Epidemia, aids e coronavírus: a doença, a negação e a luta pela vida

A negação diante de epidemias não é algo novo, e nem algo que cause surpresa em quem as estuda, e sempre nos é um desafio a ser quebrado na luta pela vida. A gripe “espanhola” – que de espanhola não tinha nada, haja vista que o vírus pode ter surgido no Kansas (EUA), e usar de xenofobia para nomear infecções não é o ideal – foi repleta de teorias conspiratórias e de descrença quando aportou, de navio, no Rio de Janeiro.

Ninguém quis acreditar que uma tragédia epidêmica iria acontecer, mas ela aconteceu e matou mais que toda a Primeira Guerra Mundial: estima-se que 50 milhões de pessoas, aproximadamente, morreram daquela Influenza.

Pois bem. Mas muitos à minha volta têm delegado essa negação de nosso abominável presidente Bolsonaro com relação à Covid-19 a algo circunscrito à sua ideologia “peculiar” – quando não, maluca, pois há quem insista em não avaliar o neofascismo como algo lógico, cruel, mas, sim, chamam erroneamente de loucura – somada ao tal do “Gabinete do ódio”, composto por seus filhos e alguns terraplanistas. Isso até é parte da verdade, mas não é ela inteira. Bolsonaro apela para a negação espertamente, porque o negacionismo diante de doença com alto poder de mortalidade tem sim rastro social, e inclusive histórico.

O ato genocida de nosso presidente pode, infelizmente, convencer parcelas desinformadas da população, principalmente com um sistema educacional e social que favorece para isso, sobretudo em sua base. Por mais que ele tenha mesmo se isolado politicamente e esteja despencando em popularidade, não deixa de ser um problema existir um exército de bolsominion achando que a Covid-19 é uma gripezinha, e a galera da periferia desesperada diante do desemprego e da fome, cogitando não fazer quarentena para não morrer de fome, diante da legítima desconfiança existente com o poder público – e com a própria Ciência – em promover seu sustento durante a crise.

No campo político, o rastro que fala em geral fica a cargo da extrema-direita, mas não só ela. No caso da aids, podemos destacar o exemplo do ex-presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, do CNA, partido de centro-esquerda. Após muitas tentativas desencontradas do país de enfrentar a epidemia de aids, resolveu adotar uma linha negacionista no ano 2000. Mbeki afirmou, na Conferência de Aids de 2000, que o HIV não seria uma infecção sexualmente transmissível, e que talvez fosse fruto da desnutrição e de outros fatores relacionados à pobreza, e que a pressão para se distribuir medicações anti-HIV seria resultado de um lobby da indústria farmacêutica, que queria obter lucros com a compra massiva de medicações por diversos Estados nacionais.[i]

Essa política errática da África do Sul, somada a uma desarticulação colossal na década de 90 ao não criar uma resposta nacional, um programa centralizado, bem financiado e capilarizado de enfrentamento à aids, fez o país entrar numa espiral, e aumentar drasticamente suas infecções por HIV, sendo hoje um dos países do mundo que mais possui PVHA (Pessoas vivendo com HIV/aids) – cerca de 5 milhões. A título de comparação, o Brasil, que é um país continental e muito mais populoso, possui cerca de 1 milhão de PVHA, e só conseguiu controlar relativamente a epidemia por ter o SUS e dar tratamento anti-HIV de forma universal (mesmo com as dificuldades de acesso à saúde que já nos são conhecidas).

É verdade, sim, que a indústria farmacêutica lucra bastante com a cronicidade de doenças, e que pouco ou nada mobiliza de recursos ou de vontade política para promover educação em saúde ou prevenção, pelo contrário. Quanto mais doentes estivermos, mais lucro. Mas dessa constatação para a criação de toda uma teoria conspiratória que desacredite anos e mais anos de estudo de inúmeros cientistas e entidades acadêmicas de todo o mundo, é o que podemos chamar de terraplanismo sanitário, que já vi gente progressista defendendo, e que inclusive cheguei a confrontar publicamente em eventos da comunidade LGBTI+ de São Paulo.

Mas me parece que a negação é algo entranhado, mais em alguns do que em outros. E diante de grandes epidemias, sempre surgem teorias da conspiração, histórias de laboratórios em bunkers ultrassecretos, no caso da aids houve racialização da epidemia na África do Sul, e aqui nas Américas a conta do estigma foi colocada nas costas da comunidade LGBTI+ – e nós travestis e pessoas trans fomos perseguidas pela Rota em São Paulo, caçadas nas esquinas a bala ou encarceradas para “combater o vírus da aids”, numa ação do governo Jânio Quadros. A xenofobia no coronavírus se deu com relação à China, e é insuflada pela extrema-direita. Mas essas ações só possuem o efeito que elas têm, porque no fundo a negação atinge uns, enquanto o desespero e o medo irracional atingem outros. A respiração no momento de mar revolto é esquecida, e compramos qualquer ideia, qualquer salvação.

Nós não queremos acreditar que a aids mata tanto ainda, mesmo com remédio. Não queremos pensar na tuberculose ou na pneumonia, porque queremos deixá-las longe de nós. Não queremos pensar que estamos diante de uma crise sanitária que é, nas palavras de Angela Merkel, o maior desafio da humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. Queremos mesmo achar que em um mês ou dois vamos voltar para as mesmas atividades e rotinas, mas na verdade o que estamos vivendo pode ser comparado a uma mudança de época (tipo quando acabou a Idade Média, sabe?). Ou seja, nossas vidas não serão mais as mesmas. E isso dói. É um luto. Não queremos perder a configuração de nossas vidas. E, aliás, há a nossa luta pela vida.

Nós não queremos, também, pensar em mortes silenciosas, sorrateiras. No máximo, só queremos lembrar daquela morte em que 80 tiros destroem um músico negro. Mortes horrendas. Mas será que, de fato, mais assassinas do que o descaso com o saneamento básico e a saúde pública? A época dos caixões lacrados que levavam inúmeros pacientes mortos de aids, lá no começo da aids, me parece que retornou numa escala imensamente maior. E não sei se todo mundo se tocou disso em seu íntimo.

Pra quem vive com HIV/aids, mesmo que com o tratamento em dia, há o temor de que com o fechamento de centros de diagnóstico e de tratamento do HIV/aids por causa do coronavírus, ou com o carreamento de suas estruturas e recursos para enfrentar somente a covid-19, possa fazer com que novas infecções não sejam precocemente diagnosticadas e, assim, haver aumento na mortalidade por aids. Há também riscos de desabastecimento de camisinhas e demais tecnologias de prevenção. E num colapso total do sistema de saúde – que é a linha política proposta por Bolsonaro –, até mesmo as minhas medicações anti-HIV podem entrar em risco de desabastecimento. É muito sério e grande o que vivemos. E maior ainda a importância da reação da sociedade.

Há pouquíssimas semanas, havia quem me dissesse: Carol, você está exagerando ao desmarcar tantos compromissos, se colocando em autoquarentena, ou lutando por um afastamento no posto de trabalho (um pronto-socorro referência da Covid-19), ou que eu estava ficando hipocondríaca (não que eu não seja mesmo, rs) quando pedia pra lavar a mão e não me beijar no rosto. Pessoas queridas, do setor progressista, me disseram isso. Hoje, as mesmas me ligam aliviadas por eu estar em quarentena, perguntando-me sobre minha bronquite crônica, minha bombinha para as horas de eventual crise brônquica, sobre a outra bombinha de uso contínuo, e ainda, sobre minha imunidade e o HIV.

Foi rápida uma transformação de hábitos em algumas pessoas próximas, mas não tão rápida assim em alguns “crushs”, por exemplo, que ainda agora, mesmo pertencendo à tal bolha progressista, insistem em encontros sexuais e afetivos presenciais longe de casa, o que quebra minha necessária quarentena, haja vista que estou no grupo de risco. E mesmo que eu não tivesse… o que leva a negação frente às epidemias, ou a dificuldade de se falar de doença, ou seja, do nosso próprio corpo entrando em colapso, por uma ótica sociopolítica? Por que queremos negar, lá no fundo, que um micro-organismo ou uma doença qualquer pode tirar nossa vida em pouco tempo?

Nós, que de algum modo estamos envolvidas/es com a saúde, alertamos já há anos sobre a face genocida da epidemia para as populações mais oprimidas, como as populações LGBTI+, negra, indígena, pobre… e no entanto, haver silenciamento sobre mortes por doenças tratáveis, ou maior comoção com os assassinatos, devido ao real choque diante de uma política explícita de extermínio através da bala. A noção mais corrente de LGBTIfobia é um exemplo disso, onde pouco se fala das mortes de aids e tuberculose na nossa comunidade, e que mata muito mais que os assassinatos LGBTIfóbicos – estima-se que mais de 3 mil LGBTI+ morrem por ano por aids, das 11 a 12 mortes por aids registradas em média na população em geral.

O coronavírus nos obriga a não só reconhecer a força exterminadora da ausência de saúde pública de qualidade, mas também a repensar como estamos vivendo com falta de saneamento e higiene nas moradias de milhões de pessoas, em como funciona essa escala global de criação, venda e distribuição de animais e vegetais do quanto isso pode causar ainda mais epidemias (e não precisa ser vegana pra entender isso! Todes precisamos entender)…

Pensar em como a lógica do lucro e do capitalismo é mortífera, e como, de certa forma, Mbembe está correto em dizer sobre o “devir negro”[ii], isto é, que o tratamento dado a esse “outro” racial chamado “negro” – e que possibilitou a escravidão e a colonização baseada no racismo, ou que depois produziu os diferentes Apartheids – poderia se estender a parcelas cada vez maiores da população, de formas diferenciadas, à medida que a precarização da vida só aumenta com as políticas neoliberais do atual capitalismo.

Nesse momento de coronavírus no Brasil, em que temos que repensar nosso lugar no mundo, nossa fragilidade diante da vida, diante de uma epidemia. Nesse momento em que, segundo David Harvey[iii], todo o sistema de consumismo de massa está em franca paralisia mediante a falência de sistemas de saúde e diante de um vírus, somos chamadas e chamades a repensar tudo em nossa cultura e sociedade. E em nossa política anticapalista, também. (Leiam o texto de Harvey, inclusive, que vou referenciar.)

Pensar no consumismo, no que de fato é essencial na vida, no que de fato importa… Estamos, sim, como humanidade, diante de um espelho que talvez nós pensávamos que chegaria com o aquecimento global, na próxima geração, ou com regimes cada vez mais autoritários, mas pouca gente esperava uma hecatombe provocada por um vírus. Agora, nos cabe praticar a desobediência civil ao presidente, ficando em casa, lutando pela garantia de lugares e moradias adequadas para as populações mais vulneráveis ao vírus (idosos e doentes crônicos de comunidades pobres e população de rua), pela assistência social e financeira dos mais pobres, do mar de desempregados que virá, e pensar como nos organizar para vivenciar as novas formas de trabalho que deverão surgir pós-Covid19 – e mais desvalorizadas que a uberização, provavelmente.

Nos cabe deixar a distopia de lado, e também a negação da realidade, para nos abraçar ao pragmatismo da ação e à utopia de construir o novo, uma sociedade sem o capitalismo, sem o racismo, sem o patriarcado, sem a LGBTIfobia, para que a nossa vida e saúde sejam garantidas, verdadeiramente, durante a existência deste planeta. Entre a doença, a negação e a luta pela vida, devemos escolher por esta última, num sentido de luta interseccional, total, pela liberdade. Liberdade em sentido amplo e constante, como defendem Patricia Hill Collins[iv] e Angela Davis[v]. E para ficarmos livres, precisamos ficar vivas. Decidir pela vida quando querem nos matar, é um ato revolucionário. Artigo de Carolina Iara de Oliveira, publicado originalmente em <https://medium.com/…/epidemia-aids-e-coronav%C3%ADrus-a-doe…

[i] SANTOS, Gustavo Gomes da Costa. Aids, política e sexualidade: refletindo sobre as respostas governamentais à Aids na África do Sul e no Brasil. Physis: Revista de Saúde Coletiva, São Paulo, v. 19, p. 283-300, 2009. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0103-73312009000200003>.

[ii] MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

[iii] HARVEY, David. Política anticapitalista em tempos de Covid-19. In: DAVIS, Mike et al. Coronavírus e a luta de classes. Terra sem Amos: Brasil, 2020.

[iv] COLLINS, Patricia Hill. Se perdeu na tradução? Feminismo negro, interseccionalidade e política emancipatória. Revista Parágrafo, v. 5, n. 1, p. 6-17, 2017.

[v] DAVIS, Angela. Yvone. (1981) In: ___. Mulheres, raça e classe. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

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