Manifesto vegapunk

Não se nasce carnívoro, torna-se.

O consumo de carne encontra-se atrelado a uma narrativa alimentar hegemônica, a qual se sustenta num discurso médico que patologiza, anormaliza o veganismo e dietas alimentares alternativas como provedoras de fragilidade do corpo, que deve ser produtivo (em termos capitalistas, decerto), o que será afetado por uma suposta anemia proveniente dessas alimentações alternativas. Diante da afirmação “eu sou vegan@”, irrompem inexplicavelmente todas as associações de nutricionistas que se pode imaginar para avaliar sua saúde, enquadrar-lhe clinicamente. Há sempre algum trauma por trás dessa escolha. Afinal de contas, quem nunca assistiu a um vídeo de estupro e massacre de animais em indústrias de carne marcado por um vermelho gritante? Não é irônico que mulheres sejam taxadas de “mal comidas” quando decidem não serem mais subalternas, pessoas trans são vistas como pessoas que “nasceram no corpo errado”, e homossexuais são vist@s como pessoas que sofreram algum tipo de abuso sexual na infância – e isso ocorre, de fato. Mas isso não é a causa da existência da homossexualidade.

O senso comum se trata de um programa preguiçoso (muito bem arquitetado, diga-se), de pouca capacidade de autocorreção, que opera segundo a economia cognitiva do menor esforço e maior adaptabilidade ao meio social vigente. Viver em convergência a determinadas leis prescritas pelas instituições, que fazem com que pareçam descritas de algo dado, se trata de um cumprimento de ordens, uma domesticação que precisa ser reforçada constantemente através de práticas de assujeitamento que fazem manutenção dos meios de produção desse meio social vigente. Assim sendo, o consumo de carne se trata de produto e processo de certo número de tecnologias sociais ou aparatos biomédicos.

Nada é dado, tudo é produzido. Com a alimentação de base onívora não se dá de forma diferente. A experimentação constante de determinada dieta, com o endossamento ininterrupto de que se trata da ordem da necessidade pelo discurso médico, produz o vício social do consumo de carne. O paladar se torna viciado. A naturalização de algo não seria mais do que a produção de um vício. A dependência do consumo de carne não difere do consumo de álcool, prozac, cafeína, anfetamina, cocaína, dipirona, sermões bíblicos, a crença na diferença sexual, na identidade nacional etc.

A alimentação vegana e outras alternativas, ou melhor dizendo, divergentes à narrativa alimentar hegemônica, pedem algo como uma disciplina revolucionária, ou seja, uma autodisciplina rigorosamente elaborada. Aderir a uma alimentação vegana trata-se, em certa medida, de romper com um processo de produção capitalista que se sustenta na exploração massiva de animais não-humanos. Deve-se tomar o cuidado, entretanto, para não sair de uma postura crítica diante do consumo de carne e da exploração animal, e se permitir conduzir por um “veganismo de bem-estar”, onde o capitalismo se reintroduz através do surgimento de empresas/marcas que produzem alimentos, roupas, dentre outras coisas, com o selo vegano. A exploração não desaparece, apenas se transmuta, se dá em termos mais sutis. Nesse caso, não se diferiria das políticas de reconhecimento que reiteram a posição de subalternos daqueles que reivindicam direitos à mesma instituição (Estado) que lhes nega esses mesmos direitos. É preciso uma ecologia sem natureza, um novo pensamento sobre a nossa estadia neste mundo que implique também uma descristianização, ou seja, que não nos rendamos à narrativa da redenção, do salvacionismo, do moralmente correto. Em resumo, não visamos de forma alguma nutrir sua dieta de fundamento gerontofóbico (aversão ao envelhecimento), tampouco uma concepção de saúde da ordem da paranoia, da seguridade neoliberal.

De igual forma não acreditamos na falácia “se é natural é bom”. A Natureza e a crença no “natural” também têm sido utilizadas para legitimar injustiças. O que se encontra em biomas/comunidades bióticas também pode fazer mal. A ideia de uma Natureza generosa se assemelha à iconografia da revista Sentinela, distribuída por Testemunhas de Jeová. Sacralizar a Natureza é afastá-la deste mundo, seu único mundo possível. A mamãe cadela não cuida de seus filhotes porque há algo de intrinsecamente bondoso na maternidade, e ela nem mesmo se designa como mãe. O incesto lhe é uma realidade, assim como foi entre nós, espécie humana, até a antropologia abominá-la. A mamãe cadela poderia devorar seus filhotes se quisesse, se a fome lhe batesse. O canibalismo entre muitos animais não-humanos é uma realidade. Aghori praticam canibalismo de cadáveres sem passar pelo fogo. Sua existência desafia o discurso médico sobre a Saúde. O ecossistema no qual estamos inserid@s é amoral, indiferente.

Afirmamos uma ecologia sem Natureza.

Não seguir a programação estabelecida se trata de uma tarefa difícil, e dolorosa até, concordamos. E dói exatamente por fazer com que nos voltemos aos nossos corpos, percebendo que todo esse tempo estivemos olhando para corpos refletidos no espelho farmacopornográfico, onde o sentimento de realização plena por pertencer a um grupo saudável em termos neoliberais, se torna algo próprio de um criptofascismo que atua de maneira micrológica entre as relações que estabelecemos com os demais sujeitos ao nosso redor. A dor, se entendermos de outra forma, se trata da percepção de um corpo, e um corpo no qual habitamos. A dor torna visível a nossa fragilidade e faz com que pensemos, ainda que por alguns instantes, nas incertezas da existência. Aliás, se existimos, é porque assim o dissemos.

Que o veganismo não se resuma meramente a liberar os animais não-humanos das jaulas dos zoológicos ou de nossos pratos, como também das jaulas humanistas, que, quando não os hierarquizam inferiormente, antropomorfizam alguns como medida de aceitabilidade, se trata de algo pelo qual lutamos, não nos rendendo jamais a uma militância sisuda e de fetiche militarista. O não-humano não é aceitável senão pelo processo de antropomorfização como domesticação. Não há libertação animal se alguns são tratados de forma agradável e simpática exatamente por sua domesticação, ao passo que outros são eliminados por serem considerados como pragas. Baratas, ratos, mosquitos, vermes, também são animais não-humanos. Um bebê da espécie humana parasita o organismo de seu(sua) progenitor(a) durante os nove meses de sua gestação; um adulto dessa mesma espécie devasta, consome, exerce o seu viver à custa de outrem, valora tudo ao seu redor à moda de moralidades; e ainda assim, medidas como o aborto, o antinatalismo, eutanásia, são tidas como apavorantes, absurdas. Bom, apavorantes e absurdas para alguns. A violência obstétrica, a esterilização compulsória de corpos negros e pobres também estão vinculadas à noção de humano. É preciso dizer: NÃO apoiamos nenhuma medida malthusiana de controle populacional. O problema da escassez se encontra no regime de organização social vigente, vulgo capitalismo, e não nas pessoas.

Buscamos revitalizar o veganismo à luz de novas formas de luta e resistência, não como cães que protegem o seu dono, e sim como ratos que avançam pelas bordas, entremeios. Buscamos explorar seu potencial e radicalizar suas possibilidades num devir-barata voadora. Insurgimos dos esgotos como Morlocks, ou melhor, insurgimos do esgotamento, esse afeto biopolítico que tem embrenhado cada vez mais as nossas relações, rebaixado a vida a um estado de lassidão profunda. Esgotamento esse que estilhaça o corpo. Por que considerar os estilhaços de um espelho como um espelho quebrado, quando podemos considerá-los como potências de múltiplos espelhos, faces de um poliedro desconcentrado? Assim, experimentamos um veganismo alegre. Não alegre como identidade rígida resultando duma hiperfelicidade hedonista ressonante de uma fábula hippie da paz como algo desejável, que busca qualquer traço mínimo de tristeza como alvo a ser eliminado com drones-comprimidos de sua agenda. A paz financia a guerra, e a guerra introjeta o desejo por paz. É em nome da paz que ocorrem as guerras. Não aderimos de maneira alguma a essa paranoia. Experimentamos o veganismo como uma terrível vontade de potência, uma máquina de produzir fatos. Não é de nosso desejo interpretar a realidade de outra forma, essa maneira moderna de crer e ser piedoso, e sim, experimentar novas realidades.

Ainda que se tratasse do consumo de carne algo proveniente de uma suposta “natureza humana” (risos), afirmaríamos prontamente: se a natureza é injusta, tratemos de mudá-la! Não admitimos as coisas como fixas, permanentes ou dadas – nem as condições materiais nem as formas sociais.

Consideramos a categoria “humano” como uma categoria somatopolítica, restrita e proveniente dessas mesmas tecnologias sociais e aparatos biomédicos que arquitetam o consumo de carne como inegavelmente necessário. Assim, partindo da perspectiva de que o “humano” se trata de uma categoria somatopolítica restrita a alguns, o humanismo como um sistema de aprisionamento, e nos apresentando como contrárixs a qualquer tipo de sistema de punição e busca de reconhecimento por parte das instituições, nos afirmamos abertamente como anti-humanistas. Não visamos ser alguém, obter reconhecimento, não possuímos necessidade de valer alguma coisa, e tampouco de exercermos autoridade. Visamos destruir, pôr abaixo, todos os muros em nós, entre nós, fantasmas de um Muro de Berlim que jamais caiu.

Que a liberdade seja partilhada, e não dividida; que a multidão dxs anormais insurja contra as instituições e não mais se assujeite à geografia do doméstico, e que se permitam selvagens; que não sejamos mais um só, mas vários lobos, várias abelhas; não cedamos a sonhos de um melhor, e sim, afirmemos modos diferentes de viver.

Não se nasce carnívoro, torna-se. Destarte, transtornemo-nos.

Se o veganismo cabe ao futuro, tratemos de extrapolar as futuridades contidas no presente!

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

Inaê Diana Ashokasundari Shravya apresenta seu “Manifesto vegapunk”.

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