Onde está o transfeminismo?

Este mês de dezembro marca os dez anos das Jornadas Feministas Estatais celebradas em Granada, em 2009. A revista Pikara Magazine me propôs uma reflexão retrospectiva sobre o que aconteceu com o transfeminismo nesta década. Uma reflexão que venho desenvolvendo há duas semanas.

Dez anos daquela irrupção ao grito de “Aqui está a resistência trans” que fez muitos sentirem que, por fim, o feminismo era a sua casa.

Dez anos do Manifiesto para la insurrección transfeminista: “Não basta mais sermos apenas mulheres. O sujeito político do feminismo ‘mulher’ tem sido pequeno demais para nós, é excludente por si mesmo, deixa de fora as sapatões, as/os trans, as putas, as de véu, as que ganham pouco e não vão à universidade, as que gritam, as sem documentos, as afeminadas…”.

Dez anos depois daquele momento em que os direitos das trabalhadoras sexuais, a despatologização trans, o colonialismo e as políticas migratórias, o meio ambiente e os cuidados ocuparam aqueles dias o centro das apresentações, dos debates e das reivindicações.

A primeira pergunta que me surge após essa incumbência, e para perceber o tempo que se passou, é onde está o transfeminismo. Existe um movimento que podemos chamar transfeminista? E não posso deixar de recordar aquele texto de Itziar Ziga, “El corto verano del transfeminismo?” [“O curto verão do transfeminismo?”], no qual nos alertava para os perigos ou armadilhas que podiam desarticular o poder emergente dessa nova aposta política. Tenho sérias dúvidas sobre se realmente temos sido capazes de manter a chama. Pergunto-me, inclusive, se perdemos a batalha por um feminismo não identitário e baseado nas alianças, um feminismo prosex e não punitivo, um feminismo plural, autônomo e radical, um feminismo para todes.

É verdade que nos últimos dois anos o feminismo eclodiu e testemunhamos um momento de mobilizações massivas sem precedentes. Parece que o espírito de assembleia, autônomo e de base do 15M[i] se materializou na Greve Feminista do 8M. Uma convocatória que reivindica o fechamento dos CIES e apela contra a violência das fronteiras, pela revogação da reforma trabalhista, pelos direitos das trabalhadoras domésticas, contra a destruição do planeta e, finalmente, contra o sistema capitalista. Nunca o feminismo foi mais transversal sem perder a radicalidade. De fato, colocou-se sobre a mesa que principalmente os feminismos, como também o movimento antirracista ou LGTBI, estão sendo a melhor barreira de contenção contra o avanço do fascismo.

No entanto, estamos também diante de um momento agridoce, de alguma forma ambivalente. Assistimos a um momento político de forte fragmentação das lutas durante o qual estão acontecendo os debates feministas mais encarniçados. Debates polarizados onde se perdem os matizes e onde não há solução possível. Sem dúvida, a questão de base é o velho e maníaco tópico da questão do feminismo. Não é inocente que ela esteja sendo revivida com tanta força justo agora. É o famoso divide e vencerás. E dirigindo nessa direção emergem de novo discussões sobre o lugar das pessoas trans no feminismo, o mulherismo, a armadilha do enfrentamento do queer (como se o queer pudesse ser entendido sem o feminismo) ou a falsa dicotomia abolicionismo/pró-direitos. Debates que estavam superados e sobre os quais se logrou um amplo consenso nas jornadas estatais de Granada em 2009.

Francamente, a muitas de nós nos preocupa essa nova onda identitária em forma de remake vintage que está tomando o movimento feminista em alguns enclaves. Minha genealogia política, na qual aposto e defendo meus interesses de classe, é uma genealogia queer ou transfeminista que tem como objetivo a articulação e que situa como ameaça para a mobilização a fragmentação das lutas. Considero que se trata de uma onda que se apresenta como transformadora, mas no fundo esconde um novo essencialismo que impossibilita as alianças. Uma espécie de “essencialismo da experiência” que promove uma concepção vitimista da opressão como privilégio individual e que impede uma leitura estrutural das desigualdades.

As categorias que dão nome a nossas opressões deveriam servir como ferramentas emancipatórias, não como armas arrojadas para bloquear debates, converter certos temas em tabu e silenciar posturas. Os posicionamentos identitários não contribuem para construir um movimento verdadeiramente transversal e articulado, portanto, tampouco para transformar as raízes das desigualdades. Tal como Núria Alabao apontou, “se o feminismo é construído como uma identidade, ele se fecha, perde sua capacidade de fazer alianças”.

O próprio feminismo se converteu em um campo de batalha, há uma luta por seu significado. Há muitos interesses por definir seu sentido e sua direção, em retirá-lo das assembleias e arrancar sua autonomia e sua pluralidade, em tentar enclausurá-lo para desativá-lo. Como também assinalam Núria Alabao e Marisa Pérez Colina, trata-se sobretudo de interesses partidaristas, e de classe, de mulheres ligadas fundamentalmente ao PSOE[ii], ainda que não apenas, que necessitam do feminismo para reforçar sua posição de poder no partido ou nas instituições. Mulheres às quais não interessa que o feminismo fale sobre moradia, precariedade e pobreza, racismo ou dos direitos dos migrantes. Às quais não interessa o uso da greve de consumo, de trabalho, de assistência na saúde etc. como ferramenta feminista de protesto porque o que lhes interessa é o teto de vidro, a representatividade vertical e a paridade nos conselhos de administração de suas grandes empresas.

Colocar no feminismo o debate sobre o trabalho sexual é meter um cavalo de Troia nas tripas de movimento feminista, justo agora, no momento de sua máxima eclosão. Não é novidade, em nosso contexto, que as discussões sobre a prostituição já tenham fraturado o feminismo unitário dos anos 80.

Não sei muito bem o que temos que fazer para não acabar desativando o prodigioso potencial feminista dos últimos anos. O que tenho claro é o quanto jogamos em um contexto de auge da extrema-direita e de sua entrada de peito aberto nas instituições. Seja o que for, vamos fazê-lo juntes e com outres, a partir da soma, da confluência e da força coletiva.

Artigo de Miriam Solá García publicado em Pikara online magazine, em 18/12/2019. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2019/12/donde-esta-el-transfeminismo/

Tradução: Luiz Morando.


[i] Movimento do 15-M é uma das maneiras pelas quais ficaram conhecidos os protestos que ocorreram na Espanha em 15 de maio de 2011 organizado pelas redes sociais para reivindicar mudanças na política e na sociedade espanhola.

[ii] Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE).

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