A estatística é mais forte do que o amor

Existe um estudo anual sobre “ruptura de casais”. Uma estatística que mede a catástrofe. Ou a libertação. Que computa o entusiasmo ou o estancamento. Que mede a dor. O caos e a reorganização do mundo afetivo. Dependendo dos anos do casal, a idade e o sexo, o salário, o número de filhos em comum, o tempo transcorrido desde que deixamos o domicílio familiar, a profissão, os lugares de nascimento e de residência, as idades respectivas no término dos estudos, o status jurídico (casados, união estável, convivência, domicílios separados) e o PIB anual, é possível determinar quais são as probabilidades de que se continue ou se acabe um casal. Tudo está aqui, sua futura ruptura está escrita nessa estatística, mais fácil de ler do que as ranhuras nas linhas da mão.

As estatísticas dizem que na França um matrimônio de cada duas pessoas dura menos de dez anos e que 15% das pessoas entre 25-65 anos vivem sozinhas. Que em 2013, houve 130.000 divórcios e 10.000 dissoluções de uniões estáveis. Que as pessoas mais se divorciam entre os 40 e 45 anos. Que 65% das rupturas se dá em período de férias. Consequentemente, 3 em cada 5 casais se separam no verão. Por isso, estamos no período de alto risco. 37% dos casais volta depois da sua primeira ruptura, mas somente 12% logram consolidar sua relação. O matrimônio favorece a estabilidade da união, diz a estatística, da mesma maneira que a presença de filhos, mas só quando são pequenos. No entanto, os casais são mais frágeis quando começam sua vida em comum muito jovens ou num contexto de certa precariedade econômica ou social. Os agricultores homens e mulheres (o estudo não fala de trans ou dissidentes de gênero), e em menor quantidade os autônomos e os operários, rompem com menos frequência que os empregados. Entre as mulheres, as rupturas são mais numerosas se são chefes; justo o contrário dos homens. As mulheres inativas de casais heterossexuais são as que contribuem mais estavelmente ao casal – o estudo fala de “estabilidade”, mas não da infidelidade do esposo, nem da realização pessoal da esposa. A estabilidade é aqui um afeto controlado pela política. Uma sociedade na qual todos os seus casais se separassem seria uma sociedade revolucionária, até mesmo uma sociedade da revolução total.

Quando penso na minha vida (minha vida material, minha vida reduzida a uma informação computável) através desses estudos, me dou conta, primeiro com surpresa, depois com alívio, de que estou na média estatística – apesar do estudo não levar em conta os casais formados por um trans in between não operado e uma mulher fora da norma. A singularidade da nossa resistência de gênero se dobra diante das leis estatísticas. A estatística é mais forte do que o amor. Mais forte do que a política queer. A estatística transforma as noites quando nos amamos e os dias sem coluna vertebral que vêm depois da ruptura, em matéria inerte por um cálculo aritmético. E agora, a imobilidade dessas cifras me faz sentir bem.

O uso da estatística como a técnica de representação social apareceu desde 1760, com a aplicação da aritmética na gestão da população nos trabalhos de Gottfried Achenwall e Bissett Hawkins. Essa técnica se desenvolve como uma autêntica “aritmética política” a partir de finais do século XIX com André-Michel Guerry e Adolphe Quételet. Francisco Galton sonhará com um uso eugenésico dessas correlações. Esses matemáticos do social se dedicarão a produzir um conhecimento a partir de dados psíquicos ou sociais dificilmente controláveis. As estatísticas são dos meteorologistas e dos antropômetros. Da mesma forma que aprendem a predizer o tempo que fará, predizem os nascimentos e as mortes, os amores à primeira vista e as rupturas. Outra pesquisa, realizada na Inglaterra, em 2013, segundo os métodos herdados da estatística moral de Guerry, conclui que, durante os primeiros quinze meses da “lua de mel”, os casais fazem amor em torno de uma vez ao dia. Depois de quatro anos de relação, a média desce quatro vezes ao mês. Depois de 15 anos, 50% dos casais o fazem quatro vezes ao ano, a outra metade dorme em quartos separados. Depois de uma releitura detalhada de meus dias e de um escrupuloso reconto feito graças ao tempo livre e à energia obsessiva que deixam as rupturas, eu calculo que a amei 93% dos dias que passei junto a ela. Que fui feliz 63% dos dias, miserável 11%. Não posso me pronunciar por falta de memória ou de dados precisos sobre os 22% restantes. Fizemos amor 60% dos dias, com um 90% de satisfação nos três primeiros anos, 76% nos dois seguintes, e só uns 17% nos últimos anos. Dormimos juntxs 87% das noites, nos abraçamos antes de dormir 97,3% dos dias. Lemos juntxs 99% dos dias. A qualidade relativa (98%) das palavras trocadas durante a nossa relação foi quase invariável no tempo – com exceção dos dias que precederam a nossa separação.

Nossa parceria, hipérbole da perversão segundo a psicologia heterocentrada, está dentro da norma. Jamais os instrumentos da biopolítica hegemônica me confortaram tanto. Constato também que a capacidade de disposição crítica e de rebelião é inversamente proporcional à intensidade do sofrimento amoroso. Já Espinoza o anunciou em 1677, antes da invenção da estatística, que um mesmo e único afeto não pode se disseminar em direções divergentes. Estou no verão da ruptura e os transtornos que diretamente tocam o plexo solar assustam os heróis. Começa em meu coração a batalha entre o apaziguamento da estatística e o furor da revolução.

Crônica de Paul B. Preciado publicada no site Parole de queer, reproduzida do jornal Libération, de 5 de agosto de 2014. Disponível em: http://paroledequeer.blogspot.com.br/2014/08/la-estadistica-es-mas-fuerte-que-el.html.

Tradução: Inaê Diana Ashokasundari Shravya

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