A heterossexualidade acabou?

“Sair da heterossexualidade”: o programa da segunda edição do festival Des sexes et des femmes, em setembro passado em Paris, podia dificilmente passar despercebido. De fato, a polêmica não se fez esperar! Os conservadores imediatamente detiveram o espectro da dissidência, da histeria e do colapso da civilização, de maneira mais ou menos caricatural (a pergunta em Valeurs actuelles, o ultraje em Marianne). E no entanto… A própria Virginie Despantes declarou ao Le Monde, em 2017: “Sair da heterossexualidade foi um enorme alívio.”

Se o ícone do feminismo francês deu esse passo, por que não você, por que não eu? A ideia de ficar sem homens está ganhando terreno: na caneta de Juliet Drouar para o Mediapart, nas páginas do Globe and Mail, na vida privada de militantes. Algumas mulheres renunciam completamente ao sexo. Elas expressam seu aborrecimento na revista Slate, no The Guardian, no ensaio “Les corps abstinents”,de Emmanuelle Richard (Flammarion, 288p.).

Essa midiatização é ainda mais notável porque ocorre durante a aproximação do dia de São Valentim [Dia dos Namorados no hemisfério norte] com códigos dóceis e embaraçosos, que se baseiam em um folclore romântico manifestamente preso aos anos 1950 (um senhor se divide entre um presente calórico ou de cor vermelha, uma senhora coloca o pernil de carneiro em sua grelha made in China).

Os modelos lutam para se adaptar aos avanços feministas

A observação é amarga: movimento #metoo ou não, tanto o modelo amoroso quanto o modelo sexual lutam por se adaptar aos avanços feministas. A pensadora Peggy Sastre publicou essa crítica em 2018, em um ensaio com título lapidar: Como o amor envenena as mulheres (edições Anne Carrière). Alguns meses mais tarde, a filósofa Manon Garcia colocava um ponto-final em sua obra Não se nasce submissa, torna-se (Editora Flammarion).

As apostas são altas e abalam consensos até então inamovíveis. Resumimos: 1) o lesbianismo político e o feminismo dissidente, que encarnavam o contraste absoluto, ganham progressivamente respeitabilidade; 2) a orientação sexual, considerada impossível de desconstruir, está agora sujeita a reconstruções.

O que aconteceu nos últimos cinco anos que favoreceu essa reviravolta? Bem, não apenas os estudos de gênero conquistaram uma base sólida na mídia (impossível de compreender o movimento #metoo sem dispor dessa grade de leitura), mas esse desenvolvimento foi produzido precisamente quando as margens começaram a interrogar as normas (a masculinidade, a branquitude, a complementaridade homem-mulher).

A heterossexualidade, uma simples opção

Uma vez percebida como natural, a heterossexualidade se vê referida como uma simples opção. Essas teses são sustentadas pela história e a antropologia (como a Antiguidade grega a demonstrou, pode-se construir uma civilização brilhante sem norma heterossexual), pela correlação do biológico e do social (pretender que é necessário se casar e viver juntos para que um espermatozoide seja absorvido por um óvulo seria absurdo; portanto, a espécie não precisa de um sistema heterossexual) e por uma crítica ao “treinamento” heterossexual (se a maioria entre nós é atraída pelo sexo “oposto” é porque dos contos de fadas aos filmes hollywoodianos, dos clubes esportivos aos lares de idosos, dos pais aos companheiros, tudo nos envolve implicitamente).

Então, vamos às acusações: como culpamos o casal homem-mulher? As acusações são discutidas com grande clareza no podcast “Adieu, monde hétéro”, que dá a palavra às dissidentes. Recomendo especialmente os testemunhos de Sarah e Roxane. A primeira evoca uma heterossexualidade da “michetagem” constante, em que cada gesto de ternura é monetarizado por relações sexuais nem sempre desejadas. O casal existe apenas para fornecer gratificação sexual aos homens. A segunda descreve uma tripla opressão econômica, doméstica e sexual.

Desenha-se, então, o retrato vazio de homens não necessariamente mesquinhos, mas egoístas e imaturos (ironicamente, esses argumentos se sobrepõem aos dos homens do movimento MGTOW – men going their own way, que erguem a mesma observação de uma incompatibilidade fundamental… mas contra eles).

Dormir com o inimigo

A coabitação homem-mulher é apresentada como intrinsecamente violenta e contraprodutiva. Pois dormir com o dominante é dormir com o inimigo, enquanto fortalece seu poder. Para citar Juliet Drouar, ativista que fundou o famoso festival Des sexes et des femmes: “o casal heterossexual (…) coloca uma pessoa dominante cara a cara e entre quatro paredes com uma pessoa estruturalmente dominada por ‘ele’. Como podemos monitorar, explorar e punir melhor? A heterossexualidade propõe basicamente que o dominante possa, longe do olhar do outro, sempre monitorar a dominada, mesmo quando ela dorme.” O jogo está feito: o casal coloca as mulheres em perigo (infelizmente, a realidade estatística de estupros e feminicídios valida essa opinião).

De maneira menos dramática, algumas dissidentes descrevem seu cansaço diante dos homens que precisam ser “educados”: combater as tarefas domésticas, explicar o conceito de carga mental, incluir as escolhas contraceptivas, alertar sobre as dinâmicas de poder etc. De fato, converter um homem no início de uma transição feminista é exaustivo (sobretudo quando já se está fazendo essas lutas há longo tempo). Diante do risco de esgotamento militante, algumas preferem abandonar o navio.

Enfim, as dissidentes falam sobre uma sexualidade infligida segundo modalidades estritamente masculinas: as relações sexuais são consideradas como uma dívida, mesmo quando a repetição da penetração vaginal mata o desejo (é exatamente o que descreve a revista Time dessa semana). Não apenas essa sexualidade falocêntrica é ineficaz e humilhante, mas os companheiros ou maridos são descritos como carentes de atratividade, curiosidade e sensualidade.

Essas questões produzem a sensação de ‘saco cheio’. Legítima. E uma angústia: como ainda ser heterosexual hoje? Nas suas emanações mais condescendentes, a dissidência chega a reduzir a mulher hetero a uma vítima eterna, até uma traidora. Quanto aos homens, eles seriam irrecuperáveis (um beijo para aqueles que, durante décadas, se questionaram).

Cooperação ao invés de oposição

Bom. Enquanto hetero intocável, e com toda a minha simpatia pelas dissidentes, minha resposta é simples: se a heterossexualidade balcaniza as mulheres, ela balcaniza também os homens. Se o amor ameaça o feminismo, ele abala profundamente o machismo. Se o casal é um espaço onde a dominação masculina pode ser exercida, ele é igualmente um espaço onde a emancipação feminina pode fazer milagres – um espaço onde as mulheres observam os homens dormir.

Quando permanecemos heterossexuais, podemos nos desviar dos homens um a um, longe das solidariedades masculinas. Podemos trabalhar esses problemas em cooperação ao invés de oposição. Podemos conquistar aliados ao invés de encorajar o ressentimento mútuo.

Os períodos de desespero militante – e, eventualmente, distanciamento – são inevitáveis. Mas abandonar a própria ideia de viver-junto constitui, em si, uma derrota. Não se faz a revolução batendo a porta. Não nos engajamos desertando. Não consideramos perdida uma batalha não iniciada. E, especialmente, não mudamos o cotidiano sem nos ancorar intimamente nele.

Daí a afirmação necessária de um hetero-otimismo: o casal é exatamente o que fazemos dele. A heterossexualidade nos desagrada? Ela nem sempre é fácil, concordamos nisso. Mas deixá-la será sempre menos eficaz do que metamorfoseá-la por dentro. Começando – por que não? – pela reinvenção dos códigos de São Valentim. Na próxima semana, é o cavalheiro quem usará a lingerie.

Artigo de Maïa Mazaurette publicado no jornal Le Monde em 9 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://bit.ly/2uwQspL.

Tradução: Luiz Morando.

A colunista Maïa Mazaurette escreve um pequeno artigo sobre um suposto fim da heterossexualidade, ameaçada pelo temor ao feminismo.

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