Traduzindo

Traduzir é guiar, liderar, transduzir, conduzir para além das fronteiras; nunca uma tarefa ingênua, desprovida de alguma perspectiva. A tradução traz, em alguma medida, ao familiar, assim como pode servir a interesses de dominação política. Nesse ponto, os jesuítas souberam utilizar a tradução como forma de condução das populações nativas deste território hoje designado Brasil, assim como das populações nativas da Ásia (o taoísmo/daoísmo, o confucionismo, o hinduísmo, vieram a nós via jesuítas). Lembremos de Matteo Ricci, jesuíta italiano que a 7 de agosto de 1582 chega à colônia portuguesa de Macau com a finalidade de estudar a língua chinesa para poder evangelizar no país. Matteo chegou a se aprofundar no estudo do confucionismo; traduziu quatro obras do cânone confuciano para os europeus; mudou suas vestes, que antes eram de um budista – o que poderia levar o imperador da dinastia Ming a achar que o catolicismo era alguma variante do budismo –, e passou a usar vestes de um letrado confuciano; observou e apoiou ritos como o culto dos antepassados. Segundo ele, os chineses adoravam o deus cristão há muito tempo sem saberem. Tal afirmação se deu a partir de noções como Tiān ou Shàngdì (上帝, literalmente o “Imperador de Cima“) ou ainda de Tīanzhǔ (天主, literalmente o “Senhor do Céu“). Traduções, traduções, traduções.

De acordo com o dicionário Priberam de língua portuguesa, Traduzir tem como significado:

Verbo transitivo

1. Fazer passar (uma obra) de uma língua para outra; trasladar, verter.

2. Exprimir, interpretar.

Verbo pronominal

3. Manifestar-se

A tradução pode ser utilizada como tecnologia de conversão e de legitimação de dominação e soberania de um determinado grupo social sobre outros. Quando palavras são traduzidas simplesmente, quando se esquece que se trata de uma tradução, ou seja, não se trata bem de uma compreensão, mas de submissão, de assimilação de determinado contexto a uma compreensão dominante, a dominação se faz passar por natural. Isso ocorreu quando jesuítas traduziam palavras de populações nativas, conduzindo-as a uma perspectiva cristã como centro, um monismo propriamente dito, donde surgem noções como ”alma”, ”deus”, ”espírito”, ”sagrado”, em diversas línguas de populações nativas dos territórios invadidos durante as ”Grandes Invasões”[i] – alguns revisionistas da história chamam de “Grandes navegações”. Pensemos na designação que os nativos náuatle, conhecidos historicamente como aztecas – da narrativa dominante decorrente das grandes invasões –, davam ao atualmente designado rio Nazas, um rio no interior do norte do México que flui através dos Estados de Durango e Coahuila. O nome Nazas é ele mesmo uma designação dos invasores espanhóis, cuja atribuição se deu após os invasores se depararem com náuatles à beira desse rio, utilizando algo como cestas, as quais os invasores chamavam ‘nasa’ em seu território. O nome que os/as náuatle davam ao rio era Tlahualilo, pelo que há registrado, em decorrência de suas fortes correntes. A tradução que foi dada pelos espanhóis para Tlahualilo foi “demônio”. Conseguem compreender o ponto a que pretendo  chegar? Os espanhóis eram católicos. Náuatles pescavam nesse rio, no rio Tlahualilo. Pode parecer um tanto bobo, mas o que implica traduzir Tlahualilo como “demônio” é que se trata em alguma medida de dizer que os/as habitantes daquele território, os/as náuatle, tiravam seu sustento, se alimentavam com alimentos fornecidos pelo demônio. Daí se legitima a catequização, a cristianização desses/as nativos/as.

O mesmo ocorre com ahiag̃/anhangá, entidades presentes nas cosmopercepções tupi e mawé, que são retratados como um dos diversos demônios seguidores de Yurupari/Jurupari[ii]. De que mal tratam exatamente tupis e mawés? A que mal corresponderia ahiag̃/anhangá, se é que corresponde a algum? A amnésia também é uma ferramenta importante no processo de domesticação, de assimilação, pois auxilia a consolidação de determinadas textualidades que constituem a ficcionalidade dos nossos corpos.

Uma coisa interessante de se pontuar sobre o catolicismo, já que este esteve vinculado ao imperialismo ibérico, é que o termo “católico” deriva do grego καθολικός (katholikos), que significa “universal”, “geral” ou “referente à totalidade”[iii]. Essa autodesignação de universal se legitima no processo de tradução, o qual podemos compreender como um processo de condução dos referenciais, se considerarmos a designação de “deuses” como atributo extraterrestre de entidades. Para não causar uma confusão – ou talvez para causá-la –, ao dizer “entidades” me refiro a algo que é de alguma maneira determinado. No caso, o que determina a entidade/ente em questão é a atribuição de “deus”, a qual lhe distancia da realidade telúrica, deslocando-a para o céu, para o plano imaterial, metafísico. O que ocorre aí é que, ao passo que para as entidades/entes doutras religiões, o termo “deus’ se refere a uma qualidade, a uma atribuição que lhe confere uma posição hierárquica, para o cristianismo, o termo “deus” é o nome da sua entidade/ente principal, que criou tudo. É como se as demais entidades/entes se relacionassem com a entidade cristã, onde ocupariam uma posição – a de “deus” ou “deusa” – que, para a entidade cristã, não se trata de uma posição, mas da sua própria constituição. Veja, não quero defender entidade alguma, muito pelo contrário, assumo declaradamente uma posição antiteológica. O que me interessa é analisar como se distribuem as relações de poder socialmente.

Não pretendo de forma alguma defender uma pureza da linguagem, um lugar onde se pode compreender de maneira plena. Talvez isso fosse possível se, nos utilizando do conceito de “revolução permanente” proudhoniana, considerássemos uma descolonização permanente.

Uma tradução que não leve em conta os processos históricos de uma língua, logo, suas condições de possibilidade, sua materialidade, é conivente com o processo mesmo de dominação que há séculos vem consolidando o extermínio de populações nativas de territórios invadidos. Traduzir é transportar de um contexto a outro, assim como uma migração, e, assim como ocorre numa migração, os elementos característicos do grupo migrante se perdem forçadamente ou são estigmatizados pela dinâmica colonialista. A tradução não se reduz ao que tá escrito num papel. Traduzimos o tempo inteiro o mundo no qual estamos inseridas/os. A dificuldade mesma de tentar compor um texto de maneira não-binária decorre daí. A linguagem age sobre nós e nós agimos sobre ela, não de maneira dialética, mas dinâmica, ou seja, como conflito de forças. Cabe pensar, também, em como a linguagem que utilizamos simultaneamente nos dá voz e nos silencia.

Texto de Inaê Diana Ashokasundari Shravya.

Inaê Diana desenvolve uma breve reflexão sobre o ato de traduzir e suas implicações sobre a subordinação de outros povos/culturas.

[i] Ao falar de invasão, não quero de modo algum afirmar algo como ”propriedade privada dos/as nativos/as” – libertarianistas e liberais, aqui não é lugar pra vocês https://lh5.googleusercontent.com/CUgG81xQk9CmLdsVUOAw_QUZhcLk7V3fJXF6BWqCiqW2YNPS0Jhgt5eF6UyaA82IUtcZEMbO8f6Zp4D4rUvCoPP7d25A4FHmObSivfDp0oozrFw9YML5ueUY4dM9Rp8dMO6YZIjy) –, e sim evidenciar o processo de extermínio que vem ocorrendo desde o momento em que o primeiro colonizador saiu de seu território em prol da expansão territorial e de exploração de outros territórios.

[ii] Pensar a diferenciação que se faz ao escrever Yurupari/Jurupari com maiúsculo também é interessante. Não se trata de uma análise imaterial da linguagem, da gramática, mas de seus efeitos materiais, de como uma letra maiúscula atribui um caráter de excepcionalidade, de diferença, ao passo que um nome escrito com letra minúscula indicaria algo comum, desprovido de uma hierarquização, simétrico.

[iii] RAY, Steve. Ex-protestante responde: O que significa o termo Católico?. In: Biblia Catolica News, 2004.

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