Vivi o mundo tal como ele vem sendo

Saí em direção ao centro da cidade. Subindo o viaduto, vi ao longe, vindo em minha direção, uma menina toda de preto, máscara camiseta e calça rasgada – e o cabelo curto-liso meio arrepiado –, passeando cum cachorrinho. Ao nos aproximarmos, dirigi o olhar ao cachorrinho, e, ao subir a cabeça, cruzamos os olhares, de modo que fiquei sob seu regard. Ao chegar na praça do fórum, fumando e tremendo de medo de ser infectada, vislumbrei que o que sentia dizia respeito a eu não viver submetida cotidianamente ao contágio; minha ansiedade era porque vivia longe da necessidade de banalizar isso tudo. No banco da praça, passa um casal gay, e cruzo o olhar cum deles. Nesse caso é diferente, estava diante de um olhar – não um regard que me leva a descer ao chão e me arrastar de quatro, seja como um animal ou como uma puta submissa; por mais “queer” que o casal fosse, só um olhar feminino exerce um regard sobre mim; não era “mulher” o bastante. Passados os dois, penso “go home”, e saio andando. Comecei a andar, sem saber pra onde ia; finalmente me senti livre. Caminhava como o personagem do Sonhos na Casa da Bruxa, do Lovecraft (conto que, como a maioria dos que já comecei do autor, não consegui terminar), em que ele começa a andar guiado por uma força desconhecida, sem saber ao certo para onde – mas seguindo um sentido cardial (nessa altura do conto, larguei a leitura e nunca mais retornei). Mas ao contrário da perturbação lovecraftiana, essa caminhada me foi, ah… (na falta de palavra melhor) sublime. Acabei passando na porta do condomínio onde morava uma ex-amiga; no último quarteirão antes de chegar na av. Rondon Pacheco (todas as principais avenidas têm nome de fascistas, se prestássemos atenção nessas coisas ficaríamos menos incrédulas diante de tudo o que vem acontecendo); a descida é tão íngreme que, pela fragilidade de meu joelho, pensei que poderia sair rolando a qualquer momento até cair no meio da avenida (e eventualmente ser atropelada); em Ouro Preto estava cuma saúde melhor. Saí andando por uns quarteirões na grande via e trombei cum conhecido que estava correndo e sem máscara. Fui acometida pela paranoia de que alguém poderia me fotografar e postar nesses perfis ridículos do Twitter que pretendem “expor pessoas que furaram a quarentena”. E pensei que teria que me justificar a um monte de pessoas desconhecidas acerca da necessidade psicossomática (ou imanente, ainda prefiro pensar com Espinoza: de se inserir num plano de encontros de modo a se compor nele) da flanagem. Continuam achando que a deliberação individual tem alguma grande implicação política; vi centenas de pessoas lotando as ruas pela simples necessidade de pôr comida na mesa. Dado o estado de exceção, não é precoce afirmar que está havendo um genocídio (uma vez que a maioria das pessoas de classe trabalhadora é negra; pra não falar ainda dos povos indígenas), afinal, eugenia nunca foi algo próprio da Alemanha nazista; só não sabemos o tom que isso tem no contexto presente. E se identificando como “de esquerda” ou o que seja, continuam tendo um raciocínio conservador-liberal-etc. que supõe que na atitude individual, na “cidadania”, há uma responsabilidade que contemple o universal. Bullshit. Numa sociedade de massas não existe nem nunca existiu individualidade a não ser a nível abstrato. Se aprendi algo nessa caminhada é que, neste momento histórico – nesse âmbito é precoce afirmar qual dimensão temporal irá atingir – qualquer relação, mesmo que nos novos paradigmas de cuidado, tem como pressuposto o risco, claramente, em grau substancialmente menor no que diz respeito a pessoas de classe-média pra cima. Tudo o que fazemos de fora da semimônada da residência privada implica substancial e necessariamente em risco. Precisamos aprender a viver com isso; e aprender a fazer do risco uma ferramenta política de resistência: não sabemos como ainda, mas sem nos apropriar, deslocar e desfigurar uma condição necrobioexistencialpolítica de tal dimensão, não conseguiremos sobreviver. Sei que pela primeira vez, em um bom tempo, estou me sentindo viva; por pouco tempo que tenha sido, saí da tela das redes-sociais e das páginas de meus livros e vivi o mundo tal como ele vem sendo.

Crônica de 16/06/2020

Ana Terra Abrahão é colaboradora do Resista!

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