Tecnoconsciência

Ponho-me a trabalhar numa mesa cujo um de seus extremos está em Atenas e o outro em Barcelona. Num extremo da mesa, Itziar desenha mapas literários da cidade, transcreve o bairro de El Besos tomando como pauta a rua na qual vivia o escritor catalão depressivo e masturbador Miquel Bauçà, logo traça os contornos do bairro Gracia a partir das andanças que sugere a escritura do poeta Enrie Casasses. Entretanto, no outro extremo da mesa, eu imagino as formas que um coletivo pode tomar quando se reúne para pensar, agir ou gozar. Formas determinadas pelo pacto ou pelo contrato, pela autonomia ou pela independência, pelo poder ou pela potência, pela lei ou pela regra, pela mostra ou pela experimentação, pela improvisação ou pela partitura. A mesa, separada por milhares de quilômetros físicos, se une graças aos suportes prostéticos de internet. A música que soa em Atenas se escuta em Barcelona. A voz, o mais prostético e fantasmático de todos os órgãos do corpo (recordemos que nascemos sem voz e que só depois de termos sido socializados a voz nos é “implantada” no corpo, como se tratasse de um software), é o único que chega a cruzar o umbral. O mesmo tempo e dois espaços. Ou se prestarmos atenção ao segundo que a música ou a voz demoram a chegar de Atenas a Barcelona, em cada nota, então diríamos que há dois tempos e um só espaço. Mas são as categorias newtonianas de espaço e tempo (topologia e cronologia) as que parecem ter colapsado. Flutuamos. Nós nos olhamos e me pergunto onde está esse olhar, como é possível se olhar quando o que veem os olhos não são outros olhos, mas a imagem dos olhos numa tela. Às vezes, eu a observo enquanto olha um mapa em sua tela. Impossível averiguar o momento no qual seus olhos deixaram de me ver e substituíram a minha imagem por outra. Nossas telas se olham. Nossas telas se amam. Quando isto acontece, não estamos, estritamente falando, nem aqui nem lá. A música, os mapas, a escritura, nós como entidade relacional, nosso amor, existem então, se constituem, nesse espaço que Deleuze denominava dobra, uma de cujas internas exterioridades está constituída por milhares de cabos de internet, dobrada e desdobrada em centenas de milhares de telas.

As telas são a nova pele do mundo, penso enquanto movo sua imagem com o dedo para fazê-la coincidir com a minha. São a pele de uma nova entidade coletiva radicalmente descentrada e em processo de subjetivação. Enquanto isso, os implantes eletrônicos acabarão transformando nossas peles em telas. Atravessamos uma transformação semelhante à que viveram os habitantes do planeta quando Gutenberg inventou a imprensa. Depois da reprodução mecânica da Bíblia vieram a secularização do saber e a automatização da produção. Hoje, a velocidade da transformação tecnológica supera inclusive as predições mais excêntricas da ficção científica. Cada ano, assistimos à obsolescência de aparelhos e aplicativos que nos pareciam eternos e ao nascimento de novos que incorporamos em tão somente umas horas. Chegaremos à desmaterialização absoluta e à automatização total. Esforçamo-nos por naturalizar tudo, pretendemos seguir narrando nossas paixões como o faziam Homero ou Shakespeare. Obstinamo-nos em seguir nos ocupando da produção, da ideologia, da religião ou da nação, mas a roda está girando. Queremos seguir afirmando que deus existe, que a nação existe, que o sexo existe, que o trabalho e a greve existem. Mas talvez já não seja assim. Não participo dos sonhos utópicos do pós-humanismo, mas tampouco compartilho a ideia daqueles que veem na tecnologia um instrumento neutro que media nossa relação com o mundo. O que o Ocidente chama tecnologia não é senão uma modalidade científico-técnica do xamanismo, e, portanto, uma das formas que toma nossa consciência quando se despluga de maneira coletiva: uma exteriorização compartilhada da consciência coletiva. Deixemos para trás as visões patriarcais e coloniais da tecnologia (que oscilam entre delírios de superpotência e paranoias de total desempoderamento) e assumamos o controle das formas heterogêneas que nossa consciência está tomando. Estamos mutando e só alguns de nós (os que carregam o monstro dentro, aqueles nos quais nossa própria subjetividade e nosso próprio corpo foram publicamente assinalados como campos de experimentação e testemunhas materiais da mutação) o notamos.

Crônica de Paul B. Preciado publicado em Turim, em 14 de janeiro de 2017.

Tradução: Inaê Diana Ashokasundari Shravya.

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