Já não há mais o que dizer

Se você é professor da rede pública estadual, assim como eu, talvez já ande sem ter o que dizer. Aos que não são colegas de corredores, permitam-me contextualizar nossa situação.

Iniciamos o ano de 2020 em estado de greve, devido aos ataques que a classe docente vem sofrendo desde 2019. Travaram-se, durante todo o mês de fevereiro, discussões entre professores e o governo estadual a fim de chegar a um denominador comum. Pelo lado do governo, o denominador sempre foi zero. Como sabemos não existir fração de denominador zero, já deve ter ficado claro que o termo ‘discussões’ facilmente pode ser trocado por ‘monólogo’. Afinal, discutir é uma via de mão dupla e com o governo não houve a proposta de diálogo.

Chegamos ao final de fevereiro com grande parte das escolas estaduais fechadas. Duas semanas depois, as escolas que não aderiram ao movimento interromperam suas atividades como forma de evitar a propagação do coronavírus.

Antes de prosseguir, uma reflexão. Quando o sujeito decide sentar em uma sala de aula de um curso superior para formar-se professor, ele já aceitou que dali pra frente a vida dele será uma luta constante. E não estou dizendo aos meus colegas das salas ao lado que a labuta será menor.

O ponto é que o panorama do professor no Brasil não é bom. Sempre que perguntamos a alguém – “Ah, como anda a educação no nosso país?”, a resposta invariavelmente vem acompanhada de “Uma porcaria!” ou “Temos a pior educação do mundo!”. Depois de outubro de 2018, arrisco dizer que talvez você ouça “fora doutrinadores” e que a solução seria uma “escola sem partido”. E quando levantamos a discussão de que a educação não é vista com bons olhos, qual olhar podemos esperar sobre os servidores da educação? O professor, sobretudo o de carreira pública, é julgado duas vezes: por ser servidor público e por ser professor.

Como é a construção da identidade de um professor nesse cenário? Eu queria ser como meus amigos resistentes, que resistem nas greves, nos movimentos; resistem frente à truculência das polícias militares pelas cidades e estados Brasil afora. Mas, não. Já não sei o que dizer.

Esta semana, nós, professoras/es mineiras/os, vimos a secretária de Educação, Júlia Sant’Anna, afirmar que a teleaula será uma realidade. Poucos minutos depois, Coronel Sandro, deputado estadual (PSL), disse que os alunos certamente aprenderam mais em casa com os país no período da quarentena do que se estivessem na escola. Perdi o ar.

Em quarentena dupla – uma por estar de greve e a outra pela restrição de circulação devido à Covid-19 –, as palavras perdem o sentido toda vez que eu penso em responder a alguma coisa. Não que responder adiante alguma coisa, mas pelo menos mobiliza alguma coisa, articula alguma ideia. O silêncio é o consentimento porque “Ah, não vai adiantar”…

Eu me fiz professor porque acredito (bem como escreveu Luana Tolentino) que outra educação é possível. Os golpes, quando o presidente sugere que as escolas retomem suas atividades e quando sugerem a Educação a distância (EAD) em substituição de toda a construção pedagógica, já não são mais golpes só na educação. Os golpes agora começam a soar pessoais. Afinal, o ofício de alguém se funde à sua identidade. O sujeito se reconhece e se faz reconhecer a partir das atividades que desenvolve no mundo. E quando o meu serviço não é valorizado, será que me valorizam?

Como professor, como estudante de Educação, como sujeito até, estou perdendo a vontade de falar. Rolo páginas de jornais, sites de notícias, comentários no YouTube… Quando tudo isso me basta, começo a abrir livros e mais livros, penso em tudo que eu deveria estar fazendo, respondo algumas mensagens no WhatsApp e no final acabo indo para a cama às duas da tarde assistir qualquer coisa no Netflix. Já não desacredito quando me dizem que tudo isso é um projeto. Parece coisa de peça grega essa vontade do Estado de tanto querer ver o sujeito carregando logo em seu peito o status de morto.

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Adianto aos críticos que acredito sim no modelo de EAD e que faço uso de tal modalidade para continuar meus estudos de pós-graduação. Entretanto, há que se lembrar que a educação, sobretudo a pública, é fruto de um espaço de discussão coletiva. A educação é fruto do tempo e do espaço em que o ser humano se insere. É uma atividade que está a serviço da construção da sociedade. E uma decisão que se propõe a modificar as formas nas quais a educação ocorre não pode vir de cima, como se ainda imperasse o modelo piramidal. É necessário diálogo. Debate. Ouvir e ser ouvido. Propor, modificar, mediar. Verbos que os famigerados ‘gestores públicos’ há muito esqueceram de colocar em sua agenda política.

Texto de Daniel Lucas.

2 comentários

  1. O pior é que parte das constatações nesse texto poderiam ser aplicadas em vários momentos da nossa história. Não temos uma educação como projeto de Estado. Temos uma projeto do Estado para neutralizar e diminuir o papel da educação pública tornando nossos alunos apenas mão de obra barata e massa de manobra.

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