A tuberculose, enfermidade proletária

A estatística da mortalidade e das enfermidades deveria ser um dos objetos de estudo preferidos pelos propagandistas socialistas. Os maiores índices de mortalidade por tuberculose são de regiões mais pobres, nos bairros mais populosos das cidades, nas indústrias que se desenvolvem em ambientes fechados, mal ventilados, úmidos, excessivamente povoados, e naquelas que dão ou produzem poeira ou emanações irritantes e tóxicas.[i]

O doutor A. Stella, que, como diretor do Hospital Italiano de Nova Iorque, pôde estudar pelo lado da saúde os bairros italianos daquela cidade e os emigrantes, afirmava em 1912 que 25% da população proletária morria de tuberculose, e que afetados por esta enfermidade estavam 50%, ou talvez mais, dos passageiros de segunda classe que regressaram à Itália, e cerca de 20% dos emigrantes repatriados a pedido do consulado italiano de Nova Iorque. “Somente entre os pobres que retornam anualmente da América do Norte viajando na terceira classe, há, em média, 3.000 tuberculosos” (O Movimento da Saúde, 15 de julho de 1912). No período de 1902-1908, houve um aumento notável na mortalidade na província de Catanzaro, devido exclusivamente ao retorno de emigrantes (Anais de Medicina Naval, 1910). Também a pesquisa parlamentar de 1907-1911 sobre as condições dos camponeses nas províncias do sul e na Sicília destacou que em certas províncias a tuberculose é muito frequente entre os emigrantes que retornaram dos Estados Unidos. Nalguns distritos, o aparecimento e a difusão da tuberculose foram devidas quase exclusivamente às correntes emigratórias contaminadas no estrangeiro. O professor G. Sanarelli, em seu tratado Tuberculose e evolução social (Milão, 1913), observava:

Esta notável predisposição a adoecer por tuberculose entre os emigrantes das províncias do Sul deve ser procurada numa particular sensibilidade de seu organismo que, nos países de origem pouco bacilizados, não teve a possibilidade de se ajustar suficientemente ou de ser vacinado por ignorância sobre a infecção por tuberculose. É sempre o mesmo fenômeno biológico que se repete em todos os países e em todas as classes sociais: as raças que possuem um contato mais intenso e mais prolongado com o vírus da tuberculose estão melhor defendidas e mais imunizadas que aquelas que foram expostas a ele pela primeira vez.

Uma confirmação indireta desse fato encontramos também no estudo da emigração que está voltado para a América do Sul e que até hoje tem sido atacada pela tuberculose em grau bastante menor, não porque a enfermidade esteja ali menos difundida, mas porque, devido ao maior desenvolvimento que tem a agricultura na América do Sul, nosso emigrante não se detém e não se agrupa nas grandes cidades da costa, mas que se volta, em sua maior parte, para o interior e se estabelece, por costume e por razões de trabalho, nas imensas planícies, em plena luz e ao ar livre, onde as ocasiões do contágio são menores e onde as causas predispostas operam de maneira mais benigna.

O urbanismo e o industrialismo são, consequentemente, os devidos fatores genéricos da tuberculose. Mas o específico é a miséria, ou seja, a escassa e má alimentação, o excesso de trabalho [surmenage], a pouca higiene, a falta de ar limpo, de sol e de movimento.

Durante a guerra, a tuberculose na Itália matou mais de 250.000 cidadãos, e no pós-guerra se calculou que os tuberculosos somavam, só na Itália, dois milhões. Durante a guerra, Viena foi atacada por aquela doença duma maneira espantosa. 90% das crianças vienenses foram atacadas por alguma infecção de caráter tuberculoso. A causa principal deste triste fenômeno foi a insuficiência da alimentação. De mais de 186.000 crianças das escolas de Viena, só 6.000 recebiam uma alimentação normal; as demais encontravam-se desnutridas. A importância da alimentação é enorme.

No orfanato bávaro de Mônaco (Munique) foram coletadas 613 crianças, entre 1876 e 1883, das quais uma pesquisa rigorosa permitiu estabelecer que 263 eram filhos de um ou de ambos progenitores tuberculosos. Entretanto, um dos asilados se tornou tuberculoso. Outras experiências deram resultados análogos.

Li no artigo dum médico:

Contrariamente a como pensavam nossos pais, hoje se sabe que um doente do peito que queira se curar deve comer três vezes mais que um homem saudável para suprir as perdas que o organismo já sofreu  e para conservar o corpo no estado em que este se encontra e para aumentar suas forças. Eis aqui, de fato, o horário dum sanatório:

Às 7:30h, primeiro lanche de leite com pão e manteiga.

Às 8:30h, fricções na pele ou ducha.

Às 9:30h, segundo lanche de leite com pão e manteiga, passeio e repouso.

Às 11h, comida (pão, carne, leite, cerveja, legumes e sobremesas); três horas de repouso nas salas do hospital ou na floresta.

Às 16h, café e leite com pão e manteiga; duas horas de repouso como anteriormente.

Às 19h, jantar (com a comida, mais uma sopa)

Às 22h, hora de dormir.

Quantos são os tuberculosos que podem gozar de tantas massas, alternadas com o repouso, com os passeios e as duchas: Esta é uma das principais causas da morte.

As condições do trabalho, os salários, a habitação de grande parte da classe operária predispõem à tuberculose e impedem que seja curada a tempo e de maneira eficaz.

A partir das estatísticas da mortalidade adulta, me parecem resultados evidentes que as condições de trabalho são o fator principal das formas fatais dessa enfermidade.

Segundo uma estatística, que se refere a diversos anos passados, relativa a operários de Viena, morrem de tuberculose:

  • 33% dos confeiteiros
  • 43% dos padeiros
  • 71% dos sapateiros
  • 71,4% dos estofadores
  • 72% dos alfaiates
  • 75% dos que trabalham com pentes e leques.

Note que as quatro últimas categorias pertencem ao trabalho doméstico ou a pequenas oficinas, quase sempre insalubres.

De outras estatísticas se infere, além disso, a importância deletéria do pó.

Dum estudo realizado pelo doutor P. Ferrari sobre a mortalidade por tuberculose em Milão, na década de 1903-1912, extraio a seguinte estatística relativa às mulheres que, em ofício e posições iguais, são mais atacadas que os homens por aquela enfermidade:

  • Tipógrafas e impressoras, 64,25%
  • Trabalhadoras de papelão e estofados, 55%
  • Trabalhadoras com pincéis, crinas e rolhas, 52,77%
  • Dependentes de comércio e armazém, 48,01%
  • Trabalhadoras com produtos químicos, 47,67%.
  • Trabalhadoras de couro, 45,14%
  • Engomadoras, 42,12%
  • Passamaneiras, 41,08%
  • Trabalhadoras metalúrgicas, 40,07%
  • Empregadas, 37,10%
  • Camponesas, jardineiras e floristas, 12,30%
  • Subsidiárias da indústria de alimentos, 10,30%

A importância do fator habitação é também enorme. É útil recordar, a propósito, que cinco anos de administração socialista, caracterizada pela construção de muitas e magníficas casas operárias, deram como resultado, em Viena, que a tuberculose haja decrescido de 10.606 casos fatais a tão somente 3.660.

Texto de Camillo Berneri publicado em La Revista blanca, em 23 de novembro de 1933. Disponível em: <https://es.theanarchistlibrary.org/library/camillo-berneri-escritos#toc8>. Acesso em: 1º abr. 2020.

Tradução: Inaê Diana Ashokasundari Shravya

Inaê Diana Ashokasundari Shravya traduziu texto do professor e militante anarquista Camillo Berneri (1897-1937) pelo qual vemos como a tuberculose foi uma grande ameaça à vida e à saúde da população ocidental, no auge do processo de industrialização. Reflexão que vem a calhar hoje.

[i] Para demonstrar quão perniciosos são os lugares onde há poeiras irritantes e tóxicas, Sommerfeld calcula que a mortalidade por consumo de trabalhadores que respiram em locais sem poeira é comparada à dos trabalhadores que respiram em lugares empoeirados, como 2,39 em 5.42, e de acordo com dados estatísticos especiais, verifica-se que, entre mil mortes por enfermidades diversas, as seguintes são de tuberculose:

– Entre os trabalhadores que moram onde há pós metálicos em geral: 470

– Entre os que respiram pó de cobre: 520

– Entre aqueles que respiram pó de ferro: 403

– Entre os que respiram pó de chumbo: 501

– Entre aqueles que respiram pós minerais em geral: 403

– Entre os que respiram poeira orgânica em geral: 537

– Entre aqueles que respiram pó de tabaco: 598.

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