A pandemia em letras minúsculas

Pode parecer, de um ponto de vista frio e analítico, que as ideias da solidariedade sejam simplesmente eficientes como recurso humanitário, uma postura mais poética do que prática. Nitidamente é uma ideia poética e daí muito de sua força, ao contrário do que querem crer certos “pragmáticos”, para quem a realidade é tristemente um amontoado de dados e fatos possíveis de serem enfeixados em tabelas estatísticas. No entanto, mais que poética, et pour cause, a solidariedade é principalmente uma posição política, uma concepção da democracia como vida cotidiana, uma definição da cidadania.[i] (Herbert Daniel)

No início dos anos oitenta, quando a pandemia do vírus HIV vinha acompanhada do pânico, do estigma e da desinformação, o escritor e ativista Herbert Daniel (1946-1992) propôs que escrevêssemos aids com letras minúsculas, transformando em palavra algo que já significava mais do que a sigla da síndrome da imunodeficiência adquirida (acquired immunodeficiency syndrome, AIDS).[ii] Afinal, ao vírus da imunodeficiência humana (VIH ou HIV) não interessavam os estigmas, o pânico global e os discursos morais. Ele certamente estava mais interessado nos linfócitos T CD4+, macrófagos e microgliócitos mesmo, sem saber da perversa rede simbólica em que era envolvido.

O acerto de Herbert Daniel estava em defender que uma pandemia nunca se dá somente em termos médicos ou biológicos, mas precisa ser pensada a partir do seu impacto societário. A aids era e ainda é um fenômeno muito maior e complexo que a AIDS. Qualquer resposta à pandemia, portanto, não podia ser pensada somente a partir da chave cura/doença, saudável/doente, não-infectado/infectado e a partir de tratamentos individuais. A resposta à aids precisava partir de um entendimento que saúde é sempre um projeto coletivo.

Também era necessário colocar o vírus no seu devido lugar. Em tempos em que o vírus era tratado como arma ou justificativa divina, era preciso lembrar que nenhum vírus carrega alguma razão, missão ou revelação. Aliás, há um profundo antropocentrismo em pensar que o alastramento de uma outra espécie ocorre só com objetivo de nos ensinar algo.

Esses dias ouvi na rua, dito com uma triste resignação por uma idosa que antes se queixava da sua solidão: “Deus criou a corona para deixar o mundo para os jovens”. Bem como tem explodido os discursos, cunhados com grandes privilégios e pintados de tintas de espiritualidade libertária, dizendo que o “vírus veio ao mundo para nos ensinar a ter mais autocuidado e mais tempo para nós mesmos”.

Certamente, temos muito o que aprender durante uma pandemia e as crises societárias que elas instalam, mas já erramos de início quando achamos que ao coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) cabe a função divina de ser emissário do fim do mundo, seu guia espiritual ou professor de conteúdo para uma live no seu perfil do Instagram. Aliás, se tem algo que já devíamos ter aprendido, depois de tantas epidemias e pandemias no curso da humanidade, é que atribuir moralidade a infecções é capaz de matar tanto quanto vírus ou bactérias.

Revisitar alguns textos e suas lições do período da chegada da aids no Brasil foi provocado pela fala de um amigo e ex-aluno. Ele, com alguns anos vividos a mais do que eu, passou a sua juventude no auge do discurso de ódio e pânico da chamada “peste gay”. Ele me relatou que, quando jovem, em meio a tanta desinformação, achava que era possível se infectar com o HIV pelo ar. “O grande medo nem era a doença, tanto, mas era se iríamos passar pela doença sozinhos. Hoje, guardadas as proporções, também é isso. Numa cidade de pessoas solitárias, quem vai cuidar do outro quando cair?”

De fato, a pandemia do coronavírus instalou ou potencializou ou visibilizou uma crise na capacidade de cuidado comunitário. E isso tem acontecido em uma velocidade muito mais rápida do que esperado e em proporções diferentes da pandemia da aids em seus anos iniciais. Cabe destacar que, nesses dias de pânico, o espalhamento da infecção por SARS-CoV-2 tem sido muito mais veloz do que a capacidade de nossa moralidade construir narrativas que o consiga encapsular.

Há cerca de dois meses, a hegemonia racista tentava fazer renascer um discurso do “perigo do Oriente” apresentando a covid-19 como “mais uma epidemia de asiáticos”, com proliferação de fake news e humor racista. Seu alastramento na Europa rapidamente tirou a sustentação dessas narrativas. Pouco tempo depois, tentou-se construir a afirmação de que essa doença só estaria entre pessoas ricas, vindas da Europa. As mortes de porteiros e empregadas domésticas mostrou que a desigualdade de classe e renda não é parede de isolamento para nenhum vírus, pelo contrário.

A narrativa, inclusive do presidente, que o vírus só é preocupante para uma minoria da população, pessoas idosas ou com alguma comorbidade, esbarra no fato que temos quase 30 milhões de pessoas idosas no país, pelo menos 13 milhões com doenças raras, 27,4% da população com hipertensão, 12,5 milhões de pessoas com diabetes, além de que em outros países temos observado um número significativo de morte de pessoas jovens. Toda tentativa, comum em pandemias, de tentar transformar o vírus na “doença do outro” não consegue se sustentar pela enorme quantidade e proximidade de “outros” nos tempos da covid-19. Ainda mais quando o grande elemento capaz de alastrar o vírus é o próprio “eu”, somos todos nós.

Em poucas semanas, temos visto uma transformação em nosso comportamento em uma escala cada vez mais rápida. Há alguns dias falávamos da importância da etiqueta respiratória e da higienização das mãos (o que nos assemelhava ao cenário do H1N1 que vivemos há alguns anos); depois já tínhamos que nos preocupar com não encostar em ninguém; depois, manter em casa pessoas idosas; depois, que todas as pessoas devem ficar em casa; depois, não podemos abraçar nossos familiares; depois, com termos que desinfectar os alimentos e sapatos ao chegar em casa. Em pouco tempo, nos vimos olhando para cada pessoa na rua como um potencial infectado e tendo que pensar no risco do contágio por objetos plásticos e com o chão das ruas. Agora já temos que lidar com a realidade de ver familiares e amizades adoecendo e não poder nem os visitar em hospitais, nem mesmo ir ao seu velório se falecerem. O medo, de que me falava meu amigo, de se infectar pelo ar (mais precisamente, por gotículas respiratórias) ou de ter que falecer sozinho é cada vez mais real.

Não tenho vivido essa pandemia no seu isolamento. Sou um trabalhador há 11 anos do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e eu, como vários outras colegas, tenho me dedicado a trabalhar por mais de 15 horas por dia, sem descanso nos finais de semana, desde a chegada do vírus ao Brasil, em estratégias de mitigação, contenção e respostas aos impactos de uma situação de calamidade pública. O SUAS, embora mais invisibilizado que o SUS (Sistema Único de Saúde), tem sido uma das linhas de frente de enfrentamento dessa pandemia e de suas consequências.

Os desafios são enormes. Precisamos pensar em estratégias de acolhimento e proteção a pessoas em situação de rua. Precisamos garantir que os espaços de acolhimentos não se tornem locais de proliferação do vírus. Precisamos de respostas rápidas e emergenciais à insegurança de renda e alimentar, para não termos mais pessoas nas ruas e em risco. Precisamos construir redes de apoio para pessoas idosas que vivem sozinhas. Precisamos ter cuidado para que as campanhas de doações de alimentos e itens de primeira necessidade, sem um protocolo de cuidados, contribuam para o alastramento do vírus por meio de objetos. Precisamos pensar em como estruturar procedimentos de manejo de corpos em um contexto de risco de infecção (em muitos Estados, a Assistência Social ainda é responsável pelo enterro das pessoas mais pobres que não conseguem arcar com serviços funerários). Precisamos pensar em como o isolamento social não pode repercutir em mais violência intrafamiliar (em especial contra crianças, mulheres, pessoas idosas e com deficiências). Precisamos pensar em estratégias de atendimento, com um sistema que já era frágil, insuficiente e sobrecarregado, quando atendimentos coletivos estão impossibilitados e a rede de serviços não consegue suportar somente atendimentos individualizados.

Nesse contexto, contudo, o maior desafio se dá quando se quebra as distinções de quem protege e quem precisa ser protegido. Como dissemos, não há um “outro” nessa pandemia. Toda vez que um cuidador social sai para seu trabalho em um abrigo de pessoas idosas, ele volta para casa e coloca em risco seu familiar idoso, quando muitas vezes ele também faz parte de algum grupo mais vulnerável. E não há nem profissionais e nem equipamentos de segurança suficientes para impedir esse risco. Todos profissionais da assistência nesse país têm vivido na pele o que significa ter a seguridade social fragilizada. Pois é na seguridade social que a distinção entre a proteção individual e a comunitária perdem sentido.

A política de assistência social no Brasil tem sido ameaçada nos últimos anos. Desde fevereiro de 2019, o Ministério da Cidadania deixou de inserir famílias que se enquadram nos critérios do Programa Bolsa Família no programa. Ademais, o Sistema Único de Assistência Social foi colocado em risco com a diminuição do orçamento federal. A Portaria n. 2.362, de 20 de dezembro de 2019, do Ministério da Cidadania, repercute no desfinanciamento e redução do orçamento da Assistência Social, prejudicando a sustentabilidade dos serviços continuados da assistência social em todo país.

Contra esse contexto de fragilização, profissionais da assistência social, em conjunto com os da saúde, têm defendido que uma das únicas coisas que podem proteger o país da catástrofe nos próximos meses é a Seguridade Social. No Brasil, nossa Assembleia Constituinte alicerçou um Sistema de Seguridade Social baseado em três pilares  –  Saúde, Previdência e Assistência Social  –,  compreendendo-o como um conjunto integrado de ações de iniciativas dos poderes públicos e da sociedade que tomam como princípio a solidariedade.

Por outro lado, o governo ultra-neoliberal de extrema-direita no Brasil, que nos últimos meses tem atacado os direitos à saúde, à previdência e assistência social, nos últimos dias trabalha fortalecendo as dicotomias entre sobrevivência individual e proteção comunitária. Sobre esse tema, recomendo o excelente comentário dos antropólogos Everson Fernandes Pereira e Alexandre Branco Pereira em artigo recentemente publicado na Le Monde Diplomatique Brasil. Aliás, Everson Fernandes, antropólogo da saúde, vem há meses apontando o cenário que viveríamos no Brasil. Não se trata de profecia, como alguém que descobre a revelação de um vírus, mas de um olhar atento para a realidade, que tenta desvelar as ideologias que tentam esconder a realidade de um vírus.

A pandemia do novo coronavírus deve ensinar-nos que é urgente distribuir direitos, como a renda básica universal (ou mesmo o direito à água tratada e ao saneamento básico), se quisermos superar o que enfrentaremos nos próximos meses. O objetivo deste debate não deve ser, portanto, retirar a possibilidade daqueles trabalhadores que podem isolar-se em suas casas, acusando-os de terem privilégios, mas sim garantir a extensão dessa possibilidade a todos os trabalhadores, inclusive os precarizados. Garantir a renda de motoristas de aplicativos, entregadores, vendedores ambulantes, diaristas, professores particulares e outros trabalhadores sem direitos trabalhistas garantidos é, hoje, uma política de saúde pública, pois garante o direito à vida e à saúde não apenas desses trabalhadores, mas de toda a sociedade.

Como afirmado anteriormente, não é possível falar em medidas de proteção individuais em uma crise de saúde pública. Estamos diante de algo sem precedentes, e ninguém estará a salvo caso tentemos restringir a possibilidade de segurança sanitário-biológica a apenas alguns: só é possível termos sucesso se protegermos a todos.[iii]

Gosto muito de um entendimento sobre o que é solidariedade que aprendi a partir da obra de Herbert Daniel: solidariedade é partilha de vida. Quando tomamos a solidariedade como princípio, entendemos que a vida precisa ser pensada com um bem coletivo. O neoliberalismo tenta mascarar isso ao produzir o mito da saúde como uma aquisição individual. Contudo, contextos de pandemia dilaceram essa fantasia, não importando seu plano de saúde caríssimo, estoque de álcool em gel ou de papel higiênico.

Nesse contexto, a adoecimento e a morte de cada pessoa mudam o curso do mundo e a vida de todas as pessoas. As decisões de alguns indivíduos nos próximos dias podem significar a proteção ou a perda de milhares de vida. Ou entendemos que a vida de todos importa nesse contexto ou teremos cada vez menos vida para nos importar. A nossa humanidade está em risco, não só pelo risco de perder nossas vidas e de nossas famílias, mas porque, quando nos tornamos indiferentes à vida de outras pessoas, nossa humanidade se esvai.

Tudo se passa como se estivesse em questão apenas o problema de indivíduos, mesmo que sejam muitos indivíduos, quando na verdade trata-se de um problema da humanidade, de toda ela. Trata-se do problema deste condado chamado mundo, deste planeta único e vário. Não se quer, com isto, dizer que toda a humanidade está ameaçada de ter a doença ou ser exterminada. Esta é uma ideia fútil. Mas, com isto, afirma-se que esta noção de humanidade não nos faz uniformes, mas torna-nos todos um, isto é, um único grupo. Talvez isto nos facilite a compreensão de que a população em geral é sempre um cidadão qualquer de qualquer condado, um ser histórico real, sede de diferenças humanas, com as quais temos que nos regozijar. O que nos evita de sermos uns indiferentes e nos torna um humano, ou humanidade, é a experiência da solidariedade.[iv]

Cabe ainda lembrar que nenhuma cura também chegará como um resultado de uma revelação ou milagre, mas de um envolvimento transformador comunitário. Sobre isso, termino com as palavras de Herbert Daniel:

A doença não é meramente um fenômeno individual que dependeria de relações mecânicas entre um agente etiológico e um corpo afetado ou predisposto, inclusive considerando-se aqui a situação social do desenvolvimento da moléstia. A doença, em si mesma, é um fenômeno social, determinado e desenvolvido a partir de certas relações historicamente dadas. A “cura” nunca é intervenção no individual, mas complexo conjunto de práticas sociais transformadoras. Que são de responsabilidade de toda comunidade sujeita à doença.[v].

Felipe Areda é antropólogo e educador social. É trabalhador do Sistema Único de Assistência Social em Brasília. Também é presidente do Instituto LGBT+ e membro de Rede LGBT de Memória e Museologia Social.


[i] DANIEL, Herbert. Aids no Brasil: a falência dos modelos. In: DANIEL, Herbert; PARKER, Richard. AIDS, a terceira epidemia: ensaios e tentativas. 2. ed. Rio de Janeiro: ABIA, 2018. p. 22-56.

[ii] DANIEL, 2018.

[iii] PEREIRA, Alexandre Branco; PEREIRA, Everson Fernandes. O distanciamento social como forma de cuidado coletivo. Le Monde Diplomatique Brasil. Acervo Online. 28 de março de 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/o-distanciamento-social-como-forma-de-cuidado-coletivo

[iv] DANIEL, 2018, p. 44.

[v]  DANIEL, Herbert. A síndrome do preconceito. MICCOLIS, Leila; DANIEL, Herbert. Jacarés e Lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983. p. 127-128.

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