Do pensar como ação

Não é nenhuma novidade os apoiadores do governo – chamar de “desgoverno” seria idealismo – Bolsonaro expressarem estupidez, não obstante espumarem ódio aos grupos minoritários deste país – ainda que haja pessoas que acreditem com todas as forças que o único ódio que essa gente tem é ao Partido dos Trabalhadores (PT), ignorando, inclusive, as intervenções militares realizadas nos anos anteriores durante o governo Dilma e Lula. Isso para não falar da fantasiosa crença de que o programa social Bolsa Família diminuiu o índice de pobreza no país, quando o que ele realmente fez foi retardar o aumento da pobreza. Entretanto, um enunciado me chamou a atenção recentemente: “Quando começarem a morrer pessoas próximas, eles vão se preocupar”. Será?

Será que no contexto das famílias que apoiam o governo Bolsonaro já não havia pessoas próximas morrendo? Ou estariam as famílias apoiadoras do governo Bolsonaro protegidas de serem afetadas pelos crescentes casos de feminicídio? Há inúmeros apoiadores do governo Bolsonaro que são pobres e moram em favelas. Na Mangueira, por exemplo, durante uma das aulas que dou num pré-vestibular comunitário, me deparei com um aluno negro dizendo que o Bolsonaro seria a melhor alternativa para a mudança no país. Esse mesmo aluno sabia do quão corrupta é a polícia, chegando a relatar situações que ele presenciou. Ele mesmo perdeu um primo seu que foi “confundido” com bandido. Talvez o fato de se tratar de uma pandemia mexa mais com as pessoas. Talvez não. Há inúmeros apoiadores do Bolsonaro que são contra a quarentena, não importe o que se diga. As subnotificações de casos de SRAG (Covid-19) ajudam a manter uma atmosfera mistificada de que há melhoras ocorrendo. Já se sabe que na Cidade de Deus tivemos suspeitas de Covid-19 sendo registradas como gripe.

A forma de produção social gera uma forma de sociabilidade. Isso qualquer socialista que tenha comprometimento com uma perspectiva revolucionária sabe. Assim, se temos uma forma de produção social que preza a obsolescência programada de sua produção, consequentemente, temos uma forma de sociabilidade que preza a obsolescência das relações interpessoais. Isso se traduz nas opções de “bloquear” e “excluir” nas redes sociais, para dar um exemplo simples. É como se cada vez mais atomizássemos os mecanismos da política de morte, como se nos emaranhássemos cada vez mais nelas como uma mosca que tenta se soltar da teia da aranha. Como escapar disso? Com certeza não será tentando nos manter produtivos durante a quarentena. O momento é propício para tentarmos provocar discussões entre as pessoas, coisa que uma ação como o panelaço é incapaz de fazer, assim como não é uma manifestação para a qual tem que se pedir autorização para a sua realização. O momento é propício para as pessoas estabelecerem elos comunitários. Isso, claro, se agirmos para que isso ocorra. Costumamos prestar atenção nos sintomas da Covid-19. É importante, mas o que deveria ser mais importante neste momento é compreendermos que nós, enquanto seres sociais, também somos sintomas dum regime de organização social. O egoísmo que presenciamos no início da quarentena não faz parte duma natureza humana, mas dum regime de organização social que afirma não haver mais sociedade, como disse Thatcher. A experimentação mesma do luto é algo que temos cada vez menos experimentado. O velório, que seria o momento da despedida, da ruptura do cotidiano, teve seu tempo encurtado. Depois do sepultamento, uma voz insurge dizendo “a vida deve seguir”. Mas, seguir para onde? Para a rotina asfixiante de trabalho? O que pode decorrer do luto não consumado? O que significa viver depois disso? É como se fosse realizada uma raspagem dentro de nós, extraindo de nós parte do que nos constitui enquanto seres humanos.

As estatísticas sobre os casos de Covid-19 ajudam a criar uma atmosfera assustadora. Isso é possível porque elas passam o falso senso de igualdade. Estatísticas não passam de números. Números não passam de abstrações. O que há de concreto é ignorado: a que grupo social a pessoa infectada pertencia? Houve atendimento? Como se deu o atendimento? Qual foi o tempo de espera? A pessoa conseguiu se deslocar até alguma unidade hospitalar? Além disso, como que a OMS lida com a sua recomendação de lavar as mãos e beber água com certa frequência, quando tivemos um caso de envenenamento das águas no início deste ano no Rio de Janeiro, resultando em esgoto saindo pelas torneiras de nossas cozinhas? A falta de saneamento básico será compreendida como auxiliar no processo de disseminação do vírus, ou a classe trabalhadora será culpabilizada pelas desgraças que sofre? Há tempos o governo brasileiro conhece bem a higiene, ou melhor dizendo, o higienismo: lava as mãos para problemas sociais, hidrata-se do suor do nosso trabalho, evita aglomerações criminalizando manifestações e organizações revolucionárias, realiza exercícios com intervenções da polícia militar em favelas e comunidades. Deixemos de ingenuidade! Não há excelência no atendimento médico capaz de exercer influência sobre a fome, a ignorância, o alcoolismo, a violência, todas indicadoras duma desagregação social profunda, como diria Jayme Landmann. O problema se encontra para além dos leitos disponíveis, cuja ênfase diz mais sobre o caráter individualista do complexo médico-industrial.

Bolsonaro, entretanto, não faz coisa alguma sozinho – sua incapacidade mesma de esboçar alguma coisa qualquer consistente é prova disso. Ele não chegou à presidência sozinho. Não é como os vídeos que constam no YouTube dum primitivista construindo uma casa sozinho, que serve pra alimentar a fantasia burguesa do sobrevivencialismo. Ele é o sintoma dum reacionarismo que há tempos vinha se consolidando no Brasil. Mas não foi apenas a direita que agiu dessa maneira. Do lado da esquerda liberal observamos algo como um moralismo progressista, o qual está fortemente alinhado com o chamado identitarismo e o politicamente correto. Não foram poucas as vezes em que vimos pessoas sendo “canceladas” por comentários seus. Claro, não se trata de aliviar a barra para fascistas – esses possuem o direito natural de respirarem terra –, mas compreender como que, em alguma medida, a esquerda liberal ajudou na fermentação disso tudo. A teoria queer e o feminismo radical, que deveriam consistir em críticas impiedosas das relações de poder, de exposição da historicidade de cada relação de poder, do sujeito, se tornaram, no contexto brasileiro, máquinas respiratórias do moralismo. O primeiro se tornou sinônimo de naturalização da homossexualidade, ao passo que o segundo, longe de realizar uma crítica da categoria social “mulher”, simplesmente a naturalizou e se converteu – dado o caráter religioso – num movimento feminino de direita. Aqui e ali ouvimos alguém dizer “eu faço isso e não deixo de ser homem”, como se deixar de ser “homem” fosse algo negativo. Dentro mesmo dos movimentos sociais de grupos minoritários observamos processos de rebatimentos, ou seja, normação e normalização de dissidentes sexuais e raciais. Há algumas semanas tínhamos a esquerda liberal afirmando que ficar em quarentena é privilégio, naturalizando assim a miséria. Mas o moralismo progressista não se reduz à esquerda liberal. Ele também está presente nas organizações de inspiração bolchevique – que se dizem revolucionárias –, as quais têm ganhado cada vez mais adeptos, com a figura de Stalin surgindo aqui e acolá. Essas mesmas organizações atacam organizações revolucionárias, como o anarquismo e o comunismo de conselhos. Se o cenário atual dependesse apenas dos liberais, com certeza estaríamos numa situação melhor, dado que não há um teórico liberal competente no Brasil. Pelo contrário, foi com o auxílio, como diria João Silvério Trevisan, dessa “esquerda que cheira a mofo”, que afundamos no lodo.

Como não falar da circulação de informação sobre cada passo do governo Bolsonaro nas redes sociais? Há uma caralhada de notificações no feed de notícias do Facebook com conteúdos referentes ao governo Bolsonaro. Se é adequado o que disse François Truffaut, que o cinema antiguerra provoca um fascínio maior na guerra, o mesmo poderíamos dizer sobre o fascínio em torno do decrépito que a veiculação de conteúdos referentes a ele provoca. Quando compartilhamos um link com alguma coisa estúpida que ele tenha dito acompanhado dum textão, mesmo que consistentemente argumentativo, não importa para os algoritmos. O que importa é que você compartilhou um conteúdo referente ao Bolsonaro. Você provavelmente compartilha mais notícias sobre o Bolsonaro do que aprende sobre as lutas de resistência pelo mundo. Não me surpreende que uma alternativa ao regime de organização social vigente pareça improvável. Se impossível, é precisamente ela que reivindicaremos. A história se encontra em aberto. O que estamos fazendo?

Virá o PT em 2022 com sua democracia liberal e nós a engoliremos como um comprimido amargo criado pela indústria farmacêutica? Ou às sombras se movimenta a institucionalização dum golpe, liderado pelos militares, que terá sua afirmação quando Mourão assumir assim que Bolsonaro cair? Bolsonaro/Mourão ou PT, moralismo reacionário ou moralismo progressista, o que ambos farão ao assumirem o governo será semelhante, dando continuidade a uma política de morte. É duma revolução social que precisamos. Retomo o questionamento: o que estamos fazendo?

Texto de Inaê Diana Ashokasundari Shravya.

Inaê Diana Ashokasundari Shravya desenvolve uma reflexão em seu texto para defender que o moralismo liberal e o moralismo progressista são faces da mesma moeda e que uma possível saída é a revolução social.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s