Em quais situações e com que frequência se lavam as mãos?

O coronavírus tem assustado cada vez mais os cidadãos e as cidadãs do Brasil. De fato, um vírus como esse pode assustar. Esta não é a primeira vez que situações como essa nos assustam. Lembremos do vírus influenza, vulgo gripe do frango, assim como a encefalopatia espongiforme bovina, vulgo doença da vaca louca. Talvez devesse nos assustar o registro de mais de 4.500 casos confirmados de sarampo, uma doença viral grave e altamente contagiosa que pode evoluir para complicações e levar à morte, até setembro de 2019. Não é de estranhar que o Brasil, até então uma referência de vacinação – principal forma de prevenção contra o sarampo –, tenha novamente casos registrados como esse, se consideramos o aumento de adeptos do movimento antivacina.

O caso do coronavírus serve para compreendermos em alguma medida como a doença é socialmente construída. O racismo, muito mais do que os dados científicos, serviu de base para as informações que circularam livremente pelas redes sociais. Muitas opiniões foram levantadas colericamente contra a dieta alimentar dos chineses, principalmente sobre pratos feitos com morcego – ainda que no mercado onde o vírus teria surgido não venda carne de morcego –, mas essas mesmas pessoas seguiram comendo carne de vaca – que para muitos hindus e indianos seria um absurdo –, frango, porco – que para a maioria dos judeus seria um absurdo –, e incluso de gato em algumas regiões metropolitanas. O caramujo-gigante-africano, que durante um tempo assustou muita gente – e que com igual força a amnésia o velou – por ser uma praga, entrou no Brasil pelas mãos de chefes de cozinha que queriam uma opção rentável ao escargot, ou seja, assim como um possível transmissor de doenças, ele também seria um possível transmissor de signo de classe para um determinado grupo social que possui condições de frequentar restaurantes franceses com uma certa frequência.

Mas se estamos falando de morte, por que não mencionar o Aedes aegypti e o problema hídrico recente que tivemos no Rio de Janeiro, mais especificamente no início de 2020? Para deixar as coisas um tanto mais claras – ou para atenuar a opacidade das evidências –, a geosmina, conhecida popularmente como “cheirinho de terra molhada”, atrai mosquitos Aedes aegypti, servindo como um excelente berçário para os ovos destes, assim como estimulante para sua proliferação, conforme indica artigo científico da Universidade de Lund, na Suécia. Os jornais não deram nomes engraçados à geosmina como costumam fazer com outras notícias; sequer houve uma preocupação em abordar o caso explicando do que se trata a geosmina, tal como fez a UFRJ. Como se sabe, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE) distribuiu água com geosmina para a população. As coisas se complicam um tanto quando levamos em conta que já tivemos problemas sérios com dengue, febre amarela, zika – essa eu tive –, chikungunya, doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. Digamos que, em alguma medida, no governo Crivella houve um investimento em berçários para mosquitos Aedes aegypti, muito mais do que em creches que possibilitariam que mães que sofreram abandono parental do pai trabalhassem e/ou estudassem, o que muitas das vezes é inviabilizado por não terem com quem deixar as crianças, assim como essas crianças aprendem a se virar desde cedo cuidando da casa e deixando de desfrutar da infância como qualquer outra criança, como foi o meu caso.

Poderíamos falar de outras tantas epidemias mais, incluindo a famosa “peste gay”, vírus da imunodeficiência humana (VIH/HIV), assim como a síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA/AIDS), que costumam ser tratadas como sendo a mesma coisa. “Peste gay” essa que costuma carimbar homossexuais e travestis/transexuais via contato direto, oral ou anal, com homens cisgêneros heterossexuais que nos procuram às escondidas para uma mamada no carro. Não há nada como os nossos cuzinhos apertados, eles dizem. Todo pau de homem cisgênero heterossexual é como uma seringa contaminada.

Para além desse panorama de doenças, há outras coisas mais que matam em nossa sociedade. O Brasil continua liderando o ranking dos países que mais matam mulheres trans e travestis, o que o leva também a altos índices de feminicídio, quando incluímos as mulheres cis. O racismo de Estado segue pesando sua mão sobre a população preta e favelada. A divisão de classes se depara com um apartheid social já naturalizado no Rio de Janeiro, que tomo como referência por ser capa de revista e destino de turismo. A política de morte é o que unifica todos esses grupos sociais. O sexismo – incluo a transfobia aqui –, o racismo, o classismo, a homofobia, segue sendo o que mata efetivamente no Brasil. Aplaudimos Greta Thunberg, mas seguimos calando todas as meninas que sofrem abuso sexual pelos seus próprios pais dentro de casa. O massacre de Orlando ou a perseguição a homossexuais em países majoritariamente muçulmanos ou dinâmicas de violência retratadas em séries na Netflix sobre transgêneros nos causam comoção, mas somos incapazes de reconhecer a dinâmica de violência que a população trans sofre diariamente, ou mesmo a homofobia em nossas práticas. Dizemos que todas as vidas importam diante de movimentos como o Black Lives Matter, mas somos incapazes de nos solidarizarmos com pessoas negras em situações de racismo dentro de instituições, ou mesmo em repensar práticas nossas que remetem ao colonialismo, uma realidade que ainda carregamos sem nos darmos conta. A polícia militar, braço armado da política de morte, ou seja, do Estado, é uma realidade exclusiva do Brasil. Policiais militares deveriam existir para tomar conta de fronteiras. Se eles impregnam o nosso cotidiano, talvez seja porque há fronteiras socialmente construídas que o Estado visa zelar. Não seria nenhum absurdo dizer que, para determinados grupos sociais, a ditadura nunca deixou de existir. Quando amigos e amigas cis meus disseram que estavam com muito medo do governo – me recuso a usar a palavra “desgoverno”, pois é ingênua – Bolsonaro e me perguntaram se eu não estava com medo, a única resposta que eu pude dar foi que, bom, o medo pra mim é como água do mar e eu sou um peixe.

Talvez o coronavírus não seja o maior problema que podemos encarar, o que não significa que devamos ignorar sua existência. Para algumas pessoas ele é o único problema que pode surgir em suas vidas. Para outras, seria mais um, o que não significa que seria insignificante por isso. Lavar as mãos segue sendo a melhor prevenção contra o coronavírus. Lavar as mãos para o que ocorre em nossa sociedade segue sendo a melhor forma de conservar as coisas como são – uma merda!

Texto de Inaê Diana Ashokasundari Shravya.

Por meio da expressão ‘lavar as mãos’, Inaê Diana Ashokasundari Shravya toma a pandemia de coronavírus para uma reflexão sobre o longo histórico de epidemias no Brasil, sejam biológicas, sociais ou morais.

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