Tornar-se mais queer

Neste momento, enquanto você lê, as árvores conversam entre si através de linhas telefônicas feitas de cogumelos. Insetos enviam e recebem mensagens invisíveis de cheiro levadas pela brisa. Pequenos mamíferos da floresta escutam os pássaros cantando, cujos gritos de alarme indicam perigo e cujos alegres trinados indicam segurança.

Faça, por um momento, uma pausa para imaginar isto.

Agora, imagine que a floresta está em chamas – porque ela está.

Enquanto celebramos o décimo aniversário de Parole de Queer, devemos perceber, simultaneamente, que se passaram mais dez anos durante os quais não fizemos o que deveríamos ter feito para evitar a mudança climática provocada pelos seres humanos. Os incêndios florestais seguem devastando, as ilhas desaparecendo, e tudo se deve a uma guerra de mais de 200 anos contra o queer.

Por queer entendo muito mais que LGBTQIA+. Refiro-me a cada corpo, seja humano ou não humano, considerado inferior por ser diferente da suposta norma humana: homem, masculino, heterossexual e sem deficiência. É importante compreender como os diferentes aspectos dessa perspectiva eurocêntrica, androcêntrica e antropocêntrica se combinam.

Durante quase 20 anos, o Santuário Vine organizou oficinas sobre “Queerificar a libertação animal” nas quais os/as participantes tentam responder coletivamente perguntas como: onde especismo e homofobia se sobrepõem? Quais características compartilham? Quais são suas raízes comuns? Um apoia, compõe ou amplifica o outro de alguma forma? Como os animais são usados para fazer com que a homossexualidade pareça antinatural? Como isso prejudica pessoas LGBTQIA+? Como isso prejudica os animais? Como os animais são usados na construção social dos estereótipos de gênero? Como esses estereótipos prejudicam pessoas LGBTQIA+? Como esses estereótipos prejudicam animais? Pelo seu uso como avatares de feminilidade e masculinidade?

Você pode achar útil tentar resolver essas questões você mesma/o ou em conversas com suas/seus companheiras/os. Deixe-me focar em apenas dois fatores que surgiram de nossas conversas e operam conjuntamente para gerar a crise climática: o reprocentrismo e a masculinidade tóxica.

A masculinidade “tóxica”, que nos prejudica a todas/os, define a hombridade como o poder para controlar às/aos demais sem mostrar debilidade. Essa forma de pensar categoriza determinadas características e ocupações humanas, como as emoções ou o cuidado como algo feminino e, portanto, inferior. Nesse regime de gênero, meninos e homens se esforçam para que sejam vistos como masculinos. Abusos de animais como caça, rinhas de galos ou touradas podem ser usados para demonstrar masculinidade. Essa forma de ser masculino também leva diretamente à violência contra as mulheres, assim como a comportamentos homofóbicos e transfóbicos.

O “reprocentrismo” mede o valor de cada pessoa por sua capacidade para produzir filhas/os e/ou lucro. Tanto humanos como não humanos estão sujeitos à reprodução involuntária. Para os não humanos, trata-se de reprodução forçada em granjas, zoológicos, laboratórios e outros lugares de exploração. Para os humanos, a reprodução forçada ocorre às vezes, especialmente durante períodos de guerra, mas os métodos mais comuns de reprodução imposta são as normas sociais, incluída a heterossexualidade obrigatória.

Como eles agem entre si para gerar a mudança climática? O capitalismo tardio, que requer que cada vez mais e mais pessoas comprem mais e mais coisas, levou o reprocentrismo patriarcal a um novo milênio. Enquanto isso, pesquisas mostram que homens que adotam noções tóxicas de masculinidade têm menos probabilidade de levar a cabo comportamentos “verdes”, como tornar-se veganos ou usar bolsas de compra renováveis.

Em resposta a isso, acredito que temos que nos tornar mais queer, não só resistindo às normas do reprocentrismo e da masculinidade tóxica, mas também encontrando novas formas de sentir e expressar solidariedade com aquelas/es cujos cérebros, corpos e formas de se comunicar são diferentes das nossas. Sim, animais não humanos pensam, se comunicam, formam famílias e comunidades de maneira diferente da nossa. Vamos parar de ver essas diferenças como sinais de inferioridade e, em vez disso, abracemos a biodiversidade que, literalmente, torna a vida possível. Reconheçamos que os animais poderiam nos ensinar coisas que necessitamos aprender desesperadamente.

O Santuário Vine realiza um programa de educação humanitária no qual crianças levantam sérias questões dentro de nossa comunidade multiespécie, onde pessoas LGBTQIA+ cuidam de mais de 600 animais não humanos. Aqui, crianças veem que um/a alpaca pode ser amiga/o de um/a porco/a e aprendem que é possível e prazeroso ampliar o respeito e o cuidado entre as diferenças. Veem galos resgatados de rinhas se dando bem entre si e aprendem que é possível ser mais pacífico do que o educaram para ser. Veem um boi gigante tendo cuidado de não pisar um passarinho, enquanto se entregam a um banquete de legumes doados e aprendem que a verdadeira força inclui generosidade e contenção.

Lembro que, enquanto você lê isto, cogumelos e árvores estão cooperando para tornar possível que você respire. Pássaros e abelhas polinizam as plantas das quais toda a vida depende. Se você consegue relacionar-se melhor com elas/es, estará menos solitário e simultaneamente mais queer.

Pattrice Jones é ativista, escritora e educadora ecofeminista. Cofundadora do Santuário Vine (fundado por pessoas queer).

Este artigo foi publicado no novo Parole de Queer-Antiespecista em dezembro de 2019. Disponível em: https://bit.ly/2Ss3rkj.

Tradução: Luiz Morando.

Conheça uma forma diferenciada de pensar o queer e um termo mais recente que vem para ficar: o reprocentrismo.

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