O FEMINISMO BURGUÊS E A SOCIALIZAÇÃO QUE NUNCA FALHA

“Todo o indivíduo humano é o produto involuntário de um meio natural e social no seio do qual nasceu, desenvolveu-se e do qual continua a sofrer influência. As três causas de toda a imoralidade humana são: a desigualdade tanto política quanto econômica e social; a ignorância que é seu resultado natural e sua consequência necessária: a escravidão.” (Bakunin, Programa e objetivo da organização secreta revolucionária dos irmãos internacionais)

A socialização nunca falha?

Se considerarmos a socialização como a integração do indivíduo num determinado regime de organização social, sim. Afinal de contas, só nos tornamos humanos em sociedade. Ocorre que as autodesignadas “feministas radicais” – que de radicais não possuem rigorosamente nadica de nada, as quais designaremos “feministas burguesas”[i] ou “feministas do batom vermelho” como uma forma de não sermos desonestas com o movimento feminista radical lá dos anos 70. Afinal de contas, estamos falando de nacionalistas brancas que reiteram valores sexistas o tempo inteiro, para as quais é conveniente a opressão como forma de arrecadar lucros. O que não significa que as feministas desse período não fossem transfóbicas em alguma medida – se valem dessa expressão, “a socialização nunca falha”, como uma desqualificação de mulheres trans enquanto parte integrante da categoria social e política “mulher”, ou mais bem dizendo, “mulheres”. Elas costumam acrescentar algo a essa expressão: “a socialização masculina nunca falha”.

Pra início de conversa, para alguém que reivindica o método materialista, afirmar algo como “sempre” e “nunca” é um tanto estúpido. Falar de “socialização masculina” sem descrevê-la particularmente, em sua concretude, termina por nada dizer tudo dizendo. É quase um chouriço teórico. Simone de Beauvoir disse que não se nasce mulher, mas se torna. Beleza. O que nos caberia a partir daí é pensar como que se dá esse tornar-se, esse devir-mulher. Aí entra a parte que cabe ao materialismo: a análise de como X se torna X. Ou seja, como X assume a posição de X. Vale ressaltar que, ao realizarmos uma análise, nós a realizamos partindo duma posição específica, particular. Assim, falar de “mulher” não é uma tarefa fácil, exige um certo esforço para não cairmos num lugar comum ou aderir ao senso comum. De Beauvoir também disse uma caralhada de coisas depois dessa frase, mas com certeza costumam ser ignoradas.

Segundo as feministas burguesas, as mulheres trans teriam tido uma socialização masculina. Elas afirmam isso tomando como base a diferença sexual como um dado, e não como efeito ou causa imanente do sexismo. Monique Wittig, uma feminista materialista, diz o seguinte num texto seu chamado “Não se nasce mulher”: “Um enfoque feminista materialista da opressão feminina rompe com a ideia de que as mulheres são um ‘grupo natural’”, isso logo no começo. Ela continua:

“Um enfoque feminista materialista mostra que o que tomamos por causa ou origem da opressão é de fato apenas a marca imposta pelo opressor; o “mito de mulher”, mais seus efeitos e manifestações materiais na consciência e nos corpos capturados de mulheres. Assim, essa marca não vem antes da opressão: Colette Guillaumin mostrou que, antes da realidade socioeconômica da escravidão negra, o conceito de raça não existia, pelo menos não no seu sentido moderno, já que ele era empregado a linhagem de famílias. Entretanto, agora, raça, exatamente como gênero, é considerada como “dado imediato”, “dado sensate”, “atributos físicos”, pertencendo a uma ordem natural. Mas o que nós acreditamos ser uma percepção física e direta é apenas uma construção sofisticada e mítica, uma “formação imaginária”, que reinterpreta atributos físicos (em si mesmos tão neutros quanto quaisquer outros, mas marcados pelo sistema social) por meio da rede de relacionamentos na qual eles são percebidos. (….)

A recusa em se tornar (ou continuar) heterossexual sempre significou recusar a se tornar um homem ou uma mulher, conscientemente ou não.

Para uma lésbica isso vai mais além do que a recusa do papel de “mulher”. É a recusa ao poder econômico, ideológico e político do homem. (…)

Isso só pode ser conseguido pela destruição da heterossexualidade como um sistema social baseado na opressão das mulheres pelos homens e que produz a doutrina da diferença entre sexos para justificar a opressão.”

Foda-se, né? Elas não leram Wittig. Talvez tenham lido Colette Guillaumin: “O tipo de ‘materialismo’ que temos aqui, que hipostasia ‘Natureza’, é claramente interessado não em processos, mas nas propriedades dos elementos. Bem, a menos que eu esteja enganada, uma escola de pensamento pautada no postulado de ‘propriedades’ é classicamente metafísica.”

Putz! Pelo visto não leram Guillaumin. Aaaaaaaah, Dworkin, com certeza leram Andrea Dworkin:

“A pesquisa de hormônios e cromossomos, tentativas de desenvolver novos meios de reprodução humana (vida criada ou consideravelmente apoiada pelo laboratório do cientista), trabalho com transexuais e estudos de formação da identidade de gênero em crianças fornecem informações básicas que desafiam a noção de que existem dois sexos biológicos distintos. Essa informação ameaça transformar a biologia tradicional da diferença de sexo na biologia radical da semelhança de sexo. Isso não quer dizer que haja um sexo, mas que existem muitos. A evidência que é pertinente aqui é simples. As palavras “masculino” e “feminino”, “homem” e “mulher” são usadas apenas porque ainda não existem outras.”

Eita, também não. Aliás, elas denominariam esse trecho de “pós-moderno”.

Na tentativa de fugir pela janela, elas afirmam que mulheres trans não tiveram uma socialização feminina, pois esta seria a que faz da mulher “recatada e do lar”. Bom, vamos pensar direitinho. Mulheres cis de periferia também não tiveram uma socialização para se tornarem “recatadas e do lar”, pois tiveram que trabalhar desde cedo, se deparar com dinâmicas de violência tão intensas que as feministas burguesas não fazem ideia, como a abordagem brutal da polícia militar em favelas e comunidades. Nesse sentido, a recusa no reconhecimento de mulheres trans como mulheres também compreende a recusa de mulheres periféricas como mulheres.[ii] Lembra que eu falei inicialmente que elas são nacionalistas brancas? Pois é! A dimensão que elas têm sobre o que implica ser mulher tá enviesada por uma perspectiva de classe e raça também. Daí a importância de falarmos de interseccionalidade, que não é bem criar conexões, mas reconhecer conexões existentes que passam despercebidas, politicamente invisibilizadas.

Num regime de organização social sustentado por um regime sexual binário, deixar de ser “masculino” implica se tornar “feminino”. Um corpo designado “masculino” ao nascer não é masculino por descrição, mas prescrição. O seu corpo será preparado ao longo de sua vida para incorporar a masculinidade/hombridade/heterossexualidade, ou seja, sofrerá cisgenerização. Aliás, as feministas burguesas alegam que não podem ser designadas cis pois não se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascimento. Como não se identificam se reverberam discursivamente tudo o que diz respeito à corporeidade cisgênera? Há um discurso médico que patologiza as pessoas trans. Quantas e quais pessoas são abarcadas por essa designação? Estamos falando da formação da sociedade e importa lembrar que há um regime de verdade, que a medicina se sustenta nesse regime de verdade, que é o baseado no discurso científico. Isso não significa que tenhamos que abandonar o discurso científico, e sim reconhecer o que há de sexismo, racismo, especismo, capacitismo, e por aí vai, na sua arquitetura. E aí entra o biologismo, o caráter teológico – no sentido bakuniniano – da ciência, a falácia de que a biologia afirmaria a diferença sexual, sendo que estudos recentes – e outros tantos nem tão recentes assim – sobre embriologia e biologia molecular desmentem isso.

Uma das coisas que as feministas burguesas afirmam se pautando no biologismo é a hipotética diferença natural evidenciada na presença das gônadas. A respeito disso, a dra. Mary Jane Sherfey diz o seguinte: “Em sua organização somática, as gônadas sempre retêm uma quantidade maior ou menor de tecido do sexo oposto que permanece funcional ao longo da vida.”[iii] Interessante, não? Esse trabalho tá registrado como sendo de 1973.

Sobre a falácia naturalista de que os genitais, os cromossomos, seriam os motivos da opressão, Christine Delphy diz o seguinte no artigo intitulado “Rethinking sex and gender”:

“Até agora, a maior parte do trabalho sobre gênero, incluindo o trabalho feminista sobre gênero, se baseava em um pressuposto não examinado: que o sexo precede o gênero. No entanto, embora esse pressuposto seja historicamente explicável, é teoricamente injustificável e sua existência continuada está impedindo nosso pensamento sobre gênero. Está nos impedindo de repensar o gênero de maneira aberta e imparcial. Além disso, essa falta de clareza intelectual está indissociavelmente ligada às contradições políticas produzidas por nosso desejo de escapar da dominação, por um lado, e por nosso medo de perder o que parecem ser categorias sociais fundamentais, por outro.

O que é comum a esses impasses intelectuais e contradições políticas é uma incapacidade (ou uma recusa) de pensar rigorosamente sobre a relação entre divisão e hierarquia, uma vez que a questão da relação entre sexo e gênero não apenas se assemelha a essa questão, mas é, de fato, o mesmo problema.”

Para ela, não é o sexo (genital) que precede o gênero, e sim, o gênero é que precede o sexo.

Aliás, sobre o determinismo biológico que elas pregam, Dworkin fala algo interessante num pronunciamento intitulado “Biological superiority: the world’s most dangerous and deadly idea” [Superioridade biológica: a ideia mais perigosa e mortal do mundo], durante um evento feminista onde feministas lésbicas separatistas tratavam as diferenças entre homens e mulheres como naturais, afirmando uma superioridade das mulheres sobre os homens:

“Foi essa própria ideologia do determinismo biológico que licenciou o massacre e / ou escravização de praticamente qualquer grupo que se pudesse nomear, incluindo mulheres por homens. (“Use seu próprio veneno contra eles”, uma mulher gritou.) Em qualquer lugar que se olhasse, era essa filosofia que justificava a atrocidade. Essa foi uma fé que destruiu a vida com um momento próprio.”

O interessante desse pronunciamento dela é que ela começa citando Hitler, depois Himmler, como forma de apontar como que esse determinismo biológico estava associado ao racismo de Estado – o WoLF, Women Liberation Front, nos E.U.A., exemplificariam muito bem isso, infelizmente. Durante essa fala, quando perguntada por outras feministas lésbicas se ela era bissexual, ela responde: “eu sou judia”. É muito interessante essa resposta dela, pois a provocação que ela lança contra aquelas feministas presentes era a de que, ao reivindicar o determinismo biológico, elas estariam se aproximando de algo como o nazismo. Ela chega a dizer que sentiu medo durante a fala dela. Sem sombra de dúvidas, pode-se afirmar daí o caráter fascista do feminismo burguês autodesignado “radical”.

Indica Dworkin:

“Ao considerar a argumentação intelectual e científica masculina em conjunto com a história masculina, somos forçados a concluir que os homens como classe são cretinos morais. A questão vital é: devemos aceitar sua visão de mundo de uma polaridade moral que é biologicamente fixa, genética ou hormonal ou genitalmente (ou qualquer órgão ou secreção ou partícula molecular que eles usem como o próximo bode expiatório) absolutos; ou nossa própria experiência histórica de privação social e injustiça nos ensina que, para sermos livres em um mundo justo, teremos que destruir o poder, a dignidade e a eficácia dessa ideia acima de todas as outras?

(…)

É vergonhosamente fácil para nós desfrutar de nossas fantasias de onipotência biológica enquanto desprezamos os homens por apreciarem a realidade deles. E é perigoso – porque o genocídio começa, ainda que de maneira improvável, na convicção de que classes de distinção biológica indiscutivelmente sancionam a discriminação social e política. Nós, que fomos devastados pelas consequências concretas dessa ideia, ainda queremos confiar nela. Nada oferece mais provas – provas tristes e irrefutáveis – de que somos mais parecidos com homens do que eles ou nós queremos acreditar.”

Esta última parte retrata bem como as feministas burguesas lidam com travestis no contexto brasileiro. Para elas, o Brasil ser o país que mais mata pessoas trans é um dado insignificante, pois enxergam mulheres trans e travestis como sendo “homens se vestindo de mulher”, “farsas”, um enunciado próprio da supremacia masculina, que é a que define o que e para quê é uma mulher.

Levando em conta que todas as pessoas nesta sociedade ocupam uma posição social/política, podemos compreender sua posição política, a das feministas burguesas, como reacionária, e portanto, antifeminista.

A socialização nunca falha? Podemos falar sobre as sociedades até o momento atual, nos focar um tanto mais no presente. Sobre o futuro? Não somos videntes, não há uma história previamente dada e linear. Lembrando Wittig, “ao admitir que existe uma divisão ‘natural’ entre mulheres e homens, nós naturalizamos a história, nos assumimos que ‘homens’ e ‘mulheres’ sempre existiram e sempre existirão. Não só naturalizamos a história, mas também, consequentemente, naturalizamos os fenômenos sociais que expressam nossa opressão, tornando impossível a mudança”. Uma análise materialista precisa lidar com a contingência das coisas. Se a socialização nunca falha, eu realmente não sei. O que sei é que as feministas burguesas falham feio no combate ao patriarcado.

Artigo elaborado por Inaê Diana Ashokasundari Shravya para o Resista!


[i] Para não causar equívocos, eu me apoio no subcapítulo “O socialismo conservador ou burguês” do Manifesto Comunista de Marx e Engels.

[ii] Reconheço a contribuição perspicaz do filósofo americano Ygor Corrêa, um amigão meu, nessa discussão.

[iii] Mary Jane Sherfey, M. D. The Nature and Evolution of Female Sexuality. New York: Vintage Books, 1973. p. 43.

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