Assim nos riscam do mapa

A forma como as mídias têm tratado supostos descasos de indivíduos com relação à Covid-19 e sua proliferação é, de certa maneira, preocupante. Melhor dizendo, não propriamente a forma, mas os efeitos que dela podem surgir. Digo “supostos descasos de indivíduos” no intuito de evitar a individualização de problemas que são sociais. O papel da mídia é informar. Contudo, como se encontra dentro duma lógica de mercado, as mídias vendem informações, não importando a que área esta se refira. Lógica de mercado essa que favorecerá uma determinada classe. Não obstante, essa mesma mídia também se encontra inserida num sistema social racista, o que implica na confecção duma imagem que preza posições sociais racializadas, como se pode observar em matérias que se referem a indivíduos que realizaram um furto como “bandido”, ao passo que indivíduos da elite que realizam inúmeras ilegalidades são designados com certa suavidade.

Vivemos numa sociedade de risco. Isso significa que o tempo inteiro temos que lidar com situações de risco, as quais são reforçadas por cálculos e probabilidades. Dessa forma, o futuro se torna previsível em alguma medida. Essas situações de risco, entretanto, nem sempre são reais, mas politicamente orientadas. No início da quarentena especulava-se que, se mantivéssemos a quarentena, teríamos um achatamento no número de casos de Covid-19, e, consequentemente, o sistema de saúde não entraria em colapso. A realidade concreta, entretanto, apresenta-se de outra forma: a quarentena é necessária, mas de modo algum suficiente. O motivo? Milhares de pessoas no contexto brasileiro não têm acesso aos direitos básicos do cidadão, como o saneamento básico, a moradia, o direito de ir e vir, e por aí vai. Dizer “fique em casa” fica parecendo que a quarentena é suficiente para lidar com o problema, que é social. A quarentena é incapaz de solucionar problemas que vínhamos encarando há anos, como o alto índice de pesticidas nos alimentos que consumimos, a ponto de não haver tanta diferença assim entre os chamados “alimentos orgânicos” e sanduíches de fastfood. A quarentena é incapaz de tirar da beira da miséria milhares de brasileiros e brasileiras. A quarentena é incapaz de conceder a milhares de brasileiros e brasileiras o direito a terra, como ocorre com populações nativas, quilombolas e calons. A quarentena é incapaz de prover uma casa às milhares de pessoas que foram desalojadas pelo governo brasileiro. A quarentena, cabe ressaltar, também não é um privilégio.

A mídia opera de forma a culpabilizar e discriminar indivíduos e grupos. Aparentemente, os problemas sociais entraram em quarentena. Falar sobre o indivíduo que não sabe usar uma máscara, sobre aglomerações em filas enormes quando a recomendação é que se evitem aglomerações, não é nada além de conveniente. Atende aos preceitos da sociedade de risco na qual vivemos. Aqui e ali já surgem pessoas reivindicando monitoramento e intervenção policial em bairros compostos majoritariamente por população carente.

A forma como as pessoas se comportam com referência à saúde também recebe influência das notícias de jornal, já que estas produzem sentido, e as notícias de jornal são também o reflexo das expectativas que as pessoas têm a respeito da saúde, como afirmam Edlaine Faria e Marco Antônio num artigo sobre as representações sociais sobre a dengue. Não seria diferente na forma como as pessoas lidam umas com as outras. Esse tipo de notícia serve para notificar um inimigo, que é o cidadão que permanece frequentando aglomerações quando o recomendado é que sejam evitadas. As estatísticas, como já afirmei num outro texto, nos dão a falsa sensação de igualdade. Realmente achamos que todas as outras pessoas dispõem das mesmas possibilidades que nós. Não é por menos; afinal de contas, é exatamente para isso que servem as estatísticas que vemos nas notícias. O que há por trás de mais de mil casos de óbito? Não teriam essas pessoas uma história? Óbito ou assassinato, se levarmos em conta a omissão do Estado? São destituídas de nome e história não só na sua transformação em número, como também na forma como são sepultadas. Por acaso uma pessoa da elite será sepultada da mesma forma, com a alegação de que é para evitar contaminação? Seria também o seu corpo tornado cinzas? Seria o seu corpo misturado aos demais, ou seria selecionado, tratado com particularidade?

A tríade epidemiológica (agente, hospedeiro, ambiente) é completamente ignorada pelos jornais. O contexto social é de suma importância para se compreender como que uma doença se prolifera, quais as suas condições de possibilidade. Os estudos biológicos são importantes, mas insuficientes, se não complementados com os estudos sociais. E se ouvíssemos cada uma dessas pessoas que estão sendo culpabilizadas e discriminadas? O que teriam elas a nos dizer? As poucas com quem tive a oportunidade de conversar me disseram que não têm escolha; ou ficam na fila esperando pagamento – que é muito, mas muito pouco – do auxílio emergencial – que muitos não conseguiram, como é o meu caso – ou ficam dentro de casa e morrem por desnutrição. As contas não deixam de chegar, além de que muitas dessas pessoas sequer têm acesso à internet, algo que para muitas pessoas parece improvável, mas não é.

A situação talvez fosse pior se movimentos sociais em favelas e comunidades não realizassem arrecadação de doações para montar cestas básicas que são entregues a moradores das respectivas localidades. Mais uma vez nos deparamos com os jornais ignorando completamente ações sociais que evidenciam o elo comunitário mesmo numa sociedade individualista em prol do sensacionalismo: comunica-se que traficantes têm promovido toque de recolher, o que supostamente estaria garantindo a realização da quarentena em favelas e comunidades em alguma medida.

Parte da minha infância foi me alimentando com os restos de restaurante que um amigo do meu pai trazia num saco preto de lixo. Às vezes comíamos açúcar, pois era a única coisa que não precisávamos cozinhar e nós não tínhamos fogão, tampouco gás. Para o IBGE não éramos tão pobres, pois tínhamos uma televisão em casa. O meu pai não havia comprado essa televisão. Ele sabia consertar equipamentos eletrônicos – aprendeu com umas revistas de ensino a distância –, a televisão havia sido encontrada no lixo. Às vezes roíamos osso literalmente. Às vezes comia linguiça no mercado, pois não teria como comer em casa.

Os meus pais não chegaram sequer a cursar o Ensino Médio. Meu pai às vezes gaguejava quando tinha que ler algo em voz alta dentro de casa, por conta do constrangimento que sentia. Minha mãe acreditava que um dia deus lhe daria uma casa. Meu pai, um terreno. Algumas vezes, quando criança, torcia para que a pessoa que a minha mãe havia visitado insistisse que eu aceitasse o que ela estava oferecendo, um prato de comida. Minha mãe dizia que aceitar de cara é feio. A barriga dizia o contrário com um ronco que eu segurava contraindo a barriga.

Não atendíamos o cara da Light para que a luz não fosse cortada. O IBGE nunca entrou no nosso apartamento, um apartamento alugado em Coelho Neto, daqueles com imagem de santa em azulejo. Uma única televisão apaziguava os problemas existentes. Minha mãe, uma senhora de mais de 60 anos, hipertensa, diabética, que hoje em dia tem seu caminhar bem lento por conta dos agravamentos da saúde, permaneceu trabalhando vendendo doce durante parte da quarentena. Meu pai, com a sua bicicleta, não agiu diferente. Eles não têm sequer onde cair mortos, assim como não tiveram seus antepassados, sobre os quais eles sequer sabem um pouco que seja. Não se lembram sequer onde seus pais foram sepultados. Sabem que foi num gavetão.

Milhares de outras famílias passam por situação semelhante. Todas elas sofrem discriminação diariamente e, apesar do enorme esforço delas, a tal da meritocracia nunca lhes bateu à porta. A maioria dessas famílias tem seus parentes sepultados em covas de indigente por não terem sequer como pagar um sepultamento. Para muitas pessoas o novo coronavírus é um problema menos real, menos presente em suas vidas, que o iminente desemprego, a fome, a violência da polícia, a discriminação. Tornamo-nos um risco quando assim determina o sistema social dominante, quando é este mesmo sistema social o maior risco não só para nós, mas para todo o planeta.

Não é lá muito diferente a denúncia anônima de aglomeração de pessoas para o número 1746 e a contribuição de cidadãos comuns à Gestapo, que só teve eficiência no controle durante o regime nazista graças às pessoas que realizavam denúncias de vizinhos, se pararmos pra pensar um pouquinho. Muitas denúncias eram motivadas por antissemitismo. Não suficiente esse absurdo, também surgiam denúncias que operavam como resolução de desavenças pessoais, chegando ao ponto de ex-amantes serem denunciados. Cria-se assim um clima de terror e paranoia, com a população dividida em denunciantes e potenciais denunciados.

Este texto não se trata duma defesa das pessoas que permanecem frequentando aglomerações. Tampouco um ataque a elas. Trata-se duma reflexão para que saiamos dos gestos fáceis demais. Se todos e todas tivéssemos os direitos básicos garantidos, sem sombra de dúvidas não estaríamos lidando com o colapso do sistema de saúde. Também não estaríamos (sobre)vivendo no capitalismo, o que provavelmente implicaria que não estivéssemos lidando com algo como o novo coronavírus.

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

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