Veja bem, companheiro

Diante de uma acusação ao companheiro Beltrame[i] de cometer racismo no Ato Antirracismo do dia 7 de junho, outro companheiro, mas também branco, lança a frase que toda vítima mais espera ouvir:

– Veja bem, companheiro, acho que você está confundindo as coisas…

A criação do(a) Outro(a) é uma técnica de grande peso ao Estado para manter – com o uso da força – poder, soberania e legitimidade sobre os corpos que não são determinados ao poder político-econômico-sexual. O Estado forja elementos persuasivos suficientes para determinar a supremacia do homem branco, viril, patrão, heterossexual; e, simultaneamente, cria os diversos Outros (o outro-negro, a outra-mulher, o outro-governado) que serão racializados como as bestas, as falhas, as histéricas, os engraçados. Como afirma Toni Morrison, “O estrangeiro não é o desconhecido, sim o aleatório”, ou seja, observa-se que não há factualidade no racismo – o racismo não se apresenta como fato –, ele é afirmado na ordinariedade por um processo arbitrário de criação do Outro.

Contudo, o poder – e a criação dos Outros – não está reservado apenas para aqueles que estão no Estado (os que governam). Há a complacência com aqueles que são nobres (brancos), mas pelos infortúnios da vida tiveram que viver como povo. Aimé Césaire, em seu livro Discurso sobre o colonialismo, apresenta que no meio do peito da razão europeia há um grande coração de mãe, onde “sempre cabe mais um”, para esses “nobres desclassados”. Citando o filósofo humanista Ernest Renan: “Todo rebelde é, mais ou menos, entre nós, um soldado que frustrou sua Vocação, um ser feito para a vida heroica, e que vós empregais para uma faina contrária à sua raça, mal operário, demasiado bom soldado.”[ii]

Como bem resgata Césaire, até para os militantes brancos que se indignam tem-se um espaço para exercer poder sobre os Outros. Nesse caso, uma organização anarquista poderia fazer “bom” uso da sua militância de homens brancos, heteros, intelectuais para construir arcabouços morais que os blindam de críticas e erros, pois estes têm as honras do direito à revolta.

Receber o caloroso “veja bem, companheiro” para justificar o ato racista me fez perceber que para essa organização a luta racial só se constrói nos exemplos superlativos do racismo (como diz Mulambo na música Luta por mim: “Nunca nem me ouviram, mesmo que eu gritasse, / mas agora que eu virei estatística / ‘Cês vão, usam meu nome e minha imagem / pa’ pedir pelo fim da polícia”). Para eles, o racismo é um fato que cabe muito bem nos espaços vazios dos seus panfletos e cartazes, mas na discussão do racismo como ideia que se afirma no cotidiano, eles estão muito distantes, ou cheios de ‘veja bem’, pois o racismo não afeta seus companheiros e companheiras (com práticas de) brancos. Será que é por isso que consigo ver o militante Beltrame com o “rabo entre as pernas” num ato de mulheres numa Candelária cheia de minas brancas, mas, com o neguinho, gosta de agir como poliça e baixa a ordem do “ponha-se no seu lugar”?

Fazendo um paralelo ao texto “Para acabar com o juízo de Deus”, de Antonin Artaud, podemos dizer que dois caminhos estavam diante do militante no breve momento em que a acusação ao Beltrame foi feita: o “infinito de fora e o ínfimo de dentro” –, mas este militante escolheu o ínfimo de dentro da burocrática organização anarquista, e as relações de empatia e solidariedade, ambas princípios libertários, foram transformadas em violência para manter o juízo de seus  Deuses brancos do anarquismo organizado(r).

Então, com a visceralidade do poeta, anarquista, teatrólogo e louco Artaud, decidimos mandar Deus à merda, e se ele não for, que ele não exista. Descemos dos lugares que esses Deuses do anarquismo organizado(r) acharam que nos tinham pregado bem e decidimos “Acabar com o JULGAMENTO DE DEUS”.

Yago Pena é militante negre, anarquista, estudante desempregade, mais um sobrevivente do subúrbio do Rio de Janeiro.

[i] A similaridade com o nome do ex-secretário de Segurança, que equipou ostensivamente a PM-RJ para pôr “neguinho no seu devido lugar”, seria mera coincidência cheia de ironia para se referir ao arrogante militante que gosta de distribuir esporros aos mortais não organizados na organização perfeita de militantes perfeitos. O nome é fictício.

[ii] Cf. CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobe o colonialismo. São Paulo: Letras Contemporâneas, 2010. p. 20.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s