Catmat e a escola necessária para nossos alunos

Dias atrás, Luana Tolentino me marcou em um post no Facebook. Tratava-se de uma publicação do Portal Mundo Negro sobre um canal no YouTube, o CatMat. Ele pertence à Catarina, uma menina de 12 anos, estudante do 7º ano, que ensina Matemática em seus vídeos. Tal iniciativa não é inédita na maior rede de compartilhamento de vídeos e o fato de termos crianças e adolescentes ensinando pela internet ilustra bem a relação que sonhamos entre os nossos alunos e os objetos de conhecimento.

Quando se afirma hoje que a escola não é um espaço de mera transmissão de informações, que a dicotomia professor-ativo/aluno-passivo não cabe mais no mundo para o qual a escola forma seus alunos, é uma espécie de chover no molhado. Afinal, inúmeros autores e pesquisadores debatem o assunto. Entretanto, sempre que alguém afirma que devemos engajar nossos alunos, em minha cabeça ainda persiste a pergunta: “como fazer?”.

Em muitos debates acerca da educação, percebe-se que um aspecto extremamente importante é colocado em terceiro ou quarto plano quando são sugeridas mudanças na forma como o processo de aprendizado é conduzido pelos professores: as vivências do professor, suas experiências dentro do ambiente escolar, que são muito anteriores a sua experiência enquanto docente. Como nós, professores, vamos preparar nossos alunos para serem protagonistas em um mundo cuja linguagem ainda é novidade para muitos de nós?

Catmat veio para mim como uma luz para essas perguntas que muitas vezes me tiram o sossego. Será que nós, professores, já não estamos alcançando alguns lugares importantes e ainda não tomamos ciência disso?

Quando um aluno vai para o YouTube ensinar Matemática e o faz bem, em um vídeo carregado de afeto, significados, fazendo uso de estratégias de ensino diversificadas, todos nós professores ganhamos. Catmat é o símbolo do sucesso da escola que todos nós professores sonhamos. Sim. A escola que TODOS nós professores sonhamos.

“Mas há professores que são um desânimo só”, “há pessoas que fazem da educação um bico”. Estou falando de professores e quem se faz professor sabe e ostenta com alegria a alegria que é ser parte do processo educativo de alguém.

A escola com que todo professor sonha é aquela onde os alunos estão engajados, onde nossos objetos de estudo fazem os olhos dos nossos alunos brilharem assim como nossos olhos brilharam um dia! A escola com que sonhamos é aquela onde toda criança possa ser livre para aprender e aprender a aprender. É a escola em que, mais do que dar aulas, somos multiplicadores de sonhos. Sim, professores multiplicam sonhos. Em um país marcado por forte desigualdade social, a educação carrega a responsabilidade – institucionalizada pelo Estado a partir de orientações de órgãos econômicos internacionais – de promover os sujeitos a melhores condições de vida. É, muitas vezes, a partir dos sonhos de se alcançar um lugar melhor que nós, professores, conseguimos fazer com que se cumpra a finalidade maior da escola: o aprendizado.

Catmat me trouxe a alegria de saber que no país onde, para o atual presidente, “70% dos alunos não sabem regra de três, interpretar textos ou perguntas básicas de ciências”, meninas e meninos estão ensinando Matemática e coisas mais no YouTube. A educação é um lugar marcado por resistência, e a maior de todas elas é resistir para/pelo/a partir do sonho.

Um comentário

  1. Orgulho danado em ser sua contemporânea, Daniel. E poder ver esse carinho com que você fala da educação tão de pertinho! Obrigada por ser tanto. Você vai tão longe!

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