“Não estamos questionando a bicha: a heterossexualidade obrigatória”

Sejo Carrascosa começou sua militância em grupos libertários e antiautoritários, aos quais seguiu a CNT. Sua primeira mobilização foi no colégio, contra a segregação por sexos imposta pela ditadura: “Havia dois edifícios: um, para meninas e outro, para meninos. Chegou um momento em que passaram a nos separar também no pátio. Primeiro foi por horas. Os meninos entravam às 9 horas; as meninas, às 9:30 ou o contrário. Depois, puseram uma cerca, que arrancamos, e mais tarde, um muro de tijolos, como o muro de Berlim, que derrubamos a pontapés. Nós éramos do bairro, mais brutos que um arado…” O ativismo bicha foi iniciado na Frente de Libertação Homossexual de Castela (FLHOC) há tantos anos que, naquela época, Madri, seu lugar de origem, ainda pertencia a Castela Nova. Atualmente, Sejo Carrascosa faz parte do coletivo basco Lumagorri ZAT (Zisheterosexismoaren Aurkako Taldea).

O que essas frentes de libertação reivindicavam?

Além do tempo para o lanche, pedíamos tempo para poder paquerar ou aulas para aprender a dar o cu. Queríamos fortalecer as relações sexuais nas fábricas, porque consideramos a homossexualidade como um espaço de libertação do capitalismo. Frente à produção capitalista, sistema totalmente opressivo, as palavras de ordem eram gozar nossos corpos e abolir o trabalho assalariado: ‘Estamos aqui para gozar, não para trabalhar como porcas’. Reivindicávamos também relações intergeracionais, porque considerávamos que a idade era outra imposição do sistema capitalista. Aos 14 anos, você não podia trepar, nem escolher com quem trepava, mas se podia trabalhar. De fato, havia muita gente trabalhando a partir dessa idade para poder sair da casa dos pais. Abominávamos a família tradicional, que também era um dos pilares da ditadura. As frentes de libertação faziam parte da contracultura; não havia nada que não questionássemos.

Quem as compunha?

Naquela época, as identidades não eram tão fechadas quanto agora porque a luta era uma questão de libertação sexual. De forma totalmente estratégica, não reivindicávamos as identidades homo/hetero. Assim, ninguém tinha que se identificar de nenhuma maneira. As frentes de libertação estavam em todo o Estado e se politizaram quando chegaram as feministas lésbicas, trazendo o marxismo e o anticapitalismo.

E depois da FLHOC?

Quando você começa a ficar chapado não tem mais tempo para…

…lidar com o capitalismo.

Você tem o suficiente para fugir disso! (risos)

Você volta em 1992, como promotor do grupo Radical Gai.

Era um domingo de feira em Madri. Tinha havido uma reunião da Coordenação das Frentes de Libertação Homossexual do Estado Espanhol, que ainda se mantinha como uma estrutura. A Radi foi montada pelo povo mais à esquerda do COGAM [o coletivo LGTB+ de Madri], que saiu dali porque o coletivo já tinha feito uma aposta bastante assistencialista, e eu era um dos poucos que não vinha dessa divisão. Naquela época, começou-se a abrir a caixa do assistencialismo: serviços, orientação, assistência etc., o que exigia reduzir seus princípios e, em consequência, uma despolitização. Passamos alguns dias procurando um nome para o novo grupo. ‘La Josefin’ propôs que nos chamássemos Confecciones La Rata, por nada em particular… (risos). O Radical Gai era um espaço de sobrevivência ou de sociabilidade. Já haviam surgido os movimentos ocupy, que supunham a autonomia das instituições e uma crítica à sociedade, ao consumo, à moradia, à convivência… Era Minuesa, um grande centro ocupado, com uma impressora enorme, onde se faziam festas. Nós nos reuníamos na fundação anarquista Aurora Intermitente, onde também estava sediada uma agência de notícias alternativa chamada UPA. Nós nos impregnávamos de tudo aquilo.

Por que o Radical Gai era tão transgressor?

Modéstia à parte, éramos bastante geniais tocando as bolas. A primeira coisa que fizemos foi encher Madri de grafites: “Bichas para paquerar, bichas para lutar”, porque já existiam os bares de ambiente e já havia sido revogada a lei de periculosidade social. Naquele momento, estavam em briga os movimentos coupy e de objeção de consciência, no qual algumas mulheres começavam a questionar a estrutura e a denunciar o machismo interno. No Radical Gai, havia bichas que também eram objetores e queriam ser insubmissas. Aí criamos a ‘insubmissão gai’, que propunha: “Não vamos ao exército, não porque não acreditamos em guerras, mas porque o que vamos fazer ali com tantos homens e não podermos trepar com eles” (risos). Editamos um dossiê muito legal intitulado ‘Levantem as nádegas’. A objeção supunha radicalizar porque a prisão estava à espreita. Havia carnalidade na repressão.

Vocês praticaram a interseccionalidade avant la lettre.

Afeminizávamos tudo o que tocávamos. Intervínhamos nos movimentos ‘gerais’ porque todos tratavam o tema ‘bicha’ como ‘o seu’. Fazíamos muitas ações para questionar a heterossexualidade, o que nos custou muitas amizades… “O que vocês pretendem, que nos tornemos todos bichas?”, nos perguntavam. E nós: “Todos, não, mas aquele ali…” (risos) Um dia, pegamos um regulamento da Renfe que advertia a seus serviços de segurança a serem cuidadosos com mendigos, rebeldes e homossexuais. Fomos a Chamartin montar um show que acabou com 50 pessoas presas. Acontecesse o que for, dávamos pinta. O grupo Cuba Dura, que chamávamos de Cuba Ereta, convocava uma manifestação? Então íamos nós com o panfleto “Nos da por Cuba”, para denunciar o tratamento que se dava nesse país aos gaises. Era um dia de greve? Bem, enchíamos Chueca de grafites: “A patronal é heterossexual”. E saía o dono de um bar: “Eu não sou heterossexual”. E nós: “Sim, mas você é explorador que não paga os garçons”. Tudo o que fazíamos provocava grandes discussões e debates eternos. A radicalidade nos vinha do fato de propor respostas concretas para as coisas que aconteciam. Éramos muito politizadas, tínhamos vontade e não dependíamos de consensos com o pessoal assistencialista do COGAM. Tudo isso acontecia em torno de Lavapiés, onde vivia a maioria dos ativistas e onde ainda não havia gentrificação.

E com a eclosão do HIV?

Veio o grande debate do ativismo. Para tentar evitar que a sociedade fizesse a equação ‘gaises = AIDS’, o HIV se converteu em um tema tabu. No entanto, o Radical Gai soube dar um caráter social muito grande. Como não iríamos tocar nesse assunto? Minhas amigas lésbicas tiveram um protagonismo na luta contra o HIV que, graças a elas, se politizou muito mais. A coisa estava fodida: doenças, hospitais, mortes… Víamos a rapidez com que as pessoas morriam, em um período entre três e seis meses. O teste estava longe de ser generalizado e faltavam medicamentos; portanto, quando as pessoas entravam no hospital com algum tipo de doença, muitas vezes já estava com o sistema imunológico deterioradíssimo. A AIDS se alastrou nos setores mais vulneráveis da sociedade: drogados, prisioneiros, mulheres, trabalhadores sexuais. Vínhamos da época da heroína. Isso serviu para que muita gente, além dos gaises, se conscientizasse e se envolvesse na luta contra a infecção. Por meio de carta e fax nos relacionávamos com os grupos Act Up! da época: dos Estados Unidos, França, Inglaterra e Holanda. Conhecíamos suas formas de ação e queríamos que as nossas, diante de tanto sofrimento, também fossem mais além, ainda que elas nos detivessem.

Se sua pluma os incomoda, brinque com ela!

Esse slogan nos ocorreu na máquina xerox, fazendo uns adesivos antifascistas para um 20N. Reivindicávamos muito a pluma, por ser a feminilidade uma das maiores potencialidades subversivas do movimento bicha. A grande mestra Empar Pineda dizia que os homens deviam muito a todas as bichas, porque se agora podem usar brincos e outros adornos, é graças a elas. Havia também o movimento de gaises, de perfil mais tarefeiro e assistencialista. Hoje em dia, no Estado espanhol, em círculos ocupy, antiespecistas e veganos, há muitos grupos bichas que reivindicam a pluma. E eu celebro isso.

Em 95, você abandonou Madri e se instalou em Gasteiz. É o ‘sexílio’ ao contrário…

Cuidado com Gasteiz porque aqui se manda ter sossego até à Virgem Maria! Duas cordas e pimba! Ai a tens agora, enfiada no nicho. Também eram famosas as procissões ateias na Semana Santa. Quando cheguei, Gasteiz era um ponto muito importante do movimento autônomo e alternativo, mas ainda havia muita gente no armário. Isso foi um choque porque eu vinha de uma visibilidade absoluta. Por exemplo, ainda era difícil de ser visto na imprensa e os grupos que existiam eram ainda espaços de sociabilidade aos quais se ia para conhecer pessoas. Como esta não era uma grande cidade, faltavam referências. Em Madri havia Chueca.

Você acha estratégico que o movimento LGTB atue na agenda institucional?

O movimento LGTB não tem uma agenda boa, que reivindique acabar com os privilégios da heterossexualidade e romper a base social, totalmente heterocentrada e, portanto, assimétrica, machista e misógina. A heterossexualidade é uma identidade tóxica e nociva, mas é muito difícil questionar isso. O casamento é uma das grandes ferramentas da heterossexualidade, um contrato para ter a mulher ali atada com a prole. Veja que papai e mamãe têm privilégios que até a Constituição lhes reconhece a liberdade para educar seus filhos, tendo como certa sua capacidade para fazê-lo. Onde se vê isso, Deus? A educação é a única forma que a sociedade tem para salvar essas criaturas das crenças de seus pais. E ainda por cima deixamos que sejam levadas à escola concertada! As criaturas estão sendo utilizadas como uma espécie de grande foco de censura e de políticas totalmente antissexuais e antidiversidade: “As crianças não podem ver isso.”

Nem o nudismo na praia.

Nem exposições em um museu. Como que não podem ver corpos nus ou gente trepando, mas se matando podem? Há certos temas que temos convertido em tabu. Então, voltando a que o movimento atue na agenda institucional, não me interessa que a atuação consista em uma gestão da diversidade, porque vai ser liberal e setorial. Quero incidir com enfoques e pontos de partida que envolvam toda a sociedade e que levem em conta os motivos de exclusão que existem historicamente: por que as mulheres não estão na ágora ou por que os viados não cumprimos a função do homem, tocando assim o núcleo duro do sistema? A produção não é a única que a sustenta.

De quanto mais coisas ele se vale?

Neste momento, o sistema capitalista já não quer mais os corpos produtivos, mas os desejáveis, por bem-sucedidos em termos sociais, porque para produzir são encarregados os robôs e as fábricas nos países pobres. E aqui, a que vamos nos dedicar? A ter corpos com sucesso. Daí a gordofobia e a construção de corpos não desejáveis, os que estão fora dos cânones estéticos, os negados, os expulsos para além das margens porque são incapazes de ter bom sucesso social. A produtividade e o sucesso são uma imposição do sistema de ter que ser algo. Por que não nos limitarmos a viver, que pode ser bastante enriquecedor?

Você disse antes que “o casamento é uma das grandes ferramentas da heterossexualidade”. Como casa isso com o casamento igualitário?

O casamento igualitário conseguiu que as pessoas não heterossexuais fossem tão vulgares e ordinárias como o resto. (risos) No nível político, soube legitimar estruturas que vão contra os direitos individuais. Não obstante, representou uma grande conquista, diante de um direito violado, que mitigava em certa medida uma situação lacerante como era a pandemia de HIV/AIDS. Ocorre que, quando morria alguém, sua família homofóbica ficava com todo o patrimônio e deixava sem nenhum bem seu parceiro, contra a vontade da própria pessoa falecida, por falta de uma relação contratual entre os parceiros. Acontecia também que, se o doente estava hospitalizado em um local privado, a família proibia a visita do parceiro.

Ok, o movimento LGTBI não tem uma “boa agenda” para atuação. E as instituições? Elas estão à altura disso?

A mercantilização e o consumo que foi criado em torno da identidade gaise representa uma forma de cooptação brutal. Agora para elas não somos mais que uma meta econômica com que podem lucrar. O orgulho é o exemplo mais evidente disso e também o pinkwashing: uma quantia para produzir algumas faixas e, aliás, um álibi para colocar em seus municípios o medalhão dos direitos humanos. Estamos imersas em um espetáculo contínuo, no qual com determinado valor você recebe tantos vales. Vemos que nas instituições há pessoas sem nenhuma consciência. Há gaises em Ciudadanos, no Vox, no PP… que consideram que a orientação sexual e a identidade de gênero pertencem ao âmbito da intimidade. Onde fica a potencialidade subversiva?

Perdemos o norte com as identidades?

Me parece uma onda que vai. Há uma coisa muito importante: a identidade é um efeito, não uma causa. Não devemos cair em políticas identitárias. São o equivalente a políticas neoliberais e nos comprimem, porque partem de um enfoque em absoluto interseccional. Podemos ser hiperidentitárias, mas o não saber jogar com as identidades nos tem levado a rebaixar a carga reivindicativa. Não estamos questionando a bicha: a heterossexualidade obrigatória, de Adrienne Rich; ou a heterossexualidade como construção política, de Monique Wittig. Não há problema em continuar promovendo a heterossexualidade, de falar de diversidade por toda parte em lugar de dissidência. Se as identidades subversivas desaparecem, politicamente estamos perdidas porque o sistema em seguida nos cooptará e, em troca, nos dará umas migalhas. “Aqui estão os gaises; aqui, os judeus; aqui, os ciganos…” Devemos buscar estratégias conjuntas frente a um inimigo comum, como fizemos na época da AIDS. Então, não caímos no identitarismo de “falo eu que sou doente e você cala a boca”, mas que tínhamos o convencimento de que a luta era de todo mundo: “Se você, que é meu amigo, morre, como não vai me afetar?”.

E com a ascensão do fascismo…

A gente não faz ideia do que é isso… Nos anos 80, depois de uma manifestação em Argüelles, foi dada uma surra de chicote no filho de um ministro e em seu namorado que os enviou para um hospital. Hoje em dia, o fascismo em Madri volta a crescer e a gozar de muita impunidade. Sua ascensão nos vai obrigar a evitar de novo os espaços geográficos onde estão localizados os mecanismos de desprezo. Vamos assistir outra vez ao zoneamento das cidades, a ter que escolher uma região ou outra de acordo com a segurança que ofereça. É uma volta ao armário. Próximo de onde tiver uma sede do Vox, por exemplo, nós andaremos com cuidado com os símbolos que levamos, como este bottom e essa bandeirinha do orgulho em minha bolsa.

Em El libro del buen Vmor: sexualidades raras y políticas extrañas, coordenado por Fefa Vila e Javier Sáez, você escreve: “Falar da AIDS é encarnar a vergonha de sentir-se sobrevivente”. Soa duríssimo…

Fazer parte de uma geração que se perdeu e, no entanto, continua viva me coloca em um lugar privilegiado e incômodo. Por que eu não e outra pessoa sim? Não sei se me toca ser o testemunho, a recordação ou, simplesmente, viver com um déficit ou um vazio. Depois, há algo muito ligado ao Holocausto: o imperativo moral de se converter em memória, uma forma de deixar de ser você mesma.

Uma última pergunta: por que você diz gaises?

Para mim, essa é uma forma de me afastar e questionar as identidades mais despolitizadas, daquelas que estão na moda e nas políticas de consumo, daquelas que não buscam subverter, mas integrar-se.

Entrevista cedida a Itziar Abad, publicada por Pikara online magazine em 26 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://bit.ly/39dfk4J.

Tradução: Luiz Morando.

Sejo Carrascosa alerta que, “se as identidades subversivas desaparecem, politicamente estamos perdidas porque imediatamente o sistema nos cooptará”. Em uma época de explosão das identidades, o histórico ativista bicha insiste em “buscar estratégias conjuntas frente a um inimigo comum”.

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