar sua roupa com a máquina de costura de sua avó para fazer com que suas calças ficassem mais justas. Sua iniciação sexual teve um envolvimento histórico. Aparentemente, um dia ele conheceu um homem do Oriente que o convidou ir a sua casa. Quando voltou, na manhã seguinte, viu enormes rolos de arame e uma atmosfera estranha nas ruas.

Era 13 de agosto de 1961 e estavam levantando o muro de Berlim. Sua mãe, seu padrasto e seus irmãos se preocuparam, e ele acabou confessando o que fizera naquela noite e com quem. Foi considerado levá-lo para terapia de eletrochoque, mas finalmente os Huene optaram por uma solução diferente. Expulsaram-no de casa. O jovem Armin foi morar com uma senhora mais velha, começou a trabalhar como técnico de fotografia e a passar as tardes e as noites seduzindo rapazes nos parques e bares de Berlim. Já então, cinco décadas antes da era da selfie, começou a fazer fotos eróticas em preto e branco de si, vestido de maneira provocadora, com roupa que ele mesmo fazia.

Em meados dos anos 1960, enquanto pendurava um pôster no cinema, foi abordado por um homem de meia idade – “temos a mesma câmera”, lhe disse – que não passava de Jochen Labriola, um pintor que se converteu no que hoje se chamaria sugar daddy, seu benfeitor, mas que Berlin definia com a palavra “camarada”. Seguiu-o até Roma e depois a Paris, onde Berlin causava sensação nas ruas. Dali, ambos foram a Nova York e, finalmente, ao lugar que os esperava, San Francisco. É aí onde adota o nome “Peter Berlin” e onde surpreende o ambiente gay com uma estética muito diferente dos jeans e camisas xadrezes que todos usavam na época.

Após filmar o primeiro de seus dois únicos filmes pornôs, Nights in Black Leather, Berlin se converteu em uma figura famosa para além do underground e lançou um negócio que poderia se definir como um proto-Instagram: um serviço de envio por correio de fotos eróticas de si mesmo que fazia com sua Hasselblad e que contribuiu para consolidar sua estética de pin up contracultural. Também gravou alguns curtas que com o tempo adquiriram o status de cult e, em 1975, seu segundo filme, That Boy.

A ilustradora e DJ Silvia Prada lembra no livro o impacto de assistir a esse filme, quando era adolescente: ele começa com uma famosa cena de masturbação com o cânone de Pachelbel tocando ao fundo. “Estava descobrindo minha sexualidade. Sentia fascinação por tudo que era proibido: o fetichismo leather, o sexo por telefone, público, em grupo, a vida à margem. Crescer como uma garota lésbica, no ambiente católico do norte da Espanha e escutar essa voz, ver seus jeans e sua braguilha volumosa pelas ruas de San Francisco me tocou diretamente”.

Ainda que Berlin não tenha se beneficiado economicamente de That Boy, o filme, que alguns descreveram como “antipornô”, o impulsionou ao mundo da arte e aos espaços vip. Ele compartilhou “a maior montanha de cocaína jamais vista”, de acordo com Ted Stansfield, que se encarrega de escrever seu perfil no livro de Damiani, com Calvin Klein; Andy Warhol o parabenizou por suas fotografias e lhe ofereceu a Factory; conheceu Valentino, Nureyev e Sal Mineo e passou uma tarde com Dalí e Gala, com a qual conversou em alemão. Naquela época também estabeleceu suas duas colaborações artísticas mais frutíferas, com Robert Mapplethorpe e o ilustrador Tom of Finland.

O fotógrafo, que então começava sua carreira, utilizou-o como modelo para várias imagens e o levou para jantar com pessoas influentes. Porém, segundo seu biógrafo, o nível de ambição os diferenciava. “Ambos pertenciam ao underground, os dois tinham companheiros ricos. Peter tinha Jochen Labriola e Robert tinha Sam Wagstaff, que financiaram seus estilos de vida, aplicaram técnicas rigorosas de estudo a seu trabalho e criaram fotos que sempre estarão nos anais do imaginário gay, mas seus instintos eram diferentes. Robert era movido por dinheiro e fama; Peter, não”. Ele corrobora: “Nunca quis ser rico e famoso como Robert, queria apenas me vestir e trepar”. Sua fotografia era o efeito secundário de sua vida, não o contrário.

Quando eclodiu a AIDS, sua vida se desintegrou. “Todos os meus amigos morreram. Cada um deles. Quando Jochen faleceu, em 1988, meu mundo passou do colorido ao preto e branco. Sem ele e os outros amigos que me incentivavam, não via razão de continuar trabalhando como Peter Berlin”, explica no livro. Ele viveu recluso na Califórnia e morou com um companheiro mais jovem que fotografava. Em 2006, um documentário, That Man, de Jim Tushinksi, explorou a mitologia em torno dessa Greta Garbo da cultura gay. Agora Armin, que já não é Peter, tem setenta e tantos anos e voltou a viver em San Francisco.

Naquela época, ele não quis fama e dinheiro, mas agora lamenta não ter chegado a ter “villas em Paris, Roma e Moscou cheias de homens lindos”. “Hugh Hefner – disse – é a única pessoa que teve o que eu gostaria. Fico chocado que nenhum gay tenha conseguido”. Ele gostaria de fazer seu terceiro filme, um biopic que explicasse sua viagem e o que o “projeto Peter Berlin” lhe ensinou sobre o desejo, a estética e a sexualidade. “Sinto muita falta de Peter”, disse. “Eu perdi essa energia sexual. Não me sinto feminino nem masculino. Vivo como uma anciã, cuidando do meu gato e de minhas plantas”.

Reportagem de Begoña Goméz Urzaiz, publicada em Vanity Fair em 27 de outubro de 2019. Disponível em: https://bit.ly/2N9BXi0.

Tradução: Luiz Morando.

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