Resistir não é suficiente, é preciso revidar!

No início deste ano nos deparamos com o assassinato brutal da travesti Quelly da Silva. Ela foi assassinada pelo seu companheiro, teve seu tórax aberto, o coração removido e, em seu lugar, foi colocada a imagem duma santa católica. Carlos, que era seu companheiro, disse que ela era um demônio, referindo-se a ela no masculino. A heterossexualidade é perigosa. Seu ex-companheiro e executor foi absolvido. A alegação? Ele possui transtornos mentais. Outras causações, como a demonização que travestis sofrem por religiões cristãs – o que não significa que sejam aceitas noutras religiões –, são ignoradas.

Há alguns anos havia um enunciado muito popular entre feministas que era “tire seu rosário do nosso ovário”. Um rosário era colocado numa superfície de modo a lembrar um ovário. Isso dizia respeito ao controle que as igrejas cristãs exercem sobre os corpos das mulheres. Mas e os corpos das travestis? Há um certo cristianismo enrustido no movimento feminista brasileiro ainda. Não somos compreendidas, nós travestis, dentro do espectro do feminino. Por que não se enunciou “tire sua santa do nosso tórax”? Talvez porque “nosso tórax” implicaria dizer que seus tórax e os tórax das travestis são semelhantes. Há algo de necrossexista aí que reitera a posição social de nossos corpos travestis como corpos patogênicos, como corpos passíveis de apagamento, de eliminação. Não obstante, a notícia sobre o assassinato da Quelly, que consta do início do ano, não repercutiu nos círculos militantes de esquerda. Um amigo cis meu só foi saber desse caso recentemente quando conversei com ele sobre. Esse caso teve repercussão internacional. Como é que pouquíssimas pessoas cis e feministas souberam?

Lembremos do caso Dandara. Dandara Kettley foi espancada, apedrejada e executada a tiros no Bom Jardim, no bairro de Fortaleza, no Ceará, em 15 de fevereiro de 2017. Não obstante o assassinato ter ocorrido de maneira cruel, um vídeo mostrando como ocorreu o assassinato circulou em grupos de WhatsApp e Facebook. Como era de se esperar – ou cisperar –, seu assassinato não provocou comoção alguma. Entre nós, dissidentes de gênero e sexuais, houve comoção. Houve exatamente porque sentimos parte de nós sendo assassinada ali. O mesmo poderia ter ocorrido com qualquer uma de nós. Por que sua morte não foi considerada como um caso de tortura? Há alguns anos sofri espancamento. Eu estava acompanhada nesse momento, e quando os agressores perguntaram a essa pessoa se me conhecia, ela disse “eu não conheço ela”. Ouvir isso foi como se uma raspagem fosse feita dentro de mim. Pensei que fosse morrer ali. “Eu não conheço ela.” Esse enunciado eu escutaria outras vezes mais, inclusive dentro da academia.

Luiz Carlos Ruas deve ser lembrado como nosso cúmplice. Para quem não se recorda, em dezembro de 2016, dois homens cis entraram na estação Pedro II do metrô atrás da travesti Raissa para agredi-la. Nesse momento, o ambulante Luiz Carlos Ruas, que trabalhava ali há mais de 20 anos, impediu que eles fossem atrás dela, o que fez com que eles começassem a espancá-lo. Naquele momento ele traiu a cisheteronorma e essa foi a sua punição. O que Luiz Carlos Ruas fez nenhum homem cisgênero havia feito até então, nem mesmo “o mais revolucionário dos revolucionários” da militância de esquerda brasileira. Obviamente, pois a esquerda brasileira, como bem coloca João Silvério Trevisan, fede a mofo. Ela é patriarcal, cúmplice dos crimes algozes do colonialismo e do capitalismo. 

Pedem que recorramos à justiça. Que justiça? A mesma justiça que mal respeita nossos nomes? O Estado sequer consegue apresentar dados oficiais sobre a população trans no Brasil. A que instituições recorreremos se estão todas elas permeadas de transfobia? A falta de assistência institucional é intencional – querem nossas mortes! Lembram do que ocorreu com a travesti Natálya Mota? Para quem sofre de amnésia, eu revigoro a memória: no ano de 2016, na cidade de Maiquinique, na Bahia, Natálya Mota foi esfaqueada e foi à procura de atendimento médico num hospital. Ao chegar lá, ela ficou sangrando no chão, foi agredida e humilhada enquanto aguardava atendimento. Ela implorou por socorro e foi ignorada. A violência direcionada a nós não é exceção, tampouco algo raro. Quantas de nós já não escutou que não existe violência sexual contra travestis e transexuais porque nós adoramos foder? Quantas de nós já não sofreu assédio em espaços que aparentemente não ocorreriam, onde supostamente teríamos segurança? Não há segurança para nós no país que mais mata pessoas trans no mundo. Assim que eu fui expulsa de casa, eu sofri dois estupros, cada um num bairro diferente. No primeiro simplesmente me botaram pra dentro do carro e eu não tive muito o que fazer. No segundo, o estupro ocorreu na rua mesmo, num canto. Em ambos os casos eram mais de uma pessoa. Ouvi de um deles “cê gosta, né vadia?” enquanto esfregava a piroca na minha cara. Quantas de nós já não foram infectadas por boys heterossexuais? Eu fiquei com medo de que tivesse pego alguma doença sexualmente transmissível.

Por falar nisso, cabe lembrar de Brenda Lee, importante ativista, que criou a Casa de Apoio Brenda Lee (criada em 1984, oficialmente como Casa de Apoio Brenda Lee em 1988), que acolhia especialmente pessoas soropositivas e vítimas de violência. Brenda Lee era conhecida como a anjo da guarda das travestis. Isso não impediu, entretanto, que ela fosse brutalmente assassinada. Ela foi executada a tiros no dia 28 de maio de 1996, e depois foi jogada num terreno baldio.

Diante dessa dinâmica de violência que paira sobre nós, eu proponho algo: que nos armemos. Que cada uma de nós tenha uma arma em casa. Que aprendamos a nos defender pessoal e coletivamente. A criminalização da LBGTIfobia não adiantará nada, sejamos honestas. Assim como a existência da lei Maria da Penha não impede homens de agredirem mulheres, a criminalização da LGBTIfobia não impedirá que continuem nos agredindo e matando. Uma arma, sim, impedirá. Uma arma para cada uma de nós. Precisamos nos defender, garantir as nossas vidas.

Há um tempo atrás me deparei com o vídeo da Olivia Oliboni sobre como se armar e se defender de assédio, assalto, agressões. É um vídeo direcionado especificamente às travestis, sendo ela própria uma. Acho muito interessante a maneira como ela articula a feminilidade com a autodefesa (“aja como anjo’’ – ai, sério que você gostou?, diz ela encenando uma feição meiga, colocando a mão no cangote e abaixando um pouco a cabeça, – bora, me respeita, seu pau no cu!, diz ela em seguida, tirando uma faca que estava escondida no pescoço), deslocando assim a identidade feminina do campo da passividade, assumindo uma postura mais assertiva, de confronto.

A não-violência não vai nos garantir coisa alguma. A não-violência é a garantia da nossa passividade. Estamos no país que mais mata pessoas trans no mundo. Entendam, pessoas trans, não LGBTI. A sigla parece bonitinha e tal, mas somos dissidentes de gênero e sexuais, e é por isso que somos assassinadas. Temos o tempo inteiro que dar satisfação sobre as nossas vidas. Não seria nenhum absurdo dizer que pessoas trans não possuem vida privada, que nossas vidas são exclusivamente sociais.

Há algumas décadas se falava de “nome de guerra” pejorativamente ao se referir aos nomes que as travestis reivindicavam pra si, dando, assim, o primeiro passo no confronto com as instituições médico-jurídicas. Eu gosto da noção de “nome de guerra” porque estamos num contexto de extermínio – se é que em algum momento não estivemos em um. Vide a Operação Tarântula durante a ditadura militar –, e decidir pela resistência, pela afirmação de nossas vidas, é afirmar a guerra contra o poder patriarco-colonial capitalista, contra o Império sexual. A nossa resistência é anticolonial, antipatriarcal e anticapitalista.

Não há tolerância para intolerantes. Não sobreviveremos trocando ideia com aqueles e aquelas que almejam nossas mortes. Quem dialoga com seu opressor está barganhando sua sepultura, sua posição embaixo da terra – se o corpo for encontrado. Nós nos queremos vivas sobre a terra. 

Todo assassinato de pessoas trans, negras, indígenas, com diversidade funcional, deveria ser tratado como crime contra a humanidade. Afinal de contas, somos seres humanos, certo?

Quem não sabe a sua história está fadada a repeti-la.

Resistir não é suficiente. É preciso revidar!

Artigo elaborado por Inaê Diana Ashokasundari Shravya para o Resista!

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