“As pessoas contaminadas pelo HIV são sistematicamente invisibilizadas”

Associação emblemática da luta contra a AIDS nos anos 1990, a Act-Up Paris foi confrontada por tensões internas no ano passado. Marc-Antoine Bartoli, presidente da associação desde março de 2018, conversa conosco sobre a Act-Up Paris de hoje.

Você assumiu o cargo em 2018 em um contexto tenso, enquanto a Act-Up Paris atravessava um período de divisão, após a renúncia da antiga equipe dirigente. Você pode nos contar sobre sua chegada à direção da associação?

Quando cheguei em fevereiro de 2018, já havia problemas internos e tensões. Foi depois da onda levantada por 120 batimentos por minuto [o filme de Robin Campillo sobre a Act-Up nos anos 1990, cujo sucesso desencadeou um grande número de adesões], então a associação já havia trabalhado sobre o modo de acolher essas novas e novos ativistas, e de gerir a exposição midiática que se seguiu à estreia do filme. Acabou sendo uma faca de dois gumes: foi bom para a associação, mas um pouco menos para os discursos de defesa das últimas gestões; a nostalgia da Act-Up dos anos 1990 foi confrontada com temas e ações de hoje. As pessoas continuavam com uma visão clássica da associação, enquanto outras queriam fazer a interseccionalidade, os defensores de ações interassociações com associações que não estavam necessariamente na rede da luta contra a AIDS. Abrir-se para a questão dos migrantes sem documentos, para o trabalho sexual, temas que foram um pouco negligenciados pela Act-Up por falta de recursos após a recuperação judicial de 2013. Desde 2018, com a chegada de novos recursos humanos, pudemos novamente trabalhar sobre todos esses temas e encarar o futuro.

Você mencionou a recuperação judicial de 2013. Qual é a situação atual da Act-Up Paris?

Por enquanto, tudo bem. Conseguimos estabilizar as coisas. Com as tensões do último ano, fomos confrontados com uma falta de informações. Continuamos a procurar novas fontes de financiamento, consolidamos as subvenções existentes, tentamos fazer vir o máximo de pessoas engajadas para o nosso lado. Temos aproximadamente 150 integrantes hoje, cerca de vinte membros ativos e aliados ocasionais. A associação está indo muito bem, mas ainda temos trabalho pesado para fazer.

Quais são as subvenções da Act-Up Paris?

Temos a Sidaction, que é nosso principal doador, a Direção Geral de Saúde, o Departamento de Ação Social, da Infância e da Saúde [DASES, na sigla em francês] da cidade de Paris. Temos ainda laboratórios farmacêuticos que nos dão subsídios um pouco menos constantes que os doadores públicos, mas eles são mais aleatórios de um ano para o outro. E recebemos também ajuda da DILCRAH (Delegação Interministerial para a Luta contra o Racismo, o Antissemitismo e o Ódio anti-LGBT) em alguns projetos específicos.

Você falou de uma oposição entre a velha e a jovem guarda sobre as ações a serem conduzidas. Em quais campos a Act-Up Paris intervém hoje?

Temos várias ideias sendo levadas pelas nossas comissões. Então, a comissão “Droga e usuários” trabalha com a política de redução de danos com outros parceiros, como a Apothicom ou a associação Safe. Fizemos um teste, principalmente em farmácias, que evidenciou os problemas de distribuição de material de prevenção. A comissão “Prisão” trabalha com a defesa de pessoas trans encarceradas em colaboração com o Genepi e o Observatório de Prisões, a fim de denunciar as condições de encarceramento de pessoas trans que são por vezes detidas em estabelecimentos que não correspondem a sua identidade de gênero. Temos também a comissão “Direitos sociais” que trabalha conjuntamente com a Permanence Droits Sociaux. Está muito ligada ao acolhimento e acompanhamento dos procedimentos administrativos, mas também da escuta das pessoas que vivem com HIV que podem se sentir isoladas. Depois, há a comissão “Migração” que sobretudo conduziu uma ação contra Valérie Pécresse, presidenta da região de Île-de-France, sobre a tarifa do passe Navigo, aplicada aos beneficiários da assistência médica estatal. Enfim, a comissão “TR (Tratamentos/Pesquisa)” que trabalha com as novidades terapêuticas: é muito monitoramento de informações, vamos às conferências internacionais e isso nos permite alimentar o Reactup, site e boletim de informação trimestral, de divulgação científica e de prevenção. Além disso, também fazemos prevenção em locais de festa porque, infelizmente, ainda há contaminações e mortes por overdose nas baladas.

Por que é necessário que a Act-Up Paris cuide de todos esses temas em paralelo à luta contra a AIDS? Como isso forma um todo coerente?

Isso forma um todo coerente, antes de tudo, porque se você é uma pessoa soropositiva que vive com o HIV há algum tempo ou recentemente, você é, infelizmente, ainda hoje, muito frequentemente alvo de estigmas e discriminações. Portanto, quando lutamos contra a AIDS, devemos ser abertos e especialistas em questões de discriminação. E nos encontramos brigando junto com outras associações interseccionais que acabam complementando nossa defesa dos imigrantes sem documentos, das pessoas trans, do ambiente penitenciário. Isso permite afinar as competências da associação. Isso nos permite abrir nossos campos de especialização e pesquisa. Na Act-Up, sempre foi primordial falar na primeira pessoa: é a palavra das/dos primeiras/os interessadas/os, em uma lógica de empoderamento. É utilizar os estigmas e as experiências para tirar força daí e para lutar.

Então, podemos dizer que, após 30 anos, a luta contra a AIDS ainda é uma luta política?

Claro! Mas é cada vez mais complicado ter uma palavra política sobre esses temas. Nós nos repreendemos por isso. Exceto quando você olha pessoas afetadas e infectadas pelo HIV hoje: são pessoas sobre as quais nunca falamos, que são sistematicamente invisibilizadas, seja em relatórios, nas reuniões interassociações, ou nas políticas de governo. Então, sim, essa luta é política, o que foi confirmado aliás pelo Fundo Global de Luta contra a AIDS, Tuberculose e Malária.

A propósito do Fundo Global, qual é a posição da Act-Up sobre o fato de que a contribuição da França para o Fundo Global depende exclusivamente da decisão do presidente da República, Emmanuel Macron?

Enquanto ativistas, é uma situação que combatemos. Agora, nós sabemos bem que Macron faz publicidade disso. Evidentemente, ele deu dinheiro já que a França havia presidido o Fundo Global esse ano. Mas a questão verdadeira é: de qual maneira o dinheiro será empurrado pela nossa goela? É muito bonito dar dinheiro, mas há vontade política por trás disso? Por exemplo, a lei de Asilo e Imigração não é coerente com o que foi dito durante a reunião do Fundo Global. Há um duplo discurso: sim, vamos doar dinheiro e tapinhas nas costas de Bill Gates, mas concretamente, estamos questionando as leis abolicionistas, o patriarcado, o racismo presente na França e na Europa? Nós trabalhamos esse tema de maneira concreta.

No futuro, a Act-Up está pensando em se espalhar em novos territórios na França, como em Lyon, Grenoble ou Saint-Etienne, por exemplo?

Já faz um tempo que não colocamos mais a pergunta nesses termos porque partimos do princípio de que se as pessoas querem montar um núcleo da Act-Up, que elas o façam e nós ficaremos radiantes por poder dar uma mão e transmitir informações sobre a estruturação da rede Act-Up e sobre fontes de financiamento. Mas não queremos nos impor em territórios que não conhecemos tão bem. Reafirmo: se houver pessoas que compartilham as ideias da Act-Up e que desejam usar as cores da Act-Up, estaremos lá para apoiar. Mas é necessário que cada núcleo esteja ancorado em seu território.

Informações

Act-Up Paris, 8 rue des Dunes-Paris 19 / 01.75.42.81.25

www.actupparis.org

www.fb.com/actupparis

Reactup, site de informação e prevenção: www.reactup.fr

Entrevista de Marc-Antoine Bartoli cedida a Stéphane Caruana, publicada em 6 de novembro de 2019 na revista Hétéroclite. Disponível em: <http://www.heteroclite.org/2019/11/marc-antoine-bartoli-act-up-58797>.

Tradução: Luiz Morando.

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