Covid-19 e futuridade

A minha teimosia em bater na tecla do forte componente de classe e racista da forma social da SRAG (Covid-19) no contexto brasileiro não é à toa.

Na terça-feira passada, 5 de maio de 2020, a Folha de S.Paulo emitiu uma matéria com o seguinte título: “Pico de Covid-19 nas classes altas já passou; o desafio é que o Brasil tem muita favela, diz presidente da XP”. Nessa matéria, o presidente e fundador da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, diz que o Brasil está indo bem no controle do novo coronavírus, reiterando que o pico da doença nas classes altas já passou. Nas palavras do mesmo,

Acompanhando um pouco os nossos números, eu diria que o Brasil está indo bem. Nossas curvas não estão tão exponenciais ainda, a gente vem conseguindo achatar. Teremos uma fotografia mais clara nas próximas duas ou três semanas. O pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta. O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo.

O Brasil somava 107.780 registros da doença e 7.321 mortes, segundo os dados do Ministério da Saúde divulgados na segunda-feira, 4 de maio.

Pode-se deduzir da fala de Benchimol que o que ele compreende como “Brasil” é uma classe econômica específica, que não é a dos trabalhadores e trabalhadoras, mas dos proprietários dos meios de produção, latifundiários. “Nossas curvas não estão tão exponenciais ainda, a gente vem conseguindo achatar. O pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta.” Esse enunciado evidencia que para ele a divisão de classe deve ser levada em conta. Oras! Se “todos somos cidadãos brasileiros”, por que não considerar também a classe trabalhadora? Ocorre que o “Brasil” é um projeto político iniciado em 1500, para o qual não passamos de instrumentos que podem ser descartados a qualquer momento. Não deixamos de ser uma colônia de exploração, assim como a democracia racial trata-se duma farsa. Populações nativas e africanas sofreram um processo de escravização que reverbera até hoje psicossomaticamente. As populações africanas, além de terem sofrido escravização, foram arrancadas de seu território, implicando, sem sombra de dúvidas, na perda de memórias afetivas referentes ao local de nascimento e elos comunitários que foram desmantelados, ocasionando traumas. Até hoje se pode observar isso quando levamos em conta as remoções e desalojamentos de famílias, predominantemente de favelas e comunidades, predominantemente pretas e pobres. Os nativos, até hoje, não possuem sequer o direito à terra, por mais que estivessem antes neste território que hoje se designa “Brasil”. O desterramento, aliás, é um fenômeno político que ocorre com frequência por aqui, resultando em processos migratórios forçados. “O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo”. Perceba, há uma inversão aqui. Comunidades e favelas não são o que dificulta o processo todo, mas sim a carência no acesso aos direitos básicos nessas localidades. As pessoas não constroem casas pequenas, com pouca ventilação e sem abastecimento d’água, por preguiça ou porque gostam da imundície. Elas não vivem à beira de córregos e esgotos a céu aberto por uma questão de gosto pessoal ou porque se depararam com esses modelos de casa em revistas de arquitetura e urbanismo, mas sim por não terem onde cair. Se fizéssemos um levantamento historiográfico do surgimento das favelas, sem sombra de dúvida compreenderíamos que não são bem elas que dificultam o processo todo, mas o próprio Estado. Aliás, aproveitando a deixa sobre arquitetura e urbanismo, a fala de Benchimol não me soa tão inocente se levarmos em conta que o Urban Operations, um projeto da OTAN para a contenção do processo de favelização do primeiro mundo camuflado de reforma urbana, tem como ano de sua realização o de 2020. Tal reforma implicaria na presença de militares nas ruas – UPP e intervenções militares em favelas e comunidades nos anos anteriores parecem familiar? E os mais de 80 tiros disparados contra um carro numa favela? –, assim como em reformas arquitetônicas nos centros urbanos. Ocorre que a arquitetura não é meramente arquitetura, uma projeção de edifícios, mas, como diz Preciado, “é política. É ela que organiza as práticas e as qualifica: públicas ou privadas, institucionais ou domésticas, sociais ou íntimas”. A gestão do espaço é também uma gestão dos corpos. E onde se realizaria esse projeto da OTAN? No seu laboratório preferido: o Rio de Janeiro.

Para quem tem memória fraca, isso não seria nenhuma novidade no Rio de Janeiro. A reforma urbana entre 1902 e 1906, que tencionou inserir a cidade na modernidade, equiparando-a a capitais da Europa – como Paris – e modificando a memória do passado escravista, através do novo aspecto das regiões central e portuária da cidade num esforço conjunto entre os governos federal e municipal, é um bom exemplo. A reforma impactou nos símbolos tangíveis da memória da escravidão, assim como também implicou em estratégias de controle social, em especial da população negra da cidade[i]. Uma coisa que aprendi com o afrofuturismo é que o futuro não é algo porvir, mas sim algo que já se encontra inscrito no presente, inscrição essa que podemos designar “futuridade”. É potencializando ou despotencializando as futuridades inscritas no presente que edificamos um futuro. Eu costumo dizer que o Museu do Amanhã representa a tentativa de aniquilar os elementos de futuridade contidos nesses espaços. O movimento neopentecostal sabe muito bem como manejar essas futuridades, o que não surpreende o fato de ele ter se inserido nas populações carentes. Quando falamos de reformas urbanas como igualmente uma reforma política e uma gestão dos corpos, como podemos observar de Pereira Passos ao projeto Porto Maravilha, o que queremos dizer é que há um projeto de racialização do futuro a partir da tentativa incessante de aniquilar memórias referentes às populações pretas e pobres. As subnotificações referentes aos casos de Covid-19 que temos presenciado não são falhas ou despreparo, assim como não o são as ações da PM. Engana-se quem confia nas instituições aparelhadas ao Estado. Acredite, não faltará leitos para as elites. A fala de Benchimol deixa claro que, se as elites não tivessem sido infectadas pelo novo coronavírus, provavelmente não teríamos qualquer tipo de “preocupação” por parte do Estado com as populações que compõem a classe trabalhadora. Os primeiros casos de Covid-19 no Brasil ocorreram entre famílias de alto poder aquisitivo. O primeiro caso duma pessoa da classe trabalhadora com Covid-19 foi o de uma empregada doméstica obrigada a trabalhar pelos patrões que estavam infectados com a doença. Ela morreu, os patrões estão vivos. Os números passam uma falsa sensação de igualdade. Não estamos indo bem. Não estamos indo bem desde 1500. Tenha honestidade com você mesma/o e responda: quando é que você esteve realmente bem?

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

[i] Aconselho a leitura do artigo “A reforma Pereira Passos (1902 -1906), a memória da escravidão e algumas implicações sociais e raciais”, da Vanessa de Araújo Andrade.

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