Saúde & Anarquia

A medicina ocidentalizada tende a focar exclusivamente nas necessidades sentidas, ou seja, no tratamento de doenças, ou mais especificamente, no tratamento do doente. Isso pode parecer um tanto óbvio, mas, se afastarmos um pouco mais o objeto dos nossos olhos, é possível compreender alguns outros contornos mais que o tornam aquilo que é.

Um dos efeitos desse distanciamento, que podemos chamar de “eumetria” (boa distância), é a compreensão de como fatores econômicos perpassam a forma como lidamos com uma doença. As sociedades ocidentalizadas, como se sabe, existem dentro de um regime de organização social que é o capitalismo. Isso significa que essas sociedades se preocupam única e exclusivamente com o lucro obtido, cabe dizer, da exploração do trabalho. O que temos observado é que essa forma de organização social tem gerado a precarização da forma de vida para a maioria e melhorado a forma de vida de uma minoria, conhecida vulgarmente como ricos. Entretanto, considerar uma dicotomia como pobre/rico soa mais como um enunciado da teologia da libertação, cuja base cristã possibilita compreender a riqueza como algo negativo. Afinal de contas, é no mundo além que se encontra a verdadeira riqueza, como afirma o cristianismo. Contudo, como parto duma perspectiva materialista, decido abrir mão desse idealismo: “rico” é um eufemismo para o dono dos meios de produção, que numa sociedade capitalista é o capitalista.

O que essa precarização da vida tem a ver com a forma como lidaremos com uma doença? Como se sabe, o tempo inteiro se fala do mercado financeiro, de como podemos nos tornar empreendedores e mudar de vida. Quem não gostaria de mudar de vida? Quem não gostaria de ter uma moradia adequada, uma alimentação balanceada, saneamento básico, transporte garantido, poder ir e vir sem sofrer perseguição, ou seja, possuir e usufruir dos direitos básicos? Acontece que, com a precarização da vida, nossos direitos básicos passam a ser identificados pela perspectiva liberal como privilégios, resultando na naturalização da miséria. É comum que se ouça “pobre não tem tempo pra ficar doente”, “isso é frescura” e por aí vai. Nossa forma de vida anda tão precarizada que o básico, o cuidado básico, deixa de ser parte do nosso cotidiano. O mercado financeiro, esse mesmo para o qual trabalhamos exaustivamente, paga somente pela realização de um ato que possa ser medido em termos de resultado imediato. Necessidades não sentidas, como a prevenção, por exemplo, não fazem parte da realidade do mercado financeiro. A higiene é uma forma de prevenção. Quantas vezes não deixamos de lavar alimentos, lavar as mãos, tomar banho, acompanhar como anda nossa saúde, por conta da rotina asfixiante de trabalho? Sobre isso, Marx chegou a dizer n’O Capital que “o tempo durante o qual o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalismo consome a força de trabalho que comprou. Se o trabalhador consome seu tempo disponível para si, então rouba ao capitalista.” Aqui, o cuidado de si, que Foucault recupera dos gregos antigos, encontra algo de consonante: “Ocupar-se consigo não é, pois, uma simples preparação momentânea para a vida; é uma forma de vida”. Entretanto, cabe ressaltar que o cuidado de si não corresponde a uma postura individualista, mas a retornar a si, olhar para si, dar conta de sua própria conduta para consigo e com os outros. O cuidado de si também parece encontrar consonância no pensamento do filósofo anarquista Bakunin, quando este diz, num texto seu intitulado “Educação, Ciência e Revolução”, que,

À medida que a inteligência e a energia das classes declinam, cresce a inteligência do povo, depois sua força. No povo, qualquer que seja a lentidão da evolução, e ainda que a instrução pelo livro lhe seja inacessível, o avanço nunca para. Ele tem para si dois livros de cabeceira nos quais não cessa de aprender: o primeiro, é aquele de sua amarga experiência, de sua miséria, de sua opressão, de suas humilhações, de sua espoliação e dos sofrimentos que lhe infligem cotidianamente o governo e as classes; o segundo, é aquele da tradição, viva, oral, transmitida de geração a geração, e tornando-se cada vez mais completa, mais sensata e mais vasta.

O mercado financeiro tenta ocupar até mesmo os espaços de tempo livre que raramente desfrutamos. É comum que busquemos ocupar de alguma forma os intervalos do cotidiano. Não conseguimos ficar parados. O momento do bocejo é preenchido com um cigarro, muito provável que para permanecermos despertos, prontos para trabalhar. As medidas preventivas não fazem parte da realidade das sociedades ocidentalizadas, e consequentemente, das medicinas ocidentalizadas, o que nos possibilita dizer que “medicina não é saúde”, algo sobre o qual Jayme Landmann dedicou livros, inclusive um com o título Medicina não é saúde. Isso provavelmente ocorre porque as sociedades ocidentalizadas individualizam processos que são coletivos. A prevenção exige que se preste atenção noutros fatores que não apenas o individual, o que pode levar a reconhecer como o regime de organização social vigente não é de maneira alguma favorável às diversas formas de vida deste planeta. Tratar exclusivamente o indivíduo doente permite que problemas sociais sejam tratados como individuais. Podemos dizer que a separação entre necessidades sentidas e não-sentidas é artificial, socialmente construída, e sendo socialmente construída dentro do regime de organização social capitalista indica que a sua construção atende à manutenção desse mesmo regime de organização social. E se, pelo contrário da medicina individualista, sugeríssemos que o doente não é meramente um doente, mas sintoma duma sociedade doente? O sujeito depressivo é o sintoma duma sociedade asfixiada, que se depara com uma imobilidade proporcionada pelos muros que ela mesma ergueu, o que podemos designar “cisplicação”, uma dobradura sobre si mesmo, que é perceptível desde os muros levantados por diversos países, fechamento de fronteiras, discriminação contra migrantes, até a antropomorfização de ecossistemas, com animais não-humanos e plantas e frutas se assemelhando a órgãos genitais. Para onde quer que nos viremos, é exaustivamente nós mesmos que observamos. Não um “nós mesmos” do cuidado de si, mas um “nós mesmos” adoecido, pálido, agonizante – esgotado!

Tentar compreender essas sutilezas possibilita que não assumamos a posição de “simplórios iconoclastas” que agem espontaneamente sem considerar que essa mesma espontaneidade depende de referências e essas referências, se não investigadas, podem muito bem ser favoráveis à manutenção do regime de organização social que essas pessoas acreditam estar atacando. Criticar a indústria farmacêutica pelo simples ato de criticar não se trata de uma crítica, mas apenas ataque, aliás, um ataque desprovido de forças, o qual tende na maioria das vezes a uma negação das ciências. É preciso, sim, problematizar a forma como se tem feito ciência, compreendendo a sua industrialização e mercantilização, assim como é importante que problematizemos visando à consolidação de uma outra ciência, senão uma ciência outra, uma ciência deste e para este mundo. Nas palavras de Bakunin,

Não desprezo absolutamente a ciência e o pensamento. Sei que é sobretudo graças a  eles que o homem se distingue de todos os outros animais, e considero uma e outro  como os únicos faróis do progresso humano. Mas sei ao mesmo tempo que, assim como as estrelas, esses faróis iluminam fracamente quando não estão em harmonia com a vida; sei, digo, que a verdade que eles difundem torna-se impotente e estéril quando ela não se apoia na verdade tal como existe na vida. Contradizer essa verdade condena frequentemente a ciência e o pensamento à mentira, aos sofismas e ao serviço da mentira, ou, ao menos, a uma vergonhosa covardia e à inação.

Claro que desinformações (fake news/boatos) auxiliam no pânico, mas talvez o fato de não nos preocuparmos com a prevenção no cotidiano nos assuste um pouco, pois neste momento é dela que mais precisamos, ainda que não somente dela. Paralelamente à prevenção, aos cuidados, é importante que revitalizemos os elos comunitários, que reconheçamos nossa interdependência, inclusive emocional, em vez de, como diz a música do Capital Inicial, “acreditarmos na distância entre nós”. Como você está?

Texto de Inaê Diana Ashokasundari Shravya, escrito em 24 de março de 2020. Rio de Janeiro.

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