Uma lição de humanismo com Adrian de la Vega, youtuber trans

Atento à falta de visibilidade e de informações sobre e à disposição de pessoas transgêneras, Adrian de la Vega tomou seu destino (e o de muitos outros) pela mão, trazendo para o YouTube temas muito evitados.

Em 2018, a Associação de Jornalistas Lésbicas, Gays, Bi e Trans (AJL) concedeu a Adrian de la Vega, jovem trans, seu Out d’Or, consagrando-o personalidade LGBT de 2017. Quanto a nós, ficamos apaixonados por esse rapaz de 22 anos que decidiu fazer das redes sociais a ferramenta ideal para falar sobre a vivência e a condição de pessoas transgêneras. Assim como seus vídeos, em que o altruísmo, a pedagogia e o charme de Adrian oferecem uma visibilidade e uma ajuda preciosa a todas as pessoas direta ou indiretamente afetadas pela transidentidade. Ou seja, para todo mundo. Reunião.

Como você teve a ideia de fazer vídeos sobre sua transidentidade e a transidentidade em geral?

Adolescente, quando comecei a me interessar por esse tema, eu me dei conta rapidamente de que havia muitas informações disponíveis em inglês, mas fiquei surpreso com a falta de publicações francófonas. Então decidi começar. Para ser mais certo: eu não era o único francês a abordar esse tema, mas o único a criar conteúdo educativo. Meus vídeos não são apenas uma narrativa sobre mim; eles abordam também temas gerais. Comecei com fotos no Instagram acompanhadas de textos, respondia igualmente as questões que me enviavam, e depois comecei no YouTube. Para a minha geração, essa plataforma é uma ferramenta importante, fácil de usar, gratuita, onde você coloca o que quiser.

Sua adolescência foi complicada?

Na verdade, não. Não tenho lembranças de pavor adolescente; eu era bom aluno, mesmo que não escolhesse a facilidade por ser interno em um colégio católico onde o nível era excelente. Não quero dizer que isso foi um período horrível de minha vida, sou uma pessoa bastante positiva, consigo segmentar minha vida e penso que minha memória ‘zapeou’ muitas coisas como uma forma de proteção. Percebi há pouco tempo que, quando estava no meu último ano, fui colocado no setor disciplinar do internato, onde você tem um supervisor para dez crianças, onde colocam aqueles que são difíceis de gerenciar, violentos, que tentam fugir. A direção presumia que eu era queer e agiu assim para proteger as outras garotas.

Foi difícil garantir sua transidentidade?

Digamos que eu não tivesse realmente palavras para me designar, e isso até o momento em que comecei a tomar hormônios. Mas mesmo antes de me assumir, nunca me consideraram realmente uma garota e sempre assumi quem eu era. As pessoas interagiam comigo como com um rapaz, era natural e inconsciente de certa maneira. Tenho a impressão de que comecei a respeitar minha identidade perto dos 18 anos, e hoje tenho 22; é uma aceitação progressiva que, como toda identidade, se constrói. Tenho dificuldade de dar datas importantes: sei que comecei minhas pesquisas sobre o tema na adolescência, havia poucas coisas disponíveis. Desde o início, decidi ficar distante e, para ser cauteloso com as publicações psiquiátricas, li nos fóruns de autoajuda relatórios frequentemente complicados de pessoas trans com seus médicos e rapidamente compreendi que isso seria complicado antes da minha maioridade. Então esperei até os 18 anos, não perguntei aos meus pais, preferi não ter que lidar com a possível violência deles, estava fora de questão que alguém bloqueasse meu caminho.

Foi complicado com seus pais?

Um pouco no início: não caímos na violência extrema, mas na incompreensão. Eles tiveram problemas para lidar com eles mesmos antes de tudo, pois, enquanto pai ou mãe, você tende a se questionar. Eu era muito firme, não nos víamos há um tempo, eu lhes disse: “Há este site onde vocês podem encontrar todas as informações necessárias se quiserem se informar, mas não para me dissuadir”, e isso funcionou muito bem. Meu pai fez seu caminho e, desde então, tudo correu muito bem. Eles colocaram as coisas em perspectiva e compreenderam que há coisas mais sérias na vida.

O mais surpreendente é a sua maturidade na questão.

Mais ou menos aos 12 anos, eu me dei uma missão: queria que minha transição transcorresse numa boa, não tinha vontade de assumir a liderança. Como eu falava inglês, tive acesso a depoimentos de pessoas trans da década de 1980 aos anos 2000, estava ansioso com essas narrativas, eu as lia como se lesse romances, isso me enriqueceu demais, integrei todas as experiências dessas pessoas, todas as perguntas que poderíamos fazer ou nos colocar. Foi a vivência de pessoas trans que me permitiu adquirir esse conhecimento do tema.

Estamos falando da mesma maneira de mulheres e homens trans?

São acima de tudo duas pessoas trans, é sobretudo pela visão que as pessoas têm delas que se faz a distinção. Quando são mulheres, não falamos delas da mesma maneira, porque a feminilidade em nossa sociedade é sempre menos bem considerada que a masculinidade. Quando você é um rapaz trans, de certa maneira, é mais simples do que para uma garota porque ser homem significa pertencer ao sexo forte nessa forma de compreensão. As mulheres trans sofrem também, mais do que a transfobia, com o sexismo e a misoginia. Uma coisa impressionante, e vemos bem isso nos documentários dedicados a nós ou na maneira como somos percebidos, é o modo constante de nos infantilizar. Isso geralmente é inconsciente, mas somos descritos como eternos adolescentes, e isso pode acarretar fantasmas um pouco bizarros. Aos 19 anos, quando tinha a aparência de 13 anos, eu me vi em situações frequentemente embaraçosas. A relação que o mundo exterior mantém conosco é muito complexa.

Nos vídeos, você é calmo, didático, nunca toma a decisão, frequentemente engraçado. Você refletiu muito antes de se lançar?

É um clássico: para ser didático, não é preciso agredir as pessoas. A vantagem do vídeo é que isso parece espontâneo, mas não precisa ser. Falar diante de uma câmera não é a mesma coisa que falar a alguém na vida real. Se optei por torná-lo simples e concreto, é porque a atenção das pessoas é muito breve, é preciso ir direto ao ponto, as pessoas não devem se sentir agredidas se você quer ser escutado. Fico calmo no YouTube, mas não é forçosamente o caso na vida real ou posso ficar chateado e subir o tom. Tento em geral não me chatear ou não demonstrar isso, pois as pessoas se aproveitam disso para me atacar: “Você sabe: se quiser que a gente te escute, você tem que ser irretocável”. Então tento ser irretocável, mesmo que obviamente não seja o caso. Eu gostaria que as coisas fossem um pouco mais simples e que compreendessem que sim, há pessoas trans que se chateiam, que têm razão de ser assim face à violência que elas sofrem, que é preciso compreender sua raiva e aceitá-la para mudar isso. Quando me fazem uma pergunta inadequada, do tipo que não se faria a uma pessoa cis – hetero ou homo –, eu não sou delicado. Não vou responder: “Espere, fiz um vídeo explicativo sobre o tema, vou mostrá-lo a você.” Acho que é preciso às vezes pressionar as pessoas, apertá-las um pouco, mas na vida real, não no vídeo, isso seria contraprodutivo. E depois, as pessoas que assistem a meus vídeos não se deparam com isso por acaso, devido à maneira como o YouTube reduz a visibilidade LGBT.

Você diria que seu canal no YouTube te ajudou em sua transição?

Quando comecei os vídeos, eu estava totalmente conectado comigo mesmo, depois disso, sou alguém honesto, não vou afirmar que faço isso apenas por altruísmo, tenho um benefício em troca. Fazer vídeos é uma verdadeira paixão, dou gargalhadas de minhas próprias piadas. Sei que isso ajuda as pessoas, que isso faz bem aos outros. As pessoas me dizem isso e fico muito orgulhoso. Eu não tenho 1% dos meios que os canais de televisão e tenho a impressão de fazer mais pela causa do que todos esses documentários malucos.

Você ganha dinheiro com o quê?

Sou estudante, tenho pequenos empregos, meus pais me ajudam um pouco, caso contrário, não conseguiria, devido aos preços, morar em Paris, mas tudo é financiado com meu dinheiro pessoal.

Não há patrocinadores ou doadores?

Tenho uma marca de roupas íntimas que me dá roupas, recebo também pequenos presentes, mas concretamente ninguém me ajuda financeiramente, e, então, admito que realmente não sei como fazemos isso. Entretanto, a questão do dinheiro é importante quando você é um youtuber, os algoritmos da plataforma não são inocentes.

Você recebe comentários negativos?

Sim, obviamente, mas minha estratégia é não respondê-los, é perda de tempo. Essa atitude me preservou relativamente, mesmo que eu sofra alguns ataques de robôs vindos de certos fóruns ou então de hackers. Não respondo, bloqueio, marco e exponho isso aos meus assinantes, peço-lhes para não dar sequência aos comentários negativos, pois quanto mais você faz isso, mais prazer eles têm. Foco minha energia nas coisas que valem a pena.

Você recebe muitas mensagens?

Cerca de 30 por dia e respondo a cada uma, exceto quando as pessoas me dizem “não compreendo tal termo”. Nesse caso, envio-lhes um link com a definição. São, acima de tudo, pessoas trans em perigo; tenho à disposição delas uma lista de associações, de órgãos de urgência. Várias vezes, eu mesmo acolhi pessoas que eu não conhecia no meu barco. Foi meu compromisso básico. Antes de fazer vídeos, eu desejava acima de tudo ajudar pessoas trans com dificuldade, eu sempre fazia isso, mas não falo necessariamente sobre isso. Recebo também muitas mensagens de encorajamento de pessoas trans, mas também de pessoas que não se definem como trans, que me escrevem “você me abriu os olhos para um mundo novo” e que três meses depois me anunciam que iniciaram sua transição. Há algo de especial com o vídeo: as pessoas se dirigem a você como se te conhecessem e te fazem confidências, te contam toda sua vida. Pessoas de todas as idades e condição social confiam em um estranho, e eu compreendo o sofrimento em que se encontram. Também faço muito a intermediação entre elas e as associações locais, pois estas podem ser assustadoras a princípio.

O que é fascinante é que seu ego não inflou como o de outros grandes youtubers.

Mas isso é tão fugaz! E depois, os vídeos são um componente de meus projetos, uma parte ínfima do que faço. O YouTube é a parte glamorosa, digamos, e não me subiu à cabeça porque em dois anos, se isso ainda for encontrado, todo mundo já terá me esquecido. Prefiro me vincular a projetos mais ambiciosos, como trabalhar nas leis para facilitar a mudança de nome, por exemplo, mesmo que eu nunca deprecie a importância das redes sociais. O que é estranho é que quando comecei os vídeos, algumas associações desdenharam bastante de mim. Porque eu era jovem e utilizava as redes sociais, diziam que eu fazia isso unicamente para alimentar meu ego. Eu estou convencido de que podemos espalhar uma mensagem de ativismo nas redes sociais e tocar grandemente as pessoas, notadamente os jovens que têm necessidade crucial de informações. Felizmente, as coisas mudaram e frequentemente as associações me perguntam se posso fazer um vídeo para elas, o que sempre faço com muito prazer. Não questiono seu profissionalismo, nem sua experiência na questão, nem suas ações concretas, mas frequentemente elas provocam um pouco de medo nas pessoas em questão, que não se atrevem a ir lá. Sei que isso é tolo, mas às vezes é preciso colocar um pouco de brilho para que as pessoas venham te ver e aprendam a te levar a sério.

Entrevista de Adrian de la Vega a Patrick Thévenin, publicada no portal i-D Vice, em 18 de janeiro de 2018. Disponível em: <https://i-d.vice.com/fr/article/xw4kg3/une-lecon-dhumanisme-avec-adrian-de-la-vega-youtubeur-trans>.

Tradução: Luiz Morando.

Nesta entrevista, Adrian de la Vega fala de seu processo de transição e de seu trabalho em um canal no YouTube.

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