Breve comentário sobre os dois olhos da mesma serpente

É preciso ser muito, mas muito ingênuo – na melhor das hipóteses –, ou mesmo sofrer de alguma forma de demência vascular cerebral, para acreditar que o PT realizará algum tipo de mudança, ainda mais depois dos chamados “grandes eventos”, que implicaram o desalojo de mais de 70 mil famílias. Houve pessoas que se tornaram viciadas em crack e outros tipos de drogas pesadas por conta de quadros depressivos decorrentes do desalojo, o qual resultou em traumas e perda abrupta da memória afetiva relativa ao local de moradia. Todo um elo comunitário foi diluído friamente. Famílias foram desmanteladas a um só golpe. Tal ato de expurgo não poderia resultar num quadro positivo, a menos que se forcem os olhos para que tudo se embace e a vista fique completamente turva. Governo do povo? Que povo?

Fala-se tanto do sucateamento das universidades públicas, mas surpreendentemente se ignora o surgimento de programas como o FIES, que fomentou a criação de mais e mais unidades privadas de Ensino Superior, resultando em unidades da Estácio a cada esquina como os focos de dengue, que igualmente vêm aumentando. Ignora-se que a falta de investimento em pesquisas científicas não é recente, de dois anos para cá, mas se estende um pouco mais para trás, ainda no governo PT. Por que não abolir o vestibular e tornar o Ensino Superior em ensino continuado, sem que se precise realizar provas para ingressar na universidade pública? Por que não investir em universidades públicas? Por que não investir nas pesquisas científicas do país, que, apesar dos ataques que vêm sofrendo, se mantêm resistentes?

Achar que o governo Bolsonaro é o primeiro a implementar forças militares em favelas e comunidades é, no mínimo, absurdo. Já no governo PT nos deparávamos com ações do exército e da polícia militar que forçavam populações de favelas e comunidades a condições desumanas – isso para não falar da falta de saneamento básico e outros direitos básicos mais. Se você realmente acha que isso é novidade do governo Bolsonaro, é porque você nem se dava conta do que ocorria em favelas e comunidades, ou porque você só quis criar justificativas pra se opor ao governo Bolsonaro e reivindicar a volta do governo PT – o que não deixa de ser uma instrumentalização dessas formas de vida, atitude igualmente desumana.

Gritava-se até um tempo atrás “Lula livre”. Milhares de bocas exclamaram tal enunciado com toda a força contida nos pulmões para denunciar, publicamente e a todos os cantos, a “injusta prisão do ex-presidente Lula”. Entretanto, diante da prisão do companheiro Rafael Braga por portar pinho sol na mochila, o que se ouviu dessas mesmas bocas, o que se obteve de toda a força contida nesses mesmos pulmões, foi o silêncio, a expressão estapafúrdia da omissão. Não teria sido a sua prisão injusta? Não teriam sido injustas as milhares de prisões, predominantemente de homens pretos e pobres, que desde a criação da lei da vadiagem (1941) resultam numa superlotação carcerária?

O “antipetismo” serviu de promoção do PT, que se colocou como vítima, quando as verdadeiras vítimas são aquelas que compõem a classe trabalhadora e as minorias – muitas compondo os chamados exército de reserva, sendo, portanto, parte da classe trabalhadora. Vítimas, não vitimistas. Não foram poucas as organizações, assim como manifestações, de esquerda que foram criminalizadas pelo governo PT.

Dizer isso não significa que eu apoie o governo Bolsonaro, para o qual a maioria das pessoas que são classificadas como “amigos” no meu perfil pessoal realiza publicidade gratuita, aumentando sua popularidade através de milhares de conteúdos que tenham o nome “Bolsonaro” como palavra-chave que lotam a porra do feed de notícias. Eu me oponho radicalmente ao governo Bolsonaro, sem recorrer a personalismos – como o “bolsonarismo” – para explicar o atual governo, o que me leva, inclusive, a evitar a ingenuidade de designar “desgoverno” ao governo Bolsonaro – como se as democracias liberais não precisassem de governos fascistas para se afirmarem! O governo Bolsonaro é a continuação do neoliberalismo que há décadas foi implementado no Brasil, o mesmo neoliberalismo que o governo PT, mais especificamente o Lula, disse que manteria. Se fôssemos levantar uma genealogia do governo Bolsonaro, encontraríamos no governo PT semelhanças. É preciso acabar com essa falsa polarização PT-Bolsonaro (há alguns anos era o PMDB que ocupava essa posição, não?), configurarmos um novo cenário, e, para isso, é de suma importância que conheçamos as lutas de resistência ao Estado que as organizações em favelas e comunidades, assim como no campo, vêm realizando. Showmício não é luta. Votar em candidato conciliador não é luta. Vestir camisa com o rosto do Lula não é luta.

Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

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