23 anos de bichas vivas combatendo a AIDS, a homofobia, o auto-ódio e o estigma

Em 1996, a vida humana mudou. Pelo menos a possibilidade de viver para aquelas e aqueles, milhões, infectadas pelo HIV. Os tratamentos antirretrovirais foram sintetizados. Quase perdemos o alento pelo caminho, muitas pessoas o perderam. Mas ao fim, essa misteriosa doença, que como o vírus zumbi em The Walking Dead o menos importante é de onde vem, pôde começar a ser registrada. Compatível com a vida. Havia ferido a comunidade gay de morte, como tantas outras vezes nos sucedeu na História. E como tantas outras vezes na História, renascemos como a porra da Fênix, banhadas em purpurina. Isso faz parte de nossa épica e orgulhosa sobrevivência.

Um belíssimo comissário de bordo franco-canadense chamado Gäetan Dugas era convenientemente demonizado em plena era reacionária Reagan como o Paciente Zero, conceito desenvolvido desde então, embora epidemiologicamente descabelado. Naquele pavoroso 1984 era publicado um estudo que o assinalou como o provável propagador do HIV a partir da África. Ele havia colaborado especialmente nas primeiras investigações sobre essa nova doença tão desconcertante. Ele foi capaz de se lembrar de alguns dos mil homens com os quais havia feito sexo pelo mundo, em suas viagens como assistente de voo da Air Canada. Graças a ele, descobriram que o esperma era um dos fluidos corporais que transmitia aquele vírus capaz de fulminar em pouco tempo jovens saudáveis como carvalho. O outro, principalmente, era o sangue. Se era sabido como o novo inimigo passava de um corpo a outro, existia a possibilidade de detê-lo.

Gäetan Dugas morreu naquele mesmo ano, com o sistema imunológico tão demolido quanto ficaria seu próprio nome. Associar promiscuidade, e sobretudo promiscuidade gay, com fatalidade e perigo social, foi muito conveniente para voltar a colocar as coisas em seu reacionário lugar após a explosão de liberdade dos anos 70. Ainda circulam boatos infames que lhe atribuem uma vontade predatória de converter sua doença em praga. Apesar de desde o início terem sido infectadas pessoas de todo gênero e orientação sexual, a AIDS seria conhecida durante um tempo como o câncer gay. Hoje é geneticamente irrefutável que Gäetan Dugas apenas foi um dos milhares de infectados antes da identificação do HIV. A lenda do Paciente Zero tem origem inclusive em um erro de leitura: o arquifamoso zero era na realidade um ‘o’, de outside da Califórnia.

Um dos primeiros lugares onde se pesquisou aquele estranho surto mortal foi em São Francisco, entre sua extensa comunidade gay. Concentrada no bairro de Castro desde que milhares de soldados, com preferências sexuais inconvenientes, foram enviados para ali durante a Segunda Guerra Mundial, para serem julgados por sodomia. Exército ultra-homofóbico dos EUA, você se cobriu de glória! Querendo acabar com eles, você provocou um dos maiores e mais combativos guetos gays do mundo. A partir do qual se iniciaria corajosamente a luta contra a terrível repressão policial e social que sufocava suas vidas.

Em outubro de 1984 foram fechadas nove saunas gays em São Francisco por ordem legal, para tentar impedir a infecção. E porque havia uma gana homofóbica, claro. As bichas se opunham a foder com preservativo e a ter seus clubes de recreação sexual fechados. Defendiam sua liberdade conquistada a pulso nos últimos anos. E também seu vício lendário. Obviamente, as lésbicas começavam a praticar sexo oral com barreira protetora apenas por precaução. Está demonstradíssimo que é impossível infectar-se com o HIV por ingestão de xoxota. Baseado em conhecimento científico, convenci há doze anos minha amiga Kat, soropositiva desde 1985, para que me deixasse comê-la. Foi tudo perfeito.

Uma ativista imprescindível pelo cuidado com pessoas soropositivas chamada Montse Pineda me explicou, quando a entrevistei em 2002, que “a incapacidade das mulheres para negociar suas relações sexuais, porque isso não lhes é patriarcalmente permitido, é outra forma de violência machista”. Logo foi comprovado que a infecção entre mulheres heterossexuais disparava: já não era apenas um problema de bichas. Nunca havia sido.

No início dos 80 e durante quase vinte anos, as paradas do 28 de junho que celebram em todo o mundo aquela revolta de travestis, bichas e sapatões que explodiu em Manhattan em frente ao bar Stonewall, em 1969, estavam cheias de fantasmas. Os gays caíam como moscas e ninguém parecia fazer nada. Quando um pequeno progresso havia sido feito, graças a uma luta heroica, na possibilidade de existir socialmente para as desviadas sexuais, chegou a maldição em forma de vírus.

Para enfrentar o maior estigma da virilidade e a habitual rejeição de suas famílias, foram somados a esses dois o medo, a doença, a própria morte e a dos amigos. O estigma renovado, a discriminação renovada… e esse outro vírus terrível que te corrói por dentro, cortesia da dominação cristã, também renovado. O televisivo e grande escritor Jorge Javier Vázquez explica isso assim. “Pelo medo que tive durante aqueles anos, como muitas pessoas de minha geração, ficou um complexo de culpa tão grande como a Catedral de Burgos”. Meu amigo Rodrigo Van Zeller me disse recentemente: “Qual será minha música favorita dos Pet Shop Boys? Sou bicha, It’s a Sin.” É um pecado.

Há um maravilhoso ativista gay, roteirista de Hollywood, empenhado em restituir o amor próprio a sua comunidade, chamado Larry Kramer, que disse isto: “Temos que fazer novamente algo neste mundo, por nossa própria vida, que vale muitíssimo. Por não fazê-lo, você está dizendo que nossas vidas são uma merda, e que merecemos morrer. E que a morte de todos nossos amigos e nossos namorados não serviram para nada. Não posso acreditar que intimamente você se sinta assim. Não posso acreditar que você quer morrer. E você?”

Infelizmente, também existem forças contrárias a nós em nossas fileiras: o infame, cômodo e irresponsável negacionismo da AIDS. Nunca esquecerei as lágrimas de uma agente de saúde comunitária que conheci no México quando lhe falei da negação entre gente que tem acesso a tratamento gratuito, graças ao nosso sistema de saúde universal. E que, ao final, sempre buscam antirretrovirais quando se veem frente a frente com a foice. Já vi isso várias vezes entre minha gente em Barcelona. “Eles morrem nos braços, porque são pobres. Enquanto esses rapazes mimados europeus…”, ela me disse cheia de raiva justa.

A luta contra a AIDS, a homofobia, o estigma e esse terrível auto-ódio interiorizado patriarcalmente continua. Nunca esqueceremos a morte de tantos dos nossos. Nem de lamentar que a cura não chegou a tempo para Freddie Mercury. Quais canções suas não perdemos desde 1991! Horas antes de morrer, ele confirmava que tinha AIDS. Sua decisão foi histórica para desativar o tabu. “Desejo que todos se unam a mim, aos médicos e àqueles que padecem dessa terrível doença, para lutar contra ela.” Aquele último gesto valente, impulsionado pela mesma grandeza que guiou sempre sua vida, mudou tudo.

Porque o cantor do Queen era uma estrela do rock, venerada por mulheres e homens. Embora, muito especialmente, por homens heterossexuais. Admiravam sua masculinidade, forte, mas glamorosa, sem perceber que vinha da cultura gay. Eram incapazes de decodificá-la, sabemos que a estética não é coisa de machos. Ou acreditam nisso. Esta é uma de nossas grandes vitórias: lançamos tudo. Doou postumamente mais de 30 milhões de euros para a pesquisa contra a AIDS. Quão bonito Freddie Mercury seria, agora, com 71 anos! Nunca o saberemos. Embora eu feche os olhos e possa vê-lo.

Como Madonna, hoje desejo celebrar essas duas décadas de bichas vivas. A existência de tantos amigos que, sem os antirretrovirais – e sem a cobertura de saúde universal e gratuita que tanto nos tem custado conseguir e que não devemos perder nunca –, eu nem sequer teria conhecido. Ou teria que enterrar. E, sim, minha canção favorita de Pet Shop Boys sempre será You’re always on my mind. Vocês sempre estarão em minha mente. Na nossa.

Wim Vandevelde: o Robin Hood Gay

O que você fazia antes de se envolver na negociação para o acesso ao tratamento ao HIV com as companhias farmacêuticas e os Estados?

Eu era o diretor da filial portuguesa de uma agência de marketing financeira com sede em Lisboa. Comecei a envolver-me com o ativismo em prol do tratamento ao HIV após meu diagnóstico, em 2000, e três anos depois já estava trabalhando em tempo integral como ativista da AIDS.

Em que consiste seu trabalho de ativista?

Primeiro envolvi-me com a maior ONG portuguesa que luta com temas relacionados ao HIV e pouco depois comecei a trabalhar em nível europeu, no Grupo Europeu para o Tratamento de AIDS, a maior organização ativista de pacientes com HIV em toda a Europa. Sua missão é conseguir rapidamente os melhores produtos, instrumentos médicos e exames diagnósticos para prevenir ou tratar uma infecção pelo HIV ou para melhorar a qualidade de vida de pessoas que têm HIV ou correm risco de infectar-se. Quando me tornei responsável pela organização, assumi a responsabilidade de liderar atividades lobistas com as instituições nacionais e europeias que se encarregam da saúde pública e da prevenção de infecções sexualmente transmissíveis como HIV e hepatites. A estreita relação de trabalho que tenho com a Comissão Europeia e o Parlamento nos permite influir positivamente no marco legal e favorece medidas de saúde pública para prevenir e tratar a epidemia de HIV que acomete o continente. Também trabalhamos com as indústrias farmacêuticas para influir no desenvolvimento de novas e melhores drogas para o HIV e suas coinfecções, a partir do olhar do paciente. Não apenas queremos remédios melhores e menos tóxicos, como também que sejam baratos para que ninguém que necessite de tratamento deixe de obtê-lo por razões econômicas. A inovação sem acesso é imoral e as inovações no tema do HIV/AIDS têm que chegar a todas as pessoas em países em vias de desenvolvimento, a todas em países desenvolvidos e a todas do “norte global”. Para que os medicamentos para o HIV sejam mais baratos e possíveis de comprar, temos que fazer campanhas públicas de pressão sobre as companhias farmacêuticas e criar marcos legais que possibilitem a proliferação de patentes de genéricos, que custariam uma pequena parte do que custam os medicamentos de marcas com patentes protegidas.

Houve negligência governamental nos primeiros anos da epidemia?

No começo dos 80, a AIDS era conhecida como a “doença dos 4H”, já que parecia afetar principalmente os heroinômanos, homossexuais, hemofílicos e haitianos nos Estados Unidos. Com exceção dos hemofílicos, o governo republicano conservador de Ronald Reagan desprezava o estilo de vida das primeiras vítimas conhecidas da AIDS e, de fato, descuidou da extensão da doença e recusou gastar dinheiro em pesquisa para encontrar uma cura. Todavia, a AIDS foi identificada pela primeira vez em 1981, e Reagan não mencionou isso publicamente por vários anos. Finalmente o fez durante uma conferência de imprensa em 1985. Até então, mais de 13.000 mortes conhecidas de AIDS haviam ocorrido nos Estados Unidos. Muitas mortes por HIV poderiam ter sido evitadas se os Estados Unidos e outros governos tivessem prestado mais atenção e investido dinheiro em pesquisa antes na epidemia. Felizmente, hoje em dia a maioria dos Estados entende que têm uma responsabilidade específica com a saúde pública, incluídos a prevenção, o tratamento e o controle de doenças epidêmicas como o HIV/AIDS, não importa quão vulneráveis e estigmatizadas sejam as populações afetadas.

Onde estamos na luta contra essa pandemia?

Mais de 30 anos depois da descoberta do vírus, temos as ferramentas para prevenir a infeção e fazer com que o HIV seja uma doença crônica gerenciável e que as pessoas que o contraem tenham uma expectativa de vida similar à de pessoas que não estão infectadas. Infelizmente, em muitos países ao redor do mundo, os governos não querem investir os recursos necessários na saúde e na sobrevivência das pessoas mais vulneráveis e estigmatizadas. Pessoas como homens que têm relações sexuais com outros homens, pessoas trans, migrantes, trabalhadoras do sexo e pessoas usuárias de drogas injetáveis. Muitas vezes, pessoas mais vulneráveis à infecção são as que têm menos acesso à saúde pública. Fatores como o estigma, a discriminação e a criminalização fazem com que essas pessoas não sejam levadas em conta e se privem dos serviços de saúde de que necessitam. Na Europa Ocidental, onde o acesso à saúde pública é melhor que em muitas partes do mundo, as pessoas que vivem com HIV ainda sofrem estigma e discriminação em muitos setores da sociedade e não podem revelar sua condição sem sérias repercussões. Para derrotar essa pandemia, necessitamos acabar com a discriminação na legislação, na prática e em nossos corações.

Artigo de Itziar Ziga publicado no site Parole de Queer. Disponível em: <http://paroledequeer.blogspot.com/2019/12/maricones-vivos-itziar-ziga.html>.

Tradução: Luiz Morando.

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