Sobre ética feminista, sexualidade, maternidades lésbicas e outras questões

Já faz tempo, nós, feministas, denunciamos que o “poder sexual masculino” – que justifica que os homens busquem satisfazer-se com outra mulher que não a sua companheira, enquanto não toleram essa liberdade nas mulheres – era outra invenção do patriarcado para nos obrigar a aceitar a situação de desigualdade. Nós, feministas, entendemos que se um homem mantém uma relação sexual com outra mulher, pelas costas de sua parceira, ele é absolutamente responsável por seus atos. Nessas situações, eu sempre desculpava a responsabilidade do terceiro nessa discórdia. Argumentava que se uma parceira heterossexual tem um pacto de monogamia, o único responsável é aquele que rompe o pacto. Algumas feministas autônomas dos anos 70 me ensinaram a ver que a mulher colocada no papel de amante também tinha um grau de responsabilidade. Dado que o patriarcado inventou para nós o lugar de mulheres passivas, para quem as coisas estão ocultas, nós, feministas, não deveríamos ajudar nenhum homem a colocar outra mulher nesse lugar. A cumplicidade entre mulheres é um ato de sororidade.

A questão se torna complexa quando falamos de parceiras de lésbicas feministas. No caso de parceiras que não têm papéis de gênero tão delimitados, às vezes, é mais difícil detectar como se reproduzem as práticas patriarcais que situam as mulheres ou lésbicas em lugares de desvantagem ou desigualdade.

Não vou entrar no campo do poliamor porque estamos partindo de um suposto pacto de monogamia. Em todo caso, seja monogamia ou poliamor, há um denominador comum a ser levado em conta e que, como feministas, deveríamos sempre exigir e praticar: trata-se de construir confiança e de respeitar os pactos através da comunicação. Isto é, o poliamor não consiste em ter múltiplas relações, mas em ser honestas e sinceras com os/as demais envolvidos/as. Assim, quando alguém se esconde no poliamor para reproduzir as tradicionais decepções, autodecepções ou manipulações, cabe a nós refinarmos o olfato e a perspicácia para redirecionar as discussões, os discursos e sermos tratadas com o respeito que merecemos. Poliamor e decepção não são sinônimos; poliamor e respeito aos pactos são.

Voltando aos casais heterossexuais monogâmicos, um exemplo clássico desse tipo de conflito se dá na etapa explosiva que sucede ao nascimento do primeiro filho ou filha. A maternidade vivida (entre outras coisas) como uma etapa da sexualidade das mulheres, unida à clássica divisão de papéis, potencializa os conflitos de convivência de qualquer casal. Especialmente quando a mulher conta com uma trajetória de busca por maior autonomia e o uso de seu tempo ou questionamento dos papéis de gênero, ou quando o homem não desenvolve um trabalho emocional e se sente sobrecarregado pela nova situação. Os consultórios terapêuticos estão cheios de casais que explodem após o aparecimento do primeiro filho; e geralmente é entre o primeiro e o segundo ano de idade do bebê que o casal se separa. É também um clássico de nossas sociedades patriarcais que, escapando da intensidade do puerpério e da agitação emocional que provoca o aparecimento do primeiro filho, o homem fuja em busca de um espaço onde ele seja o protagonista, e não o bebê ou a díade composta por mãe-bebê. Uma amante pode ser um bom lugar para ser valorizado novamente, sem ter responsabilidades compartilhadas. Portanto, como feministas que lutamos pela extinção da divisão de papéis de gênero e pela igualdade entre homens e mulheres nas reponsabilidades parentais e domésticas, assim como pela revolução nos âmbitos sexuais mais íntimos, deveríamos ser cuidadosas com esse tipo de situação nos momentos vitais e priorizar a sororidade sobre qualquer outra questão.

Tudo é ainda mais complicado no caso de duas mães feministas lésbicas, porque se em um casal heterossexual há uma feminista, em um casal de lésbicas pode haver duas! Portanto, é previsível pensar que um casal de feministas frente à maternidade seja uma bomba-relógio motivada pelo puerpério, unido aos clássicos conflitos de casal, mais as negações sobre o uso do tempo e a autonomia. Nós, feministas, lutamos a vida inteira para sermos gestoras de nosso tempo e um tema ainda não resolvido é o dos cuidados. Quem cuida de nós?

Evidentemente, existem casais de lésbicas que convivem e crescem harmonicamente onde tudo isso não ocorre ou se resolve a partir de um lugar consciente e com muito amor e sororidade, assim como tampouco todos os casais heterossexuais se separam após o nascimento dos filhos. Conheço, inclusive, o caso de duas mães que, sabendo do furacão que seria o nascimento de filhos, decidiram pedir a licença-maternidade com o mesmo período, para que, enquanto uma cuidava do bebê, pudesse, por sua vez, ser cuidada por sua companheira. Ninguém ignora que a situação socioeconômica da família ou o entorno influenciará nas possibilidades de resolução encontradas nessa crise. Mas seja qual for, devemos ficar de olho nas responsabilidades que estão sendo compartilhadas, que as necessidades de ambas sejam contempladas em sua dimensão, e que há uma nova pessoa, absolutamente dependente 24 horas do dia, que, sem pedir permissão, vai tomar o tempo da adulta que cuida dela.

Casais de lésbicas são tantos e tão diferentes como casais heterossexuais. É absurdo estabelecer aqui um modelo. Mas se me atrevo a afirmar que se as feministas heterossexuais conseguiram cada vez mais contratos de parceria mais equitativos, igualitários ou justos, produto de negociações permanentes que chegam às vezes a limites intransponíveis, nos casais de lésbicas feministas essas negociações contam com uma vantagem. Ambas têm o objetivo comum de superar o patriarcado e são conscientes de que este se combate suprimindo os papéis, alternando as responsabilidades, compartilhando o poder. Discursivamente, não podem fazer-se de ingênuas com respeito ao uso do tempo e à distribuição entre tempo produtivo e reprodutivo. Outra questão, como tudo na vida, é a distância que há entre teoria e prática, palavra e ação. Portanto, em muitos casais segue sendo motivo de discussão quem vai fazer a compra, quem não cozinha há dias, como se dividem as responsabilidades econômicas ou qual das duas tem mais direito a ter o sábado livre de criança para ir a algum evento nada pertinente a crianças. A teoria sempre é muito mais fácil que a prática; na maternidade, essa distância se radicaliza com mais facilidade.

Portanto, se construímos um movimento, se tentamos criar relações de confiança e cuidados entre nós, teríamos que nos perguntar onde fica a sororidade. Se duas lésbicas realizam uma luta cotidiana para se relacionar a partir da igualdade, para além dos gêneros, e embarcam na desafiante aventura de criar juntas em uma sociedade violentamente heteronormativa, considero um desconhecimento dessa valentia e esforço que outra pessoa lidera outras ações que colocam uma das mães em um daqueles lugares de capitulação que o patriarcado inventou para nós. Como movimento feminista, deveríamos planejar como gerenciar a ética feminista em situações com essa complexidade, que, como dizia uma feminista comunitária boliviana, “nos obrigam a ficar mais magras a cada vez”. Em situações assim, se a amante aparece também com uma atitude ativa de sedução (aludindo à sua autonomia, liberdade, falta de compromissos, poliamor) está desconhecendo um momento crítico do casal, que, se analisado a partir de uma perspectiva feminista, é pelo menos previsível. Toda maternidade traz consigo algum movimento de água.

Se uma feminista, em nome da autonomia, não leva em consideração o lugar em que deixa a outra mulher, me ocorrem apenas dois motivos para isso: ou tem certa carência afetiva que a leva a se satisfazer de forma depreciativa, sem considerar forma, contorno ou contexto; ou tem uma concepção do feminismo segundo a qual não se prioriza a sororidade. Nesse caso, cabe a pergunta: o que existe do feminismo sem a ética feminista?

Por outro lado, é claro que, diante daqueles que decidem resolver seus conflitos no estilo patriarcal mais clássico (seja homem ou lésbica), e, face à chegada de seu filho, sai correndo em busca de um oásis onde volta a ser o centro protagonista e receptor de cuidados, nós, feministas, devemos seguir uma ética feminista que cuide de nossas sexualidades, tão prejudicadas pela história patriarcal. Oxalá, estabeleçamos relações baseadas na responsabilidade, na comunicação e no cuidado.

Texto de Anna Castillo publicado em Pikara online magazine, em 26 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://bit.ly/2TJqfg9

Tradução: Luiz Morando.

“Nós, mulheres, levamos alguns séculos lutando por uma vida livre, pela liberdade sexual e por autonomia. A relação entre o íntimo e o ideológico nos leva, em numerosas ocasiões, a debates intensíssimos sobre como nos relacionamos com as demais pessoas a partir de uma ética feminista. Por isso, como relacionamos nosso corpo, nossa sexualidade, é geralmente uma questão transversal nessas análises.” (Anna Castillo)

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