A propósito de nossas críticas ao bolchevismo

Os comunistas e os sindicalistas veronese-moscovitas[i] nos acusam de realizar um trabalho antirrevolucionário porque criticamos a política bolchevique, quando a Revolução Russa necessidade de toda a solidariedade dos partidos de vanguarda do Ocidente porque está ameaçada ainda pela política reacionária da Entente e porque está imersa numa enorme desgraça: a fome.

Nós merecemos essa reprovação? Creio que não. Nossas críticas ao governo bolchevique de forma alguma implicam uma falta de solidariedade com a Rússia da revolução, e diferem profundamente da campanha organizada pela imprensa reacionária e social-reformista. Criticar os critérios e métodos do Partido Comunista Russo, contando os erros e horrores do governo bolchevique, é um dever e um direito para nós, porque, no fracasso do bolchevismo estadólatra, vemos a melhor confirmação de nossas teorias libertárias. Além disso, deve-se notar que, quando a Rússia era para o proletariado italiano a terra santa da liberdade e da justiça, quando a miragem do mito russo exerceu seu fascínio revolucionário em todo o mundo, ficamos em silêncio, à exceção duma voz isolada, porque a Revolução Russa era um grandioso evento que teve de ser aceito em bloco, sob pena de diminuir a sua repercussão nos países que, como o nosso, pareciam próximos de seguir o exemplo que vinha do leste. Mas dois eventos quebraram nosso voluntário silêncio: as revelações feitas por Serrati, Colombino, Nofri, Pozzani e outros e, acima de tudo, a importação sistemática de toda a literatura bolchevique russa e a cópia de todos os critérios táticos e imitação servil de todos os pontos programáticos de Lênin e seus companheiros. Nos encontramos na necessidade de ficar calados sobre o que já havia sido revelado na imprensa socialista, e na necessidade de nos opor à propaganda jacobina que se espalhou entre as massas, prejudicando o que consideramos a linha revolucionária correta. Somado a tudo isso, está a reação antianarquista do governo de Moscou e a convicção de que a política dos bolcheviques russos leva a um desdobramento revolucionário na Rússia e no Ocidente.

Os comunistas se equivocaram ao nos fulminar como pequeno-burgueses e como antirrevolucionários, assim como se equivocaram ao persistir nessa atitude hostil. Mas se equivocaram no sentido de que nosso programa e toda a história de nosso movimento desmentem do modo mais absoluto suas acusações, ainda que tenha razão porque é natural que se creiam mais revolucionários, mais na extrema-esquerda do que nós. Isto é legítimo e mais que natural.

Dado que nossas críticas à política bolchevique têm sido motivo de discórdia entre nós e os comunistas, assim como prejudicam a aliança revolucionária que, na realidade, existe entre nós e eles, creio oportuno discutir nossa atitude diante da política bolchevique para ver se também da nossa parte há excessos e erros. Creio que, mais do que erros, se possa falar de excessos.

A propósito da política agrária dos bolcheviques se tem caído, por exemplo, em exageros. Que a política de requisições tem sido uma loucura, é indiscutível; que a política de abastecimentos ao campo tem sido insuficiente, é indiscutível; que a tentativa de nacionalização das terras com decretos inúteis e com um programa uniforme a respeito tem sido um erro colossal, é indiscutível. Mas daí se afirmar que os camponeses russos são comunistas por natureza e que se a revolução tivesse se desenvolvido livremente teríamos na Rússia o comunismo rural, no sentido kropotkiniano, há muita diferença. O mesmo ocorre com a nacionalização da indústria, a organização do exército, a burocracia, e por aí vai. A crítica anarquista à política bolchevique caiu em excessos devidos ao mau conhecimento das condições econômicas, sociais e psicológicas da Rússia.

Nem sempre se soube distinguir o que era uma tendência programática dos chefes bolcheviques e o que era uma necessidade contingente, o que era realizável com uma linha autonomista e federalista e o que era irrealizável inclusive com o triunfo desta linha.

Na crítica à política bolchevique, confirmou-se essa excessiva valoração da ação popular que é característica do anarquismo de Kropotkin. Ou seja, pensou-se que o proletariado russo era capaz de realizações comunistas do que realmente é. Outro erro é não se ter levado em conta que entre o estopim da revolução e o atual regime houve um período bastante longo de livre jogo das forças políticas e sociais, no qual o movimento anarquista se esgotou e os partidos de esquerda demonstraram não estar à altura das circunstâncias.

É inútil sofisticar o que a revolução russa poderia ter sido. É o que é. E ao criticar sua atual paralisação, é preciso ter em mente que à política de retirada do governo bolchevique contribuem realidades mais poderosas que os princípios teóricos.

Os camponeses se apropriaram das terras que, por direito, foram nacionalizadas, mas na realidade se subdividiram entre os pequenos proprietários que constituirão a futura burguesia rural.

A troca de produtos, mais ou menos clandestina, é geral e enriquece a toda uma categoria de novos estraperlista[ii]. A burocracia está constituindo uma nova classe de privilegiados. É neste conjunto de processos econômicos e sociais onde se tem que buscar as causas da nova política bolchevique, que tem contribuído para criar a nova situação, mas não tem sido a única a determiná-la. 

Toda revolução tem o desenvolvimento que é capaz de lhe dar o povo que a realiza. A economia russa era primitiva. O regime czarista demonstra até que ponto era primitiva e retrógrada também a vida política russa. Não se pode, pois, julgar com critérios ocidentais uma revolução que pertence mais à Ásia que à Europa.

Não pretendo justificar com isto toda a política bolchevique. Creio inclusive necessário criticar o regime bolchevique porque os comunistas italianos o olham como um arquétipo, mas também creio necessário fundamentar nossa crítica em bases mais sólidas. E para fazê-lo é necessário observar a revolução russa com um olhar histórico mais do que um olhar político.

Esta tentativa de objetividade, que não exclui a crítica, senão a faz mais aguda e mais justa, ajudará também a nos libertar de muitos apriorismos teóricos que ameaçam endurecer nosso movimento e afastá-lo da exata compreensão da vida atual, que apresenta aspectos novos que nem sempre permitem conciliar a realidade das coisas e dos homens com as ideologias do anarquismo clássico.

Artigo de Camillo Berneri extraído do livro Humanismo y anarquismo e publicado em Umanitá Nova, Roma, em 4 de junho de 1922. Tradução do italiano ao espanhol de Joseph Torrell. Disponível em: <https://es.theanarchistlibrary.org/library/camillo-berneri-escritos#fn136>. Acesso em: 1° abr. 2020.

Tradução: Inaê Diana Ashokasundari Shravya

Inaê Diana Ashokasundari Shravya traduziu texto do professor e militante anarquista Camillo Berneri (1897-1937) no qual faz críticas aos exageros e desvios da Revolução Russa, sem desmerecer seu propósito central.

[i] Refere-se a uma corrente da União Sindical Italiana (USI) favorável à aliança com os comunistas e capitaneada por Nicola Vecchi, que logo aderiu ao fascismo. Essa corrente publicava em Verona o jornal L’Internazionale e polemizava asperamente com a maioria da USI que lhe havia desautorizado.

[ii] Por não encontrar uma tradução adequada para o português, mantive a palavra tal como consta no texto. Segundo o Wikipédia [em espanhol], “o termo estraperlo é usado na Espanha para se referir ao comércio ilegal de bens submetidos a algum tipo de imposto ou taxa pelo Estado. Por extensão, é uma atividade irregular ou intriga de algum tipo, e se usa como sinônimo de mercado nero. A quem pratica o estraperlo se chama ‘estraperlista’.” Disponível em: <https://es.wikipedia.org/wiki/Estraperlo>. Acesso em: 1° abr. 2020.

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