O que pode um corpo?

Quando nós feministas – ao menos as comprometidas seriamente com a luta – dizemos que lutamos pela autonomia dos nossos corpos, os “nossos corpos” em questão não são os corpos exclusivamente femininos, mas os corpos da humanidade como um todo. Isso porque o objetivo do feminismo não é inverter e submeter corpos masculinos a corpos femininos, mas abolir o binarismo sexual. Isso, claro, levando-se em conta a luta de classes e outras formas de opressão como interconectadas, o que torna insuficiente qualquer análise atomizada, particularista, e de suma importância análises que levam em consideração o contexto – ou totalidade, como designam algumas correntes marxistas não idealistas.

Falar da autonomia dos nossos corpos implica falar de como nos utilizamos dele. Isso vai desde um homem cis que decide usar saia e batom, a um homem trans que decide engravidar, ou mesmo uma mulher trans que decide utilizar seu pau durante o sexo ou uma mulher cis que decide realizar histerectomia, não havendo uma hierarquia entre os exemplos apresentados, é preciso salientar. Pra quem tá familiarizado com uma luta feminista comprometida com a revolução social, essas coisas nem soam lá novidades. Contudo, há feministas burguesas que assumem uma postura reacionária diante das críticas feitas ao binarismo sexual. Afinal de contas, o que elas querem não é acabar com o binarismo sexual, mas tirar proveito dele para explorar outras pessoas socialmente estigmatizadas com base no binarismo sexual – pessoas essas que podemos designar dissidentes sexuais. Não à toa esse tipo de feminismo é composto majoritariamente por mulheres brancas heterossexuais de classe média que reivindicam cargos em empresas, assim como mulheres operárias que aderem a esse movimento por influência de outros movimentos reacionários, como o movimento neopentecostal. Há muito mais proximidade entre Mary Daly e Janice Raymond com obreiras da Universal do que com qualquer vertente feminista. O feminismo radical é tão feminista quanto o nacional-socialismo é socialista, a União Soviética é soviética, ou anarcocapitalismo é anarquista. Bom, espero não ter que explicar que o que eu acabei de dizer corresponde a uma apresentação de opostos. Vai que, né?

Chega-se ao absurdo de nos depararmos com essas feministas burguesas afirmando que homens cis se vestirem com saia e batom é apropriação da travestilidade, e portanto, ofensivo a mulheres trans e travestis – pelo não-dito, o que elas dizem é que mulheres trans e travestis são homens “vestidos de mulher” –, ou que homens trans decidirem engravidar é apropriação do corpo das mulheres. Aaaaaaargh! O pior é quando nos deparamos com essas ideias ecoando em pessoas que não conhecem as discussões que foram e estão sendo feitas sobre o tema. Quando um homem trans decide engravidar, ele está afirmando a possibilidade de uma outra disposição morfológica para o que se entende socialmente – e este aspecto é decididamente importante ressaltar – como “homem“. Não há apropriação pois não há uma substância que garanta um valor intrínseco às coisas. Não há uma propriedade privada do corpo que torne algo como o uso de saia e batom por um homem cis ou a gravidez da parte dum homem trans um roubo, pois é isso que se entende quando se fala de ”apropriação”. Até mesmo quando dizemos “meu corpo, minhas regras”, as regras em questão não são regras que inventamos a partir do nada, que encontramos em nosso âmago. Pelo contrário, essas regras costumam ser fundamentadas nas referências das quais dispomos. Spinoza chega a levantar a questão “o que pode um corpo?” e a resposta não pode ser outra que uma resposta em aberto, que se encontra sendo constantemente respondida. Um homem trans que engravida e não realiza mastectomia, uma mulher trans que faz uso do seu pau e não remove os pelos do rosto, um homem cis que explora a maciez prazerosa dos seus orifícios ou se depila, uma mulher cis que sente prazer com fisting ou que prefere comer do que dar ou que faz uso afirmativo de testosterona, são respostas dadas a essa pergunta. Não há uma resposta final, que encerre a questão. O uso que fazemos dos nossos corpos em proveito nosso é um tempo que roubamos do capitalismo. O respeito mesmo às normas de gênero, ao binarismo sexual, é uma forma de nos alienarmos dos nossos corpos, de suas potências.

Texto de Inaê Diana Ashokasundari Shravya escrito em 25 de maio de 2020.

Inaê Diana Ashokasundari Shravya faz uma breve e interessante reflexão sobre o uso do corpo como instrumento de manipulação ou de afirmação da identidade.

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