Por que a obra de Julia Serano marcou o transfeminismo?

Publicado na coleção feminista Sorcières, da editora Cambourakis, o Manifeste d’une femme trans [Manifesto de uma mulher trans], de Julia Serano, acaba de ser objeto de nova tradução revista e ampliada. Pesquisadora de longa data em biologia na Universidade de Berkeley, poeta, música e ativista, Julia Serano é autora de três ensaios notáveis nos Estados Unidos. O último, Outspoken: A Decade of Transgender Activism and Trans Feminism, publicado em 2016, relembra a ascensão do ativismo a favor das pessoas trans, a elaboração de um feminismo trans do outro lado do Atlântico e tenta imaginar continuidades. Praticamente desconhecida na França, a obra de Julia Serano joga luz sobre o cotidiano das mulheres trans em uma sociedade que, do meio médico às mídias, passando pelo mundo acadêmico, as marginaliza duplamente, tanto por sua transição quanto por sua condição de mulher. Seus escritos misturam proposições teóricas com sua própria experiência (ela fez sua transição em 2002), elaborando um olhar crítico original.

Em 2014, Noémie Grunenwald, editora que se iniciou na Hystériques & AssociéEs, tradutora e aprendiz-pesquisadora na EHESS, tomou a iniciativa de traduzir vários capítulos de Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and The Scapegoating of Femininity, primeiro ensaio que Julia Serano publicou originalmente em 2007. No prefácio da reedição que fez para a editora Cambourakis, Noémie Grunenwald saúda o “descentramento” permitido por sua leitura, o que abre pontos de vista para situações de discriminação particular sofridas por mulheres trans, ao mesmo tempo em que tem consciência de certos limites do trabalho apresentado no Manifeste d’une femme trans. Aqui, ela nos explica as contribuições sem precedente das teorias de Julia Serano.

“Uma vez que as discriminações antitrans estão impregnadas de sexismo tradicional”, escreve Julia Serano, “o ativismo trans deve estar na base, necessariamente, de um movimento feminista”. Em que seu trabalho contribuiu para tornar o “transfeminismo” em um feminismo?

Para começar, o que é chamado hoje “transfeminismo” emana do feminismo, e resulta inicialmente da exclusão brutal das mulheres trans por uma franja minoritária do movimento feminista. Depois, devemos observar o heterocentrismo, a branquitude da corrente feminista majoritária, que contribuíram para uniformizar as vivências das mulheres e a manter o mito de uma experiência única do ser mulher.

Portanto, a questão não é tanto incluir as pessoas e as questões trans no feminismo, mas pôr um fim à apropriação deste por uma minoria branca, burguesa, heterossexual e, portanto, também cisgênera. Especialmente no que concerne às mulheres trans: essa minoria trabalhou duro para excluí-las, quando, inicialmente, a maioria do movimento era bastante favorável ou indiferente à sua presença. Podemos citar um dos casos mais divulgados na época: a saída forçada de Sandy Stone da gravadora Olivia Records em 1979. Foi esse contexto que favoreceu a criação de um movimento trans mais ou menos distanciado do feminismo, a tal ponto que, hoje, as questões trans não são quase mais pensadas senão através de uma única corrente de inspiração queer que tende a transformar o gênero em identidade e prática individual, o que me parece lamentável.

Julia Serano ampliou as possibilidades de pensar as questões trans tanto quanto sobre o sexismo. Ela começou a refletir novamente sobre as experiências das mulheres trans como experiências de mulheres, entre outras, confrontadas com mecanismos comparáveis ou similares àqueles com que são confrontadas as mulheres em seu conjunto. Seu trabalho participa, portanto, de um descentramento do feminismo, uma vez que foi apropriado por uma minoria, e contribui para desfazer a diferenciação que foi imposta às mulheres trans. Nesse sentido, une-se aos trabalhos das feministas negras, decoloniais, lésbicas etc., que lutam, entre outras, contra a uniformização das experiências das mulheres.

Há dez anos, quando você descobriu Whipping girl, você teve, como deixou registrado no prefácio da obra, um “sentimento de urgência” face à ausência de pessoas trans enquanto sujeito político e feminista nas produções editoriais. Por que lhe pareceu então importante publicá-lo? Que vazio ele veio preencher na França?

Com algumas exceções, as questões trans são abordadas na França apenas em narrativas em primeira pessoa ou em obras médicas. Embora o impacto nocivo da psiquiatrização das pessoas trans já esteja bem demonstrado, o testemunho na primeira pessoa é menos evidente. Qualquer que seja sua utilidade, sua qualidade e suas boas intenções, essas narrativas contribuem, entretanto, para encerrar as pessoas trans na experiência: estamos interessados nelas porque dissecam sua intimidade para satisfazer nossa curiosidade voyeurística e servem como “refresco” intelectual por responder nossas questões existenciais sobre gênero. Se esses capítulos do primeiro livro de Serano me pareceram importantes de serem publicados, é porque justamente desta vez ela estava fazendo as perguntas.

Segundo Julia Serano, há muito maior interesse médico e cultural, além de visibilidade, para as mulheres trans do que para os homens trans. O que você pensa sobre isso?

A questão da visibilidade é delicada porque sempre pressupomos que a visibilidade é uma coisa boa – sobre o que não estou convencida. As mulheres, em geral, tornam-se mais visíveis que os homens porque são construídas como “outras-diferentes”, de acordo com a expressão de Monique Wittig. Assim, a cultura sempre foi mais fascinada pelas mulheres, por aquilo que elas “são” (contrariamente com os homens, que interessam pelo que “fazem”), mas não por si mesmas, já que preferem servir como instrumentos destinados a perturbar, coagir ou encorajar uma narrativa central masculina. O mesmo acontece no espaço público ou profissional, onde são mais as mulheres que são observadas, examinadas, escrutinadas, mesmo que isso ainda deva ser qualificado de acordo com relações sociais de raça e de classe que podem estar em jogo. A medicina também está historicamente mais focada nas mulheres do que nos homens porque o corpo das mulheres sempre foi considerado defeituoso, incompleto, perfectível. Assim, as pessoas trans não escapam a essas dinâmicas: as mulheres trans são sempre mais visíveis que os homens trans, especialmente nas produções culturais. Esse roteiro permanente das mulheres trans tem dois efeitos principais. Primeiramente, seu perigo imediato, por efeito da supervisibilidade. Em segundo, a construção de uma narrativa oficial que supostamente representa suas experiências, mas que na realidade traduz apenas fantasias e preconceitos. Portanto, essa maior visibilidade das mulheres trans em relação às outras pessoas me parece bem real e mensurável, e seus efeitos são desastrosos.

Julia Serano observa que as representações midiáticas das mulheres trans nos Estados Unidos se dividem entre duas figuras igualmente humilhantes: a da “mulher trans usurpadora”, cuja feminilidade é exacerbada, e a da “mulher trans patética”, com a qual se aponta, ao contrário, para sua ausência. Podemos transpor esses modelos para a maneira como as pessoas trans são representadas na França?

É preciso entender que essas figuras são artificiais: elas respondem às fantasias e aos preconceitos dos produtores/diretores, mas não narram as realidades vividas por mulheres trans, exceto no que é projetado sobre elas. Para a França, devemos nos referir aos trabalhos de Karine Espineira, pois não estudei o assunto. Mas essas categorias me parecem transponíveis: ou as mulheres trans são demonizadas e fetichizadas porque elas teriam um segredo bem escondido, ou são desprezadas porque viveriam eternamente em um ridículo intermediário. Esses modelos estão, entretanto, muito distantes das realidades das mulheres trans e participam de sua diferenciação e sua punição, como demonstrou Pauline Clochec.

Julia Serano emprega um grande número de neologismos, tais como ‘generamento’, que define a maneira compulsiva que temos de classificar aqueles que encontramos na categoria homem ou mulher, ou o ‘desgeneramento’, que, ao contrário, questiona constantemente o gênero das pessoas trans porque põe em causa a divisão de gêneros entre feminino e masculino… Pensar o transfeminismo necessita de uma nova linguagem?

Sim, eu diria que, de maneira geral, pensar as lutas de liberação exige uma nova linguagem, já que esta de que dispomos é em grande parte construída por e pela norma dominante. Michèle Causse fala aliás de “androleto”. Pensar as realidades sociais oprimidas implica inventar palavras, declinações e expressões que não existem ainda, ou que não são utilizadas. Há muito tempo, as feministas experimentam com a linguagem, assim como as Ciências Humanas e a literatura, as manifestações etc. O que hoje chamamos “linguagem inclusiva” resulta, por exemplo, de décadas de experimentações feministas radicais. Repensar as questões trans necessita palavras e conceitos novos que se destacam daqueles que foram elaborados até aqui e que serviram sobretudo para demonizar, explorar, fetichizar e desacreditar as pessoas trans. Mas erigir novas regras e definições não me interessa, pois acredito que a linguagem é mais interessante para experimentar do que para normalizar.

Você menciona no prefácio de sua nova tradução sobre a distância tomada com as posições de Julia Serano no seio do transfeminismo. Por que isso? Quais leituras você recomendaria hoje àquelas e aqueles que se interessam pelas relações entre transfeminismo e feminismo?

Não se trata tanto de uma distância tomada de Serano em particular, mas de tudo o que chamamos hoje de “transfeminismo”. De início, penso que as questões trans precisam ser examinadas de uma perspectiva mais materialista, quer dizer, partindo do princípio de que o gênero participa e constrói o sexo, e que são essas condições sociais de exploração e opressão das mulheres que determinam seu pertencimento a essa classe. É isso que particularmente Emmanuel Beaubatie propõe em seus trabalhos, como também o livro em que estamos trabalhando atualmente com Pauline Clochec e vários autoras/es. Há também Cases Rebelles que vai publicar AfroTrans Expériences neste ano, mas sei apenas isso. Citarei por fim Viviane Namaste que escreve coisas muito pertinentes sobre esse assunto.

Entrevista a Eugénie Bourlet em 28 de fevereiro de 2020, publicada em Les Inrockuptibles. Disponível em: <https://www.lesinrocks.com/2020/02/28/actualite/societe/pourquoi-loeuvre-de-julia-serano-a-marque-le-transfeminisme/>.

Tradução: Luiz Morando.

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