Etnografia Grindr

Há quem diga que o sucesso do Grindr está em inovar por meio de um geolocalizador que indica a distância entre usuários, isto é, a opção provisória de romper o circuito fechado que liga nossos órgãos sensoriais à tela escura do celular. No entanto, é próprio do Grindr não facilitar um “encontro”, mas promover a incessante frustração por acessar, carnal e virtualmente, o corpo procurado – a infinita busca, com apenas um deslizamento tátil – para conseguir algo melhor ou conseguir algo. Junto a milhões de usuários diários poderíamos dizer que o Grindr é cognitivamente acessível, e seu triângulo interrogativo não requer muita sintaxe: o que você procura?, acena?, qual lugar? Obviamente, há um passo anterior, fiel à cultura do espetáculo, que permite ao público um acesso escópico ao eu – falamos da imagem fotográfica, acima de tudo – e, com ela, uma espécie de zapping, um descarte automático acompanhado incessantemente pela novidade, questão que guarda parentesco com o Instagram, Facebook, Twitter…

É possível afirmar que o prazer visual do Grindr desloca os tradicionais códigos gestuais e visoespaciais do cruising para uma interface que reflete o autorretrato contemporâneo: corpos disciplinados no fitness ou a edição gráfica de um rosto definem uma tendência para os dois bilhões de impressões mensais que consegue capturar essa tecnologia de controle urbano-corporal. O usuário do Grindr, tal qual um jogador viciado de cassino, acessa um mosaico audiovisual capaz de reduzir a expectativa: fundamentalmente a de sentir-se desejado. Reconhecido. À solidão inaugural do estigma, o Grindr responde com dezenas de parceiros sexuais ao redor da esquina. Um pau faraônico, seu ânus solar, decilitros de secreções. A experiência da pegação constitui um passado nebuloso para os gays-Grindr do século XXI. Tocar sua interface é acessar um instante de “comunhão visual” (devo a expressão a Donna Haraway), de encarnação identitária e coletiva; no Grindr, um eu difuso pode estar ligado, fazer parte. Tal comunhão visual só pode ser sustentada mediante múltiplas exclusões.

É preciso insistir no uso da imagem: ela guarda rastreabilidade histórica com os antigos retratos do “homossexualismo”, utilizados pela medicina lombrosiana, que cortavam o rosto para dar destaque a uma insinuante cintura ou peitoral, sinal corporal do desvio. Mas agora a selfie é disparada com fins diferentes. O gay do Grindr é imagem e sujeito da visão, espetáculo e espectador. Estamos diante de um singular mecanismo de revelação visual do sujeito sexual e tudo através de um órgão íntimo, mas externo: o celular. Um generoso otimismo permitiria assumir que o Grindr, como possibilidade tecnológica, facilitou certa “democratização” do prazer e constitui uma alternativa às históricas regulações do espaço público heteronormativo. Certamente, nos últimos anos, ele expandiu seu setor de mercado para bi, trans e pessoas queer. Mas enfatizemos a estética corporal que o Grindr atualiza e faz circular: os torsos nus tonificados que colapsam sua interface exigem não apenas uma inversão de si mesmos, eles operam religiosamente sob marcadores classistas-trans-gordo-raciais, previstos inclusive nas opções formais que oferece a cada perfil. Existe, é claro, a opção “Do not show”, um eufemismo que tenta esconder diferenças que importam, e muito, a essa singular articulação gaysmartphone (ciborgue!) de imagem-som-linguagem. O Grindr expõe aos olhos do nosso horizonte político-sexual que a padronização corporal gay em curso não se refere à diversidade, mas à distinção, necessária inclusive ao intercâmbio mais efêmero de secreções.

Condenados à tela, o Grindr promete proximidade. O certo é que seu sucesso depende de um contínuo distanciamento corporal, afetivo, político, o que assegura hierarquias e pertencimentos nas redes sociotécnicas que delineiam a sexualidade gay recente, historicamente recente. Find your perfect guy!

Por Emmanuel Theumer

Ativista marica-feminista. Professor de História e pesquisador na área de movimentos de resistência sexual. Colaborador do Resista!

Uma versão preliminar deste artigo foi publicada no Suplemento Soy do jornal Página 12, em 29 de janeiro de 2016.

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