Antropoficção: uma nova era literária?

Pertenço à geração de Plutão em Libra, ou seja, daqueles nascidos entre 1972 e 1984. De acordo com especialistas em astrologia – ciência pela qual sou profundamente apaixonada –, essa marca sideral explica a notável sensibilidade ou vocação dessa geração em relação aos mundos distantes, a ligações com outras dimensões, a planos sobrenaturais, à profunda escuridão do desconhecido. Em outras palavras, uma geração que carrega um amor imanente e congênito pela ficção científica. Juntamente com essa geração que atravessou o milênio em plena juventude, a ficção científica também atravessou fronteiras epistemológicas até conquistar um estatuto literário comparável ao que romances da terra, romances indigenistas ou os chamados “romances de caudilho” significavam para a memória do século XX. Assim, a memória desse século está escrita em código de ficção científica.

No entanto, quero me corrigir imediatamente. “Escrever no código de” parece-me um absurdo para as ideias que apoiam esta análise. É que “escrever no código de” implica o apego consciente aos códigos de um gênero, como se um manual de instruções fosse seguido para modelar, por exemplo, uma história de ficção científica, uma história à qual não poderia faltar o famoso novum ou novidade tecnológico-cognitiva que Darko Suvin expediu em 1979 como requisito fundamental para criar um mundo e uma sociedade utópicos. Também não poderia faltar uma alteridade radical, sob a aparência de um alienígena, de uma máquina ou de uma versão anômala do ser humano, como é o caso dos zumbis, uma alteridade que enfatiza de fora a identidade ou o sentido do ser humano.

No entanto, as coisas mudaram e o gênero que durante décadas teve esse estigma artificial da “literatura menor” está passando por um de seus momentos mais interessantes, mas também por uma crise sem precedentes de narratividade. Das duas coisas é que eu quero falar. De seu esplendor e sua ameaça irredutível.

Sabemos bem que as histórias de ficção científica – contos ou romances – começaram como textos especulativos que fantasiavam sobre possibilidades sem precedentes na esfera científica, ou seja, ensaiando discursivamente comportamentos físicos ou mecânicos com as coordenadas que determinam nossa terceira dimensão: longitude, altitude e latitude. Assim, tanto o balão de ar quente de Júlio Verne quanto os instrumentos de supercontrole dos mundos distópicos ou os laboratórios de manipulação do corpo prometeram o que hoje, por exemplo, é a aeronave supersônica que a NASA está projetando, os chips que implantamos nos animais de estimação, os robôs-abelhas inventados para polinizar plantações cujos ecossistemas não mais promovem a reprodução de abelhas reais – ou melhor, orgânicas, porque o “real” como sinônimo de “natural” também está em questão –, ou a personalidade virtual que alimentamos nas redes sociais e a que é dada tanto ou mais preeminência quanto o assunto cotidiano, insatisfeito e imperfeito que geralmente incorporamos. Sim, esse desejo de ir dialeticamente além do limite material empírico imposto pela precariedade do mundo alimentou a vocação especulativa do gênero. Hoje sabemos que a coragem especulativa encontrou um limite. A tecnologia do século XXI retirou da ficção científica a capacidade ilimitada de invenção de que gozou em outros tempos, quando sua natureza literária funcionava como a premonição ou profecia lúcida de possibilidades técnicas e mecânicas capazes de exibir os segredos ônticos do mundo. Essa tarefa da invenção teve que renunciar ao seu aspecto afetivo – devaneio – simplesmente porque o trabalho material da tecnologia global está indo a uma velocidade que não há mais essa pausa, essa hesitação, na qual o assunto ainda pode ser deslumbrado diante do novo. Pensemos apenas no serviço que essa nova era industrial, a de tecnologia, presta à medicina, agricultura, política, economia. Ela não nos alcança e invade, talvez, certa modéstia ontológica ao descobrir ou confirmar que tudo já está imaginado ou em processo de imaginação por esse novo fazer, por essa ordem de preocupações que surgem do capitalismo? Não é precisamente esse maquinário, possuindo a chave mágica de “faça-se a luz e a luz se fez” – logo, capitalismo – que domina a imaginação da possível tecnópole hoje? Em outras palavras, o Novum foi cooptado por essa nova fase industrial, a era do Vale do Silício, e a partir desse território de experimentação continua a seguir em frente, apenas para não traçar os contornos de um mundo desconhecido capaz de enfatizar nossos referentes empíricos, mas para confirmar a reprodução angustiante de uma novidade eterna, se me permitem a contradição.

Em suas origens, a ficção científica ergueu, então, sua aposta nessa distância intransitável entre a história literária e os referentes realistas. Considere, por exemplo, as projeções de A invenção de Morel (1940), de Adolfo Bioy Casares. Essas gravações ainda estavam longe dos hologramas que hoje permitem que Michael Jackson ou o amado Juan Gabriel ressuscitem em concertos em massa. Essa distância entre fantasia e empirismo foi o lugar utópico em que o leitor parou para procurar um futuro desejado, temido e fundamentalmente inatingível. Mas, por pior que seja, essa latitude diminuiu e nesse recuo triunfa emocionante mimesis que põe em risco uma das funções mais importantes e definidoras do gênero de ficção científica. Nesse sentido, uma pergunta que me cerca e que quero compartilhar com você é se o primeiro nome desse gênero, “ciência”, estaria agora sob escrutínio e se, em tal circunstância, essa incerteza de identidade deveria nos convidar com justificativa para pensar, não digo em uma nova afiliação ou nomeação patronímica, mas em um horizonte renovado de compreensão do terreno em que o gênero foi forçado a se adaptar e se transformar, como qualquer outro organismo que vive em um ecossistema hostil.

No ano de 2000, em plena agonia do século XX e durante o nascimento defeituoso do XXI, o cientista holandês Paul Jozef Crutzen, juntamente com o americano Eugene Stoermer, propôs o termo “Antropoceno” para substituir o que tínhamos ou estávamos usando com dados de 10.000 anos: o Holoceno. O “holoceno” se referia com preeminência à maneira pela qual o clima, devido à dinâmica imanente, estava mudando até que suas glaciações se suavizassem, elevando suas temperaturas. No entanto, Crutzen observou que a ação do ser humano na face da Terra havia modificado o clima de tal maneira que seu impacto também revolucionou o restante das espécies. Esse impacto sem precedentes o levou à criação acidental do termo – antropoceno –, sem ainda calcular o acúmulo de conotações, não apenas científicas, mas filosóficas que esse novo batismo implicaria. A partir do século XVIII, com a Revolução Industrial, a humanidade se tornou o fator geológico dominante.

Será que, graças às conotações controversas que Crutzen e uma crescente comunidade científica atribuíram ao prefixo conceitual anthropo, o termo agora pode nos servir no campo literário – ou, em palavras mais ousadas, no campo da filosofia literária – refletir sobre a reviravolta epistemo-narrativa que a ficção científica está passando, direcionando sua atenção não mais para o maquínico, mas para o surgimento de uma subjetividade humana consciente de sua própria extinção. Uma subjetividade que, estando do lado oposto da sobrevivência, fala mais do despejo. Gostaria agora de apontar alguns indicadores que, sem seguir categorias ou hierarquias, nos alertam para essa mudança não apenas temática, mas sobretudo filosófica do gênero.

Antes de sua partida e por algumas décadas, Stephen Hawking havia recomendado, com clara ênfase e certo nervosismo, a revisão de nossas ambições espaciais.[i] Após a viagem à Lua em 1969, a corrida espacial havia estabelecido um novo objetivo: Marte. Lá, no planeta vermelho e frio, encontraríamos o espelho de nossas revelações. Talvez os recursos energéticos de Marte e suas surpresas inesperadas nos permitam finalmente nos conhecer melhor como raça humana. Hawking, no entanto, reconsiderou o lugar da utopia e propôs repetida e humildemente re-medir o escopo de nossas pesquisas. “É a lua”, disse Hawking, está lá, nessa luminosidade emprestada, onde encontraremos respostas e recuperaremos o ar para continuar a grande conquista. A seção que nos separa ou nos liga à lua nos permitirá calcular os riscos e os avanços de uma estrutura humana. Isso, que à primeira vista pode parecer uma decisão estratégica em termos de distâncias – e por que não dizer, do potencial de guerra –, constitui um repensar da recreação utópica nas histórias de ficção científica. Por exemplo, no filme do diretor Ducan Jones, Moon, de 2009, um astronauta ansioso para retornar à Terra para recuperar sua vida em casa, depois de terminar sua missão de supervisionar os recursos energéticos que a Lua promete, descobre que ele não está sozinho. Ele está cercado por ele mesmo: uma sucessão de clones adormecidos aguarda sua vez de ajudá-lo nessa tarefa que pode levar séculos. O filme coloca o foco, não tanto no problema da crise energética terrestre – tão factual e inegável, a propósito –, mas nessa especularidade familiar do humano que reside na lua, no deslocamento de uma identidade – da alegoria desse astronauta rizomaticamente clonado – que é fraturado, que luta contra sua extinção por meio de repetidas memórias, impedido de experimentar e inovar. Aprimorando um pouco a conclusão: o filme sugere que não é necessário ir a Marte para reativar o problema copernicano e o imensurável e sancionado desejo galileu, a virada fundamental está acontecendo agora e tem a ver com a intuição de que é nossa espécie que fora do lugar, aquele que deixou a órbita gravitacional das outras espécies.[ii]

Precisamente, um dos pensadores mais contemporâneos que vem refletindo sobre a extinção da espécie humana é Fabian Ludueña Romandini. Em seu ensaio “A incerteza como destino político”[iii], Ludueña Romandini chega à ideia do desaparecimento da raça a partir de uma exaustiva revisão histórica do termo “catástrofe”, tão intimamente associada na modernidade à regulação divina dos Poderes terrestres. No entanto, diz Ludueña Romandini, no início o termo estava ancorado no território da história poética: “No grego antigo, katastrophé tem um significado técnico muito preciso que não está de modo algum ligado a desastres naturais (ou civilizados), que são conotados pelo significado moderno da palavra. Pelo contrário, seu campo semântico cobre o espaço do teatro e, mais especificamente, designa a conclusão ou o fechamento dramático de uma peça teatral.”

Essa afirmação me convida a pensar sobre quão geneticamente ligado à catástrofe é o gênero da ficção científica. Ocorre-me que sua manifestação como “Antropoficção” poderia honrar os dois momentos do termo “catástrofe”, tanto quando se refere ao fechamento dramático de uma história, quanto quando, no momento da modernidade, “calamidade” e “catástrofe” agem em práxis como sinônimos: “A catástrofe será então a linguagem mais apropriada na qual a natureza expressará sua indiferença antropológica na presença do homem em seu seio. Seus movimentos geológicos, suas alterações e suas catástrofes ocorrerão sem que o homem possa evitá-los”, afirma Ludueña Romandini no ensaio acima mencionado. Poderíamos dizer que essa autonomia violenta da natureza é uma das preocupações atuais da Antropoficção.

Outro indicador importante está em uma agenda temática que foi imposta de forma gradual, mas irredutível. Nos Estados Unidos, desde o início deste século, o termo Cli-Fi vem se consolidando em referência ao fenômeno das mudanças climáticas. Assim, a Ficção Climática designa uma tendência narrativa dentro da ficção científica especulativa preocupada em ensaiar os resultados sinistros do aquecimento global. Romances como The Road (2006), de Comarc McCarthy, ou The Name of the World is Forest, de Ursula Leguin – escrito em 1976 com a mediunidade imanente da ficção científica! –, ou The Tale of the Maid (1985), de Margaret Atwood, ou mesmo da caverna do fantástico, La Niebla (1980), de Stephen King, percebe o estado sociopolítico do apocalipse que é desencadeado com uma subversão do clima. Essa abordagem do assunto parece nos lembrar que o clima é talvez a última força política e que precisamente sua consciência política, embora muito diferente da lógica humana, passa por uma conexão profunda com uma ordem sagrada do universo. Conexão – terrível ironia – que a subjetividade humana foi determinada a ignorar a desculpa de que o discurso jurídico religioso era uma garantia suficiente de sua superioridade biológica. Assim, na ordem bíblica de Gênesis 1.28, que diz: “E Deus os abençoou, e lhes disse: Sejam frutíferos e multipliquem; encham a terra, sujeitem-na e governem nos peixes do mar, nos pássaros dos céus e em todas as bestas que se movem na terra”, o genoma de uma unidade capitalista parece estar criptografado. Na conferência “A face intrigante de uma Gaia secular” (vídeo), o filósofo francês Bruno Latour critica, no entanto, o olhar indescritível da modernidade.[iv] A respeito desse primeiro impulso, Latour se pergunta: “De todas as ciências, a economia não foi a gênese de nossa catástrofe?” Em sintonia com essa preocupação, Ludueña Romandini reconhece naquele princípio econômico de domínio de espécies um dos primeiros atos eugênicos, mas uma vez executada a primeira “limpeza” e seleção das espécies úteis para a humanidade e uma vez esgotado o potencial ideológico da economia, a raça fica desabrigada. Latour o resume assim no seu “Ensaio de um manifesto composicional” (2010): “Tudo acontece como se a raça humana estivesse novamente em movimento, expulsa de uma utopia, a da economia, e em busca de outra, a da ecologia”[v]. Certamente, esse desejo de ecologia não chega a encontrar esse pós-humano, ou “póstumo”, para colocá-lo com Ludueña Romandini, mas o expulsa e o aniquila. E é nessa surpresa negra que “Anthropofiction” constrói as histórias do século XXI.

O terceiro indicador constitui essa outra virada de epistemes relacionada às linguagens da sabedoria. Sabemos bem que o capitalismo se instala como um horizonte de convivência humana na polis, em íntima cumplicidade com estruturas religiosas. Eu já disse que a gnose bíblica, usada pelos axiomas do capital, incendiou mandatos arquetípicos que celebram o poder do ser humano sobre os recursos da natureza. Na suposta superioridade espectral da espécie humana – apenas o humano possui uma alma – e depois com a secularização e a iluminação – na oposição binária homem-animal, assumindo como bestas passivas talvez, mas igualmente sujeitas à sua própria ‘irracionalidade’, ao vegetal e ao mineral – passamos a acreditar aleatoriamente que apenas o trabalho que traduz a razão era mais do que o sólido aval de nossa perpetuidade na face da Terra. Latour insiste que é necessário decifrar outras línguas se quisermos entender com sinceridade o lugar que ocupamos nas hierarquias que projetamos. A falácia da escala em que a pedra é menos inteligente que a árvore e a árvore menos complexa que a onça-pintada, para citar exemplos precipitados, jogou um tremendo truque sobre nós. Latour fala de Gaia como o grande professor, a última possibilidade que temos de aprender a sério, não sob a ilusão de que nossa modernidade, esse texto, essa composição baseada na linearidade do tempo é o último estágio – em correlação com a tecnologia, é claro – a partir de nossa compreensão das relações orgânicas entre seres vivos e objetos. Existem línguas de que desistimos sistematicamente e que podem nos dar uma chance final de sobrevivência como espécie, alerta ele. Como a Terra sabe que deve ser organizada em camadas geológicas? Como você sabe? É para esse conhecimento antiepistemológico, para colocá-lo rapidamente, que seria necessário aspirar a parar nossa extinção. Portanto, é impressionante e de qualquer maneira emocionante e natural e espontâneo que as populações humanas deste século imitem instintivamente os comportamentos da natureza em seu processo de subversão diante dos excessos criminosos do capitalismo. Penso na grande caravana que partiu da América Central para o México. Quando muitos desses peregrinos foram questionados sobre essa decisão, eles disseram que juntos estavam mais bem protegidos e, portanto, estavam juntos como um movimento político. Deixe-me sugerir que esses êxodos sejam articulados – não como a emigração de aves que atravessam as regiões de acordo com as mudanças sazonais – mas sim imitando o impulso físico dos furacões, ou seja, contrariando o acúmulo de elementos que os provocaram, alimentando-se dos níveis contraditórios de pressão, modificando as condições originais dos territórios pelos quais passam.

Em resumo, acredito sinceramente que a Antropoficção, coberta por esse prefixo que questiona e enfatiza o que até recentemente entendemos como essencialmente humano, é capaz de explicar os abismos e contradições que nossa espécie agora enfrenta. A primeira ficção científica viu uma ameaça na máquina, mas também uma possibilidade erótica e sexual com o potencial de transcender barreiras morais. A antropoficção admite a autonomia da máquina, sua identidade como objeto híbrido, sua capacidade insuspeita de desejar, julgar com uma moral particular e organizar a polis sob dinâmicas ainda em transformação. A aceitação dessa conquista de máquina permite que a escrita recrie mundos, imagine histórias – alotopias, e não distopias –, nas quais o ser humano refez sua autoimagem e talvez se prepare para dinamizar as hierarquias que insistem em mantê-lo o topo de suas ruínas, respirando as primeiras partículas de suas próprias cinzas.

Em seguida, para esclarecer um pouco esses pontos de análise que propus a você, quero comentar alguns romances que poderiam muito bem ser colocados sob a égide da sensibilidade da Antropoficção.

Li recentemente América alucinada (2016), da escritora argentina Betina González.[vi] Neste romance, temos a queda flagrante de um modelo ocidental de sociedade familiar e a acumulação de bens. O desastre é desencadeado pelo ataque sistemático de veados cujo comportamento mudou de domesticidade relativa, devido à sua proximidade com o urbano, a uma exacerbação de sua natureza animal. Esse ‘transbordamento’ ironicamente aproxima os cervos da predeterminação maligna da mente humana, como se, ao enfatizar as naturezas, concretizássemos uma sinapse em movimento, terrível e complementar de nossos seres. Na América alucinada, os pais abandonam os filhos para morar na floresta, em guerra franca com veados enlouquecidos. Essa renúncia à coexistência social imparável dentro da estrutura da polis aspira ou se torna um novo estado de consciência ativado pelo consumo de “albaria”. A “albaria” ou, de fato, “Flor da consciência”, é originária do Caribe, uma região que no romance de González é apenas um sonho nostálgico, uma memória cheia de tristeza e culpa. A “albaria” é, então, a metonímia daquele Éden já devastado definitivamente pela superexploração econômica, e aqueles que permanecem, os “póstumos”, intuem em sua retirada residual que, apenas retirando marcas civis, afundando no consumo da albaria voltar a uma natureza primordial, só então eles talvez encontrem uma maneira de persistir. Como na interpretação de como era o humor do movimento hippie, alguns personagens deste romance arriscado e ambicioso fazem da albaria um portal gnoseológico.

O romance Quema (2015), da escritora catalã Ariadna Castellarnau, alega a necessidade de incinerar capital e sua mais-valia.[vii] Em Quema, a extrema escassez de alimentos em regiões que poderiam pertencer a qualquer continente do mundo reduz os seres humanos a uma profunda sensação de fome. Apesar dessa nudez afetiva causada pela fome, os sobreviventes daquele mundo devastado têm energia suficiente para queimar seus últimos pertences em grandes piras com as quais parecem purificar o cadáver do planeta e emergir para uma subjetividade humana diferente, livre do clientelismo da cidadania

Quem dorme no pó (2017), de Horacio Convertini, recorre à decadência desencadeada por um vírus que zumbifica cidadãos e que é protegido pelos novos limites geográficos impostos pela natureza.[viii] Assim, o deserto ou o rio agem como autênticos reguladores dos últimos poderes políticos. O fenômeno climático também está presente em O ano do deserto (2005, 2012), de Pedro Mairal.[ix] Nessa proposta, temos o “ao ar livre”, um clima avançado cuja ação transformadora consiste no apagamento de toda manifestação material moderna; assim, a internet, o direito de voto das mulheres, o transporte para combustíveis, a tecnologia médica e até o idioma estão sendo devastados por esse clima incontrolável. O convite para pensar nesse clima como uma alegoria do corralito, a crise econômica que revolucionou os setores sociais em 2001 na Argentina, é poderoso. O sujeito póstumo que se entrega a essa espiral invertida da história, que declarou resistência à flecha compulsiva do progresso, está descobrindo as linguagens da natureza que na ilusão evolucionária ele substituiu pelo conhecimento temporal. A protagonista, uma jovem de trinta e poucos anos, descobre, por exemplo, que é mais útil saber se manter no pântano do que possuir algumas habilidades tecnológicas.

Em Caja de fractales (2017), o escritor porto-riquenho Luis Othoniel descoloniza o tempo histórico para gerar uma descolonização mais importante e radical.[x] Como um garfo de fractais, os tempos do romance não estão organizados em nenhuma linearidade possível. Os personagens – ou seus nomes ou indicações – vivem em anos completamente aleatórios: 2073, 2030, 2701, talvez colocando o novo ponto de partida em 2017, quando o furacão María devastou a ilha. É curioso, porém, que o romance não proponha viagens ao passado, anulando a tentação moderna do anjo benjaminiano de colocar ali, na infância histórica, o objeto de seu duelo. Em Caja de fractals, existem porvires, mas, como diz Latour, “não há futuro”. Os personagens procuram desesperadamente maneiras de chegar a La Catedral, um lugar subaquático que, na realidade, é um moridero, a urna subsequente daqueles que são derrotados pela violência estrutural da economia.

Nos dias da peste (2017), de Edmundo Paz Soldán, a presença do bacteriológico é mais do que um paralelo inteligente com a superlotação e gentrificação de La Casona, uma prisão cuja ordem e caos ocorrem no magma do sagrado.[xi] Nesse romance, Ma Estrella ou “O Inominável” é um tipo de virgem ou divindade na qual os homens expulsos da vida civil encontram uma correspondência. Uma possível leitura deste trabalho de Paz Soldán nos leva ao caminho dos arquétipos. É possível reconectar com o fato de que a modernidade mudou para o ritual de consumo, ou seja, o sagrado? É necessário abandonar a identidade humana e adotar outros comportamentos? Com a multiplicação viral e bacteriana, o sujeito encarcerado deve renunciar à civilização à qual pertence e desintegrar-se ou multiplicar-se na violenta transubjetividade de uma prisão, onde ser “um” não é apenas um luxo, mas não augura nada. sem sobrevivência

Conclusão

Estou ciente de que o prefixo “Anthropo” pode pecar como tautológico quando falamos de ficção. Mas também acredito que, por outro lado, a palavra “ciência” está passando por uma crise já inquestionável de representação narrativa e é bom que seja assim. Durante grande parte do século XX, a ficção científica latino-americana, especificamente, experimentou faixas de modéstia e baixa autoestima porque os instrumentos gnoseológicos com os quais ela articulava suas histórias deviam pouco aos avanços científicos. Os “dispositivos”, gadgets e outros automatismos eram típicos do Primeiro Mundo. Essa aparente lacuna permitiu, felizmente, o cultivo de manifestações inesperadas do gênero em que o futuro era um território estrangeiro, de uma fascinante “alienidade”, cheio de possibilidades filosóficas. Hoje, quase duas décadas após o nascimento do século XXI, essas lacunas estão fechadas e talvez estejamos enfrentando um momento único para conversar sobre o modo como queremos chamar esse enorme desejo narrativo de imaginar o que está por vir, de antecipar a escuridão e as cinzas, de luto pela extinção de nossa espécie.

Recentemente, li o prólogo da Primeira Antologia da Literatura Fantástica Neo-Indígena (2018), compilada na Bolívia por Iván Prado Sejas e Willy Muñoz, e celebrei a relevância desse volume. Talvez o gênero que melhor responda com relativo imediatismo e simultaneidade saudável às mudanças sociopolíticas da Bolívia seja, de fato, o de uma ficção científica e uma fantasia que exija, em vez de um adjetivo esclarecedor, um sobrenome nacional: “Neoindigenista”. Qual será a sensibilidade, o novum e o futuro que essa narrativa nos promete? Promessa ou ameaça? Apocalipse ou nova gênese? Retorno ou eternidade? Perguntas que eu, filha de Plutão em Libra, lua escura em Capricórnio, faço aqui para que juntos nos aproximemos do fogo primordial das respostas. Aquele fogo que, do gelo infinito de Ítaca, onde eu moro agora, se move atrás das colinas como a mais alta das utopias.

Ensaio de Giovanna Rivero, publicado em El Diletante, em 18 de setembro de 2019. Disponível em: <https://bit.ly/3eKMdHS&gt;.

Tradução: Inaê Diana Ashokasundari Shravya


[i] Por el bien de la humanidad… Nota periodística sobre Stephen Hawking. Disponível em: <https://www.bbc.com/mundo/noticias-40355745>.

[ii] A lua é também considerada arquetipicamente pelos estudos astrológicos como a manifestação das emoções, a maternidade, o passado, o trauma e os males psíquicos.

[iii] LUDUEÑA ROMANDINI, Fabián. La incertidumbre como destino político. Incerteza, ano 3, n. 7, 2016. Disponível em: <http://climacom.mudancasclimaticas.net.br/?p=6173>.

[iv] LATOUR, Bruno. The Puzzling Face of a Secular Gaia. Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eFUHXJF9wVE.

[v] LATOUR, Bruno. Ensayo de un manifiesto composicionista. Revista Fractal, n. 76, 2010. Disponível em: https://www.mxfractal.org/articulos/RevistaFractal76BrunoLatour.php.

[vi] GONZÁLEZ, Betina. América Alucinada. Tusquets, 2016.

[vii] CASTELLARNAU, Ariadna. Quema. Gog & Magog, 2015.

[viii] CONVERTINI, Horacio. Los que duermen en el polvo. Alfaguara, 2017.

[ix] MAIRAL, Pedro. El año del desierto. (2005) Edición de Susan Hallstead y Juan Pablo Dabove. Stockcero, 2012.

[x] OTHONIEL, Luis. Caja de fractales. Entropía, 2017.

[xi] PAZ SOLDÁN, Edmundo. Los días de la peste. Malpaso, 2017.

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