Feminazi

Desde que as mulheres passaram a se pronunciar, os representantes do antigo regime sexual estão tão nervosos que agora são eles que começam a ficar sem palavras. Talvez, por isso, os senhores do patriarcado colonial cavaram em seu livro de história necropolítica à busca de insultos para nos lançar na cara e que, por um curioso acaso, eles escolheram aquela que sempre tiveram em mãos: nazistas!

Eles dizem que somos feminazis. Eles dizem que não podem mais subir no elevador sozinhos com uma mulher – que pena! – porque poderia ser uma “feminazi” que os acusasse de estupro. Eles dizem que não podem mais exercer livremente a arte da conquista viril. Eles dizem que as mulheres tomaram o poder nas universidades, que ganham prêmios literários e que são elas que, bêbadas de gender studies, governam o cinema e outras mídias. Invertendo as posições de hegemonia e subalternidade, os pais do tecnopatriarcado conferem um poder absoluto às minorias sexuais, mulheres, pessoas transgêneras, homossexuais, bichas, sapatonas e aos corpos de gênero não-binário; eles transferem fantasticamente para estes as violências totalitárias que cometeram e pertencem ainda a eles. Como é possível atribuir o adjetivo “nazi” precisamente aos corpos que o nazismo considerava infra-humanos e dispensáveis?

Nada justifica o uso do adjetivo “feminazi” para qualificar as reivindicações de reconhecimento de mulheres, pessoas trans, homossexuais ou pessoas de sexo não-binário enquanto sujeitos políticos soberanos. Não penso que valha a pena perder tempo em uma discussão teórica. O melhor e mais eficaz dos argumentos é apegar-se aos fatos.

Quando estuprarmos e desmembrarmos o mesmo número de homens como vocês fizeram com as mulheres, ou com homossexuais ou transexuais, simplesmente porque eles eram homens, ou porque seus corpos e suas práticas não correspondiam ao que entendemos por uma boa masculinidade heterossexual submissa, então poderemos ser chamadas feminazis. Quando decidirmos no Parlamento Europeu unicamente pelas mulheres, em um conselho de administração composto unicamente por mulheres, que um homem, pelo simples fato de ser homem dever ser menos bem remunerado que uma mulher não importa em qual emprego e não importa em quais circunstâncias, então vocês poderão nos chamar de feminazis. Quando você for impedido de ejacular fora de uma vagina sob pena de ser acusado de aborto e que todas as suas práticas sexuais fora do leito heterossexual forem consideradas grotescas ou patológicas, então vocês poderão nos chamar de feminazis. Quando suas pernas tremerem ao atravessar uma rua escura e você procurar com pavor as chaves de sua porta em seus bolsos para entrar em casa o mais rápido possível; quando uma silhueta feminina ao fundo de um beco te obrigar a voltar sobre seus passos e correr; quando as ruas de todas as cidades forem suas, então vocês poderão nos chamar de feminazis. Quando as escolas ensinarem apenas com livros de Gertrude Stein e Virginia Woolf e que James Joyce e Gustave Flaubert se tornarem escritores “masculinistas”; quando os museus de arte consagrarem uma semana anual à exploração de obras desconhecidas de “artistas masculinos” e quando os historiadores publicarem uma revista por década para falar de seu papel de “homens invisíveis na história”, então, nesse momento, vocês poderão nos chamar de feminazis.

Quando psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, especialistas em sexualidade humana, forem exclusivamente lésbicas radicais e elas se reunirem em assembleias fechadas para determinar a diferença entre a masculinidade normal e a patológica; quando, em vez de comentar Freud e Lacan, nós interpretarmos sua sexualidade masculina heterossexual, suas expectativas e seu prazer segundo as teorias de Valerie Solanas e Monique Wittig, então vocês poderão nos chamar de feminazis. Quando suas mães, tias, primas, irmãs, amigas e esposas tiverem sempre alguma coisa a dizer sobre seu modo de se vestir, se pentear, falar, ser feio ou gordo, bonito ou magro; quando lhe disserem isso constantemente, em voz alta, diante de todo mundo, e fingirem te agradar com essa forma de controle; quando chamarmos essa forma de linguagem de “galanteria feminina”, então vocês poderão nos chamar de feminazis. Quando sairmos em grupo para pagarmos um trabalhador do sexo precarizado que encontrarmos seminu no meio-fio das ruas da periferia das cidades, um homem jovem na maior parte das vezes migrante, a quem não se reconhecerá o direito ao trabalho, que será considerado criminoso ou que uma patrulha composta quase unicamente por mulheres tiver o direito de estuprar e assediar, aí sim, nesse momento, quando pagarmos cinco euros a um trabalhador do sexo para uma pequena chupada clitoridiana em sua viatura, então vocês poderão nos chamar de feminazis.

E mesmo se, um dia, nós subjugarmos vocês, exotizarmos, estuprarmos e matarmos vocês, se concluirmos uma tarefa histórica de exterminação, de expropriação e de submissão comparável à de vocês, nós seremos então apenas como vocês. Então, sim, nesse momento, poderemos partilhar com vocês o adjetivo “nazi”. Mas para estar à altura de suas técnicas políticas patriarcais, teremos necessidade de um trabalho coletivo monumental, e de operar um ódio organizado e uma industrialização da vingança que, sinceramente, não imagino nem desejo. Para o momento, e digo isso com a objetividade que teria um cientista ao observar a diferença entre o número de grãos de areia no deserto do Saara e o grão de areia que entrou em um olho, ainda resta uma margem. Muita, muita margem.

Crônica de Paul B. Preciado publicada no jornal Libération em 29 de novembro de 2019. Disponível em: <https://www.liberation.fr/debats/2019/11/29/feminazies_1766375>.

Tradução: Luiz Morando.

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