O paciente digital

Ele estava deitado em sua cama, cercado de livros abertos que não conseguia mais ler. Tentou pegar algo para beber com seu braço, mas nem Saidiya Hartman nem Kathy Acker eram líquidos. A febre o impediu de distinguir livros e bebidas. Ele poderia jurar que podia beber livros e ler água. Dentro de seu corpo, o diafragma havia se tornado uma fronteira que limita a quantidade de ar que entra e sai de seus pulmões. Os músculos pareciam dizer: “Deixe passar apenas o ar nacional-neoliberal.” A respiração tornava-se cada vez mais identitária e curta.

O telefone descansava ao seu lado como um ser vivo, plenamente ativo em sua aparente quietude. O que, por fora, parecia um pacotinho estreito de plástico e alumínio, recoberto de um vidro atrás do qual se deslocavam quadrados coloridos, era na realidade um animal de estimação que percorria distâncias infinitas em poucos infrassegundos e lhe trazia em sua cama as notícias mais horríveis dos lugares mais distantes da Terra, mas também mensagens de pessoas que ele amava. Em outra época, antes do vírus, esse animal era chamado “móvel” porque podia acompanhar seu dono por todo canto. Após o vírus, o celular ficou tão imóvel quanto seu dono, mas ainda tão fiel quanto perverso. Era difícil, em meio à doença e ao isolamento, não se apegar à fera. Em pleno confinamento, conectar o animal digital para que ele pudesse beber sua dose cotidiana de eletricidade era a ação mais importante que o doente não podia se esquecer de fazer. Essa criatura tecnológica consumia 95 quilos de CO2, muito mais do que qualquer outro animal vivo da era pré-cibernética. Ao menos, ele pensava, era possível acariciar o animal digital.

O doente se percebeu quase beijando o vidro dessa caixa, sussurrando-lhe diminutivos. Mas o animal digital não era apenas um tecnoxamã ventríloco capaz de falar com as vozes de todos os outros. Era um justiceiro inorgânico a serviço do poder, que ligava sua câmera e seu microfone a seu próprio usuário e enviava todas as informações armazenadas nos bancos de dados.

O telefone ao vivo era mais sofisticado que camaleões eletrônicos. Por vezes, a caixa brilhante refletia em seu vidro o rosto de um amigo, falava com sua voz; outras vezes ela era transfigurada e tornava-se o rosto de um médico que lhe dava conselhos para lidar com o ataque do vírus; outras ainda ela se tornava uma tábua iluminada da lei anunciando as últimas medidas do governo face à crise. Na caixa de metal, novos aplicativos surgem todos os dias, como novos órgãos. O paciente tocou o aplicativo StopCovid com seu indicador. A partir de agora, seu animal digital enviará sua temperatura e posição física diretamente ao Ministério da Saúde. Em caso de morte, o telefone se tornaria um dispositivo médico-legal: era uma caixa-preta, ele sabia tudo sobre o paciente. Prótese, arquivo e extensão eletrônica de seu usuário, após sua morte seu telefone seria seu último órgão externo a ser desligado.

Mas esse ser cibernético reativo e benevolente era de fato o filho do Mercado e do Complexo industrial militar, uma criatura criada nas fábricas do capitalismo tecnopatriarcal que tinha sido alimentada diretamente com materiais raros extraídos das minas da República Democrática do Congo. O coração do Congo tinha sido aberto, quebrado, e de seu interior tinham sido extraídos os nutrientes que permitiriam ao corpo vivo se recompor a partir do telefone. Como um bebê se alimenta de leite, o bebê-telefone digital é feito de tungstênio, estanho, tântalo, lítio, cobalto, níquel, arsênio, mercúrio e terras raras. Eles dizem que o animal digital é feito de “minerais do sangue” porque para obter os componentes que o animam, um processo de exploração, extração e violência é necessário. Assim, para fazer esse Frankenstein de bolso, era preciso uma dose de sangue humano. O paciente observou que o mesmo sangue, o mesmo crime, corria em suas veias e nos microchips de seu telefone. Ele sentia uma nova forma de fraternidade eletrônica nojenta. Ele se sentia pela primeira vez inorganicamente vivo. E organicamente morto. Sabia-se que ele também, como seu telefone, era um filho nas entranhas da África. Ele sabia que havia vivido devorando todos os outros seres do planeta. Ele havia sido um Africanívoro, um Sul-americanívoro, um Indianívoro, um Chinívoro… Terranívoro… ele havia devorado tudo e agora tudo o que ele havia ingerido explodia em seu cérebro de pequeno Branco europeu.

Ele se levantou e foi ao banheiro vomitar. Ele colocou sua cabeça, que queimava, sob a torneira. A água atingiu seu crânio. Ele sentiu frio e imediatamente depois, ou talvez ao mesmo tempo, um fogo, que a água não conseguia acalmar, se propagou de seu peito para sua testa. Ele levantou sua cabeça ainda úmida e se olhou no espelho. Então ele acreditou ver que tinha um olho pendendo. Mais precisamente, ele olhou o olho direito como se seu olho esquerdo pendesse do osso supraorbital. Ele pensava que a última etapa viral do capitalismo patriarcal-colonial era esta: a tomada de consciência como delírio digital. Ele se aproximou ainda mais do espelho e olhou embaixo do osso orbital, o espaço deixado pelo globo ocular, e viu que havia ali, no interior de seu crânio, uma imensa e minúscula civilização. Ele viu centenas de corpos andando, pulando, brincando. Nem heterossexual nem homossexual, homem ou mulher, Negro ou Branco, animal ou humano. Ele compreendeu que se tratava de uma sociedade regida por leis inteiramente novas. Ele pegou seu olho e o recolocou em sua cavidade. Mas quando ele se deitou novamente na cama, já não era mais o mesmo: ele sabia agora que atrás do que sempre havia visto, havia, invisível, uma outra vida.

Crônica de Paul B. Preciado publicada no jornal Libération em 10 de abril de 2020. Disponível em: < https://bit.ly/2V9zhER>.

Tradução: Luiz Morando.

Em sua última crônica para o Libération, Paul B. Preciado cria uma pequena fábula distópica em que o aparelho celular, esse objeto “tecnoxamã ventríloquo”, se torna o elo entre a pessoa isolada e o mundo da covid-19.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s