Um iraniano no exílio

Nascida no Irã, mas tendo deixado esse país com dois anos de idade, no momento da Revolução Islâmica de 1979, Bani Khoshnoudi aponta com Luciérnagas um belíssimo primeiro longa-metragem cujo herói é um jovem iraniano que se exila em razão de sua homossexualidade.

No centro de seu último filme, está a questão do exílio: você, que nasceu no Irã, viveu nos Estados Unidos, em Paris e hoje, no México, você se sente uma exilada?

Quando você experimenta a separação de seu país natal ou quando testemunha de maneira direta a vida dos outros afetada por deslocamentos e desenraizamentos, você se torna exilada. Embora minha família tivesse deixado o Irã quando eu tinha dois anos, e não me lembro dos fatos e dos momentos de minha integração na sociedade americana, sempre tive uma sensibilidade ou uma preocupação com os efeitos do desenraizamento. Como em seguida mudei de país por minha própria vontade e decisão, já adulta, não sei se me sinto “exilada” hoje, ou cidadã do mundo, com um passado, um presente e seguramente um futuro fragmentado entre culturas, línguas e finalmente países diferentes.

Quarenta anos após a Revolução Islâmica, dez anos após os protestos mais fortes que sacudiram o país, o Irã atravessa hoje um novo período muito tenso, com uma repressão feroz da parte do poder. Nesse contexto, para os/as jovens iranianos/as, o exílio é um sonho, um objetivo, uma esperança?

Acho que isso depende verdadeiramente do contexto familiar e pessoal. Claro, quando enfrentamos a repressão no cotidiano, sonhamos em ir para outro lugar. E é claro que, para certas pessoas, isso se torna uma necessidade de sobrevivência. Mas penso que no Irã, somos muito ligados/as à nossa cultura, à língua, à singularidade de nossa história, ao que resta de nossos costumes e crenças (para além da religião), e isso torna a questão complexa. Penso que, mais que qualquer outra coisa, a juventude iraniana espera verdadeiras mudanças e uma transformação pacífica de nosso sistema político e social, e, portanto, não necessariamente fugir ou virar as costas ao nosso país. Por outro lado, sonhar com isso ou poder viajar como cidadãos/ãs de outros países do mundo, claro. Então, não devemos esquecer que, segundo as classes sociais, pessoas vivem mais ou menos bem no interior do país e isso tem um impacto sobre essa vontade. Muitos/as jovens iranianos/as gays, refugiados/as ou que pedem asilo que eu conheci quando fiz minhas pesquisas (sobretudo na Turquia e nos Estados Unidos) tinham fugido não apenas por causa do sistema político, mas sobretudo pelos preconceitos de pessoas ao seu redor, seus parentes ou outras pessoas que eles viam como ameaçadores.

Ramin, seu protagonista, deixou o Irã, claro que em razão da situação política geral, mas também e talvez sobretudo por causa de sua homossexualidade em um país onde ela é punida com a pena de morte – descobriremos aliás que ele foi severamente espancado, sem dúvida por causa disso. Como você se interessou por essa questão?

Em 2009, durante a campanha eleitoral no Irã, após o momento de revolta conhecido como “movimento verde”, eu estava em Teerã e filmava o que se passava na rua. Foi nesse momento que notei a presença, de forma agrupada, de dezenas de pessoas LGBT ou queers, principalmente homens jovens gays, mas também algumas lésbicas, que se encontravam na rua e que participavam dos eventos ou por vezes acompanhavam, em seu canto, entre eles, de maneira solidária. Eu tinha alguns amigos/as LGBT em Teerã e, claro, tinha ouvido falar de festas ou locais de pegação na cidade, mas era a primeira vez que eu via um grupo, mais ou menos organizado na rua, diante de todo mundo. Eles não reivindicavam nada enquanto queers, mas era evidente que existia uma ou várias comunidades, e isso me intrigava. Claro que, segundo a lei e os costumes, a homossexualidade é totalmente tabu e proibida, mas como qualquer coisa no Irã, as pessoas encontram uma maneira de existir, e essa resiliência me atraiu.

Em Luciérnagas, temos a sensação de que para Ramin, nesse México onde ele desembarcou por acaso, o desafio será aceitar a perda – de suas referências, idioma, família, de seu amante… – para se reconstruir e continuar a viver. Há uma dimensão muito nostálgica nesse personagem e no filme inteiro.

É exatamente isso. Eu queria falar do estado de espírito de um exilado, do meu país em particular, e toda a melancolia e nostalgia que trazemos sobre as costas quando tentamos nos estabelecer em outro lugar. É um filme principalmente sobre isso, sobre o amor perdido (de uma pessoa, de um país, de um passado) e sobre esse momento no presente quando aprendemos a amar de novo, e coisas novas. É muito mais isso do que um filme sobre a identidade homossexual ou a perda de identidade. Eu queria que o personagem fosse um gay de bem com sua identidade sexual, mas que ele tivesse outras preocupações emocionais. Era importante não ver sua sexualidade como um problema, mas como um ponto de partida, literalmente.

Você diria que, para Ramin, o exílio, apesar de todas as suas dores, é uma espécie de libertação, que isso lhe oferece a possibilidade de ser, enfim, ele próprio, de viver enfim sua homossexualidade em plena luz do dia, mesmo que a homofobia esteja igualmente presente no México?

Sim, está diretamente ligado a essa necessidade de viver plenamente sua identidade e não mais ter que se esconder ou ter medo. Isso poderia ser o caso de um personagem que tem preocupações políticas também, e eu queria mostrar que quando tentamos sobreviver em um mundo repressivo no qual nascemos, somos todos e todas iguais. É uma busca universal, a de liberdade de escolha e de expressão.

O que é muito bonito em Luciérnagas é ver Ramin criar uma nova família, com sua locatária, com Guillermo, seu colega também exilado, de vê-lo sendo solidário com outras pessoas excluídas, de ver sentimentos inesperados nascer nessas margens…

É nas margens que conseguimos nos comunicar mais, entre pessoas invisíveis que não têm nada além da luz que produzem entre elas.

O título, Lucioles [Lucíolas, vaga-lumes] em francês, é uma referência, acredito, a um texto de Pier Paolo Pasolini. Por que e o que ele significa?

O ensaio de Pasolini, “O desaparecimento dos vaga-lumes”, está comigo desde a origem do projeto. O cinema e os escritos de Pasolini representam um papel grande em minha formação enquanto artista e, quando li seu texto, profundamente pessimista, sentia seu desespero e via completamente os paralelos com nosso mundo de hoje. Felizmente, seu texto tinha sido revisitado por Georges Didi-Huberman em seu ensaio “Survivance des Lucioles” [“Sobrevivência dos vaga-lumes”, em tradução livre], que descreve de maneira bela, muito poética, essa necessidade e capacidade dos seres de resistir no nosso mundo atual, de produzir luz, mesmo intermitente, entre eles, e dessa maneira se lembrar entre eles que não estão sozinhos.

Seu filme tem chances de ser exibido no Irã?

Oficialmente, claro que não. Mais penso que o filme encontrará a maneira de chegar às pessoas. Sempre foi assim com a música, os livros e, claro, com o cinema censurado ou proibido há décadas.

Sinopse:

LUCIÉRNAGAS, de Bani Khoshnoudi, com Arash Marandi, Luis Alberti, Flor Edwarda Gurrola.

Ramin deixou tudo. Seu país, sua família, seu namorado. Iraniano e gay, era muito perigoso: a homossexualidade é passível de pena de morte, e Ramin já sofreu muito, como entenderemos em uma das cenas. Então ele desembarca em Vera Cruz, no México, por acaso, por engano. Ele queria ir para Turquia ou Grécia, mas ele pegou o navio errado. Ele não fala a língua, ele não conhece ninguém, ele tem que se virar… Primeiro longa-metragem de ficção de Bani Khoshnoudi, Luciérnagas consegue com delicadeza, mais lentamente, tocando o mais perto possível na pele e na intimidade, apreender as dúvidas e fragilidades de seus personagens. Mas também, e talvez acima de tudo, sua força vital, sua maneira quase insensível de se reconstruir se apoiando um ao outro, sua necessidade de que os outros sejam satisfeitos, apesar das feridas do passado, da dureza do presente. O desejo circula porque o desejo é a própria essência da vida. É uma libertação. Para Ramin, para Guillermo, para seus irmãos e irmãs de exílio, uma luz, a dos vaga-lumes do título…

Entrevista de Bani Khoshnoudi a Didier Roth-Bettoni publicada na revista digital Hétéroclite, n. 151, p. 8-10, jan. 2020. Disponível em: <http://www.heteroclite.org/wp-content/uploads/2020/01/H151web.pdf>.

Tradução: Luiz Morando

Entrevista com a diretora iraniana Bani Khoshnoudi, que lançou seu primeira longa-metragem, Luciérnagas. A história trata de um homem iraniano homossexual exilado na Cidade do México reconstruindo seus laços sociais.

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