Carta para minha analista

Para ***** ******* ******.

Escrevendo agora, poucos minutos depois da sessão-em-messenger. Angustiada. Preparei o Word; times new roman tamanho 12; justificado, espaçamento simples, parágrafos colados um no outro. Não dá pra usar Word sem preparar; faço isso desde que comecei a usar Windows 7, uns três anos atrás. Fiquei até o final de 2016 usando o XP; era uma excentricidade diante de algumas pessoas. Percebi que deixei sem espaçamento na primeira linha; foda-se. A falta de ritual: acordar olhando o horário; tomar banho; ir a pé, faça chuva ou sol porque me nego a pegar ônibus pra descer no terminal central, que é uma caminhada de só 15/20 minutos; passar pelo controle do prédio, subir o elevador, caminhar até a porta; tomar o copo de água fria (exceto em dias muito calores em que tinha que pegar a gelada); et voilà! Depois de feita a sessão, estar na av. Getúlio Vargas e blá-blá-blá. O ponto é: pra onde ir? Depois da última sessão, gastei indo pra faculdade e depois trabalhando; era meu segundo dia no bar. Essa merda de pandemia fodeu até o emprego que tinha acabado de arrumar. Nesse dia flertei dum jeito divertido cuma mina no final do expediente, quero nem contar aqui pra não estragar.

Puta que pariu! agora se tornou insuportável dum jeito sem precedentes ficar presa em casa. Agora há pouco comentei num post do Facebook que dizia que “Não estamos presos em casa, estamos a salvo em casa”, só comentei “estamos presas também, o bagulho não tem dimensão única; são bem mais que duas, na real”.

Interrompo a escrita. Cago. Tomo um banho pra refrescar.

Retomo. Antes disso, antes de pensar em retomar, coloco pra tocar a versão da Patti Smith de “Pastime Paradise”; só porque me pareceu agradável.

“They’ve been spending most their lives

Living in a pastime paradise

They’ve been spending most their lives

Living in a pastime paradise

They’ve been wasting most their time

Glorifying days long gone behind

They’ve been wasting most their days

In remembrance of ignorance oldest praise (…)”

Lembro de estar cantando ela sozinha na praça Tiradentes em Ouro Preto. Não poderia ser mais irônico.

“Tell me who of them will come to be

How many of them are you and me

Dissipation

Race Relations

Consolation

Segregation

Dispensation

Isolation

Exploitation

Mutilation

Mutations

Miscreation

Confirmation… to the evils of the world (…)”

Escrevi esses dias no Twitter que era uma espécie de sarcasmo da história a destruição de Mariana; o neocolonialismo das mineradoras destruindo uma marca histórica do passado colonial. Nesse dia, em Ouro Preto, tinha acabado de almoçar, estava sozinha. Foi ímpar estar cantando essa música nesse lugar. Mas naquele momento ela me remetia a outra coisa; a letra me aparecia como sobre a superação do niilismo reativo, übermensch mesmo. Seja uma utopia do passado ou do futuro; foda-se, porque o devir é intempestivo. Faz todo sentido em vista do processo de desterritorialização que eu tava; e da polissemia que a música permite.

“A desterritorialização mais difícil é a que se faz sem sair do lugar.” De fato. E só a clínica-messenger pra me possibilitar isso. Estava num processo de reterritorialização estigmática nos meus 17/18 anos. Agora desterritorializada. Fiquei meio desesperada, de início. Desterritorialização em enclausuramento. Linha de fuga que se produz frustradamente mas continua fugindo; não se sabe pra onde. Meus primeiros pensamentos foram de que “não há potência alguma em viver assim”. É apenas o entristecimento e a instauração do neofascismo que o neoliberalismo já começara a instituir décadas atrás. Em primeiro lugar, o orgulho careta de achar que a deliberação individual de ficar em casa vai impedir a proliferação da pandemia; interiorização da disciplina, a subjetividade policial. Segundo, a rede discursiva que prolifera esse tipo de prática; molaridade digital. Em terceiro, a construção do estado policial; molaridade material. Três níveis de controle. Parece que estamos vivenciando a morte do neoliberalismo. Foi rápido hein? tão jovem. Nada mais justo que o modo de governo que torna as coisas tão rápidas morrer jovem. Live Fast, Die Young; esse o lema do neoliberalismo. Cultura fitness nunca passou de uma expressão cínica disso. Chegou o momento de fortalecimento dos Estados. E a segmentarização molecular desse estado de polícia em contraste com o culto ingênuo ao Estado são amedrontadores. O Estado não deixou de ser o balcão de negócios da burguesia; muito menos no terceiro mundo. Bolsonaro é a encarnação iconográfica da frustração edipiana que a minha geração tem (Clube da Luta estava certo); em certo sentido, as políticas sociais desempenham uma significação paternalista. Todos aqueles jovens anseiam diariamente o parricídio molar; isso é evidente nos memes. Isso denota muito bem a segmentaridade binária que o bolsonarismo estabelece: relação libidinal negativa e relação libidinal positiva (no caso dos bolsomínions). Nada mais eficiente do que criar duas massas para brigarem entre si, quando o inimigo continua sendo o capitalismo e seus segmentos locais (bio, necropolítica).

“They’ve been spending most their lives

Living in a future paradise

They’ve been spending most their lives

Living in a future paradise

They’ve been looking in their minds

For the day that sorrows gone from time

They keep telling of the day

When the Savior of love will come to stay”

Estão todos vivendo na promessa. Não do paraíso transcendente, mas do mundo de um mês atrás. Como se o passado tivesse futuro.

“Tell me who of them will come to be

How many of them are you and me

Proclamation

Of Race Relations

Consolation

Integretion

Verification

Of Revelations

Acclamation

World Salvation

Vibrations

Stimulation

Confirmation… to the peace of the world”

Esperando a vacina; esperando os bares, os corpos das amigas; a vida como era. O capitalismo pra se recuperar duma crise cria novas formas de governo, e nada indica que a próxima será menos autoritária. As pessoas têm uma visão ingênua do que seja autoritarismo, austeridade; acham que se limita a um policial apontando uma arma na sua cabeça dizendo pra encostar na parede ou um ditador caricato (todos são) proclamando um futuro racista e misógino. Claro, porque é muito mais fácil ignorar o fascista que fizeram de nós. O autoritarismo porvir será o mais eficiente de todos; sentiremos uma puta falta do neoliberalismo.

Ouço “Pastime Paradise” pela terceira vez desde que retomei a escrita.

“Let’s start living our lives

Living for the future paradise

Praise to our lives

Living for the future paradise

Shame to anyones lives

Living in the pastime paradise”

6 de abril de 2020.

Ana Terra

Texto publicado sob pseudônimo a pedido do/a autor/a. Ana Terra é colaboradora do Resista!

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