A curadoria brasileira no Brazil

O canal arte1 em todo seu enfoque na desconstrução da paradigmática da arte em seus documentários e programas sobre pixações, instalações e intervenções urbanas feitas por coletivos de vanguarda de São Paulo e, ainda, o artesanato baiano. Exibir qualquer filme sobre os principais ícones da música pop francesa; os brasileiros em geral conhecem no máximo pelo escândalo de ‘Je t’aime moi non plus’; e filmes alemães ganhadores de óscares, séries de massa da BBC ao qual nenhum canal de TV paga se preocupa em exibir porque The Big Bang Theory é a ordem de fazer o público em geral se nutrir para além dos canais de esporte e variedades. A vanguarda paulista em seu auge oitentista consistiu em fazer música pop dodecafônica e releituras de Brecht, diz a wikipédia; todos sabemos que foi para muito além disso a experiência: Era um misto de desertificação pós-tropicalismo com umbanda e experimentações que para um leitor acostumado à internet que não imagina ou não se lembra dos tempos da ditadura não concebe o que é a não-massificação de registros, e ainda, a total parcimônia em fazê-los em vista da ausência de matéria para tal. Dodecafonismo. Como identificar o método como uma degeneração germânica? a identidade clássica do dodecafonismo é a própria degeneração que um alemão do tempo do expressionismo sistematizou; o legado máximo de Schoenberg é ter deixado três discípulos que fizeram de tudo pra vanguardizar o romantismo, mesmo que inconscientemente. O último filósofo moderno adornou a música de câmara dum jovem italiano com nome que nos soa quase obsceno, mas o método não lhe era o suficiente; era necessária a sensação. A diferença entre uma improvisação do Bussotti, tocando as cordas do piano diretamente e com total calma, em relação à freneticidade de uma de Cecil Taylor, é o devir-negro, que se expressa no groove deste último; em ambos os casos se trata de deixar o inconsciente fazer o cromatismo gritar, de modo a não haver mais nenhum clichê. “Só tem 12 notas”, um amigo me disse uma vez, “e milênios de história da música… Não tem mais nada pra nois fazer”. Válvulas e chips e softwares fazem música; estamos na era da pós-instrumentalidade, que não implica num pós-humanismo (pois este está nas suas últimas). Hendrix não fazia a guitarra gritar; fazia toda uma imanência gritar: Seus pedais de fuzz e wah-wah, amplificadores marshall, cabos; o LSD, sua garganta; a estrutura do palco, o público de Woodstock. A marcha contra a guitarra não foi um movimento de negação do imperialismo, simplesmente; foi um grito de desespero de um povo colonizado que via no humanismo seu refúgio. Grandes tolos!… tropicalismo deu-lhes na cara. O primeiro açoite à instrumentalidade-humanismo na música se deu na capacidade de registro e reprodutibilidade técnica e distribuição em massa. Um disco de vinil se tornou prótese do gosto musical de qualquer sujeito civil descente. Que há de autóctone nas Bachianas brasileiras? seria um capricho da sociedade burguesa do Sudeste em se afirmar como um povo de si bastardo? Arrigo Barnabé faria mais a própria musicalidade gritar que o próprio Schoenberg? ou o que há de mais potente em nossa cultura é o que nosso povo tem de mais autóctone, isto é, africano (o samba)? Dever-nos-íamos esquecer qualquer de(s)colonialismo vulgar, e deixar de tentarmos ser; pois não somos – brasileiros, em toda multiplicidade que esta palavra anoréxica pretende se referir –, devimos.

Ana Terra Abrahão

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